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Tu sabes que um jogo é mau quando acaba 1-0 e o golo foi um autogolo

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Sergio Perez/ Reuters

O Real Madrid ganhou (1-0) ao Manchester City e está na final da Liga dos Campeões. Vai defrontar o Atlético de Madrid em Milão, repetindo o jogo de 2014, de Lisboa. Ronaldo jogou, mas não marcou.

Um tipo chega a casa, liga a televisão e julga que não está a ver o que realmente está a ver. Se esta é uma meia-final da Liga dos Campeões, pensa ele, vou ali e já volto, sendo que ir a um lado e voltar é puxar o filme atrás e ver o Bayern-Atlético do outro dia.

Estavam ali o Manchester City e o Real Madrid e tanto uma como outra equipa têm craques, e o tipo, assim de cabeça, lembra-se de quatro ou cinco, com Ronaldo à cabeça. Depois, há o Kün, que foi genro do Maradona, o Kevin de Bruyne, que é parecido com o príncipe Harry, o Gareth Bale, que está com um penteado parecido ao do Tom Cruise no Último Samurai, e o Sergio Ramos, que está com um corte de cabelo que não se parece com nada nem com ninguém.

Voltando ao tipo e aos seus pensamentos, ele esperava que houvesse correrias desalmadas e intensidade, só que, logo aos oito minutos, o Kompany saiu agarrado à perna, e assim saiu de campo um dos melhores. O tipo de quem estamos a falar, googlou umas coisas e percebeu que esta era a 33ª lesão muscular do belga no Manchester City. Adiante, suspirou ele, pode ser que isto anime. E a verdade é que animou, durante 15 minutos, nos quais Gareth Bale fez um golo que era um cruzamento e um remate, e que acabou num autogolo de Fernandinho. 1-0 para o Real num encontro em que ninguém parecia estar muito importado em dominar - interessava era não ser dominado.

O tipo fez uma piada fácil: dois não fazem, o que um não quer. Neste caso, nenhum dos dois queria jogar à bola e, até ao final dos 45 minutos, o nosso conhecido viu Touré arrastar o corpo que já é grande mas que pareceu maior (veio de uma lesão), Ronaldo a ensaiar uns piques mas sem forçar muito (veio de uma lesão) e Jesé a fazer os possíveis para estar onde o CR7 não estava, para não atrapalhar.

Paul Hanna

Chegou o intervalo, o tipo deu uma vista de olhos pelo que se passava no mundo e volta e meia lembrava-se de que a época ia longa, que os jogadores não são máquinas e têm de mais de 50 ou 60 jogos nas pernas, e que a pressão de uma Liga dos Campeões pode congelar o mais quente dos futebolistas. E depois regressava ao Bayern-Atlético de Madrid e os argumentos que tinha construído pareciam-lhe irrelevantes. Não era uma questão de cansaço, mas de conceitos. Que viesse a segunda-parte.

Ronaldo Air Jordan

O tipo sentou-se, sintonizou o canal público e deu o benefício da dúvida ao jogo, quando Bale, Ronaldo e Jesé o aceleraram um bocadinho. Tinham espaço para jogar, porque o City não pressiona nem chateia, mas, ainda assim, nada feito. O único golo que se viu foi o de Ronaldo, que se armou em Michael Jordan e lançou a bola à baliza. Ele riu-se, o árbitro riu-se, e aquele parecia-lhe um encontro de pré-época - que não era.

Vai aí, o tipo que serve de cicerone nesta história repescou as palavras de Zidane - "Gosto de futebol de posse e passe", disse ele na apresentação - e percebeu que o futebol força a contradições. Se tens um plantel que está montado para defender e contra-atacar, não o podes transformar noutra coisa só porque sim.

Juan Medina/ Reuters

Obviamente, na segunda-parte, o Real pôs-se à espera, à espera que o City desse umas abébias (que as deu) para aproveitar os extremos que tem (Ronaldo e Bale) e o médio (Modric) que lhes põe a bolinha em profundidade. Ao City, que pôs o sónico o Sterling (por Touré) e Iheanacho (por Navas) a acompanhar Kün, cabia-lhe procurar o empate que seria uma vitória, porque eliminaria os merengues. O tipo ficou na expectativa mas sentiu-se enganado, porque o jogo nunca atingiu aqueles picos emocionais da Liga dos Campeões: o Real pareceu confortável por estar a vencer 1-0; e o City, se pareceu desconfortável por perder, foi apenas no minuto 89, quando Agüero rematou por cima da barra. Aí, sim, o City acordou, apertou, e forçou Navas a fazer um bocadinho de ant-jogo. Mas foi só isto. E isto foi pouco, lamentou o tipo, quando desligou a TV e apagou a gravação da box.

P.S. O Real Madrid vai à final pela segunda vez em três anos contra o mesmo adversário, que por acaso é o seu vizinho Atlético de Madrid. Em 2014, o Real foi campeão; em 2015, o Barcelona foi campeão; em 2016, será outro clube espanhol a ser campeão. O futebol é dos espanhóis e eles só nos deixam jogar de vez em quando.