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Ranieri, o homem a quem aconteceu não sei o quê

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Reuters Staff / Reuters

O italiano leva 30 anos a treinar e só agora pode vencer um título de campeão

Se houvesse um raciocínio lógico que explicasse o que é isso de ter sorte, julgo que este partiria das seguintes premissas: estar no sítio certo à hora certa, não estar no sítio errado à hora errada. Não são a mesma coisa. Um tipo que encontra por acaso um amigo que não via há séculos no terminal do aeroporto está no sítio certo à hora certa. Um tipo que não entrou no World Trade Center a 11 de setembro de 2001 porque se esqueceu da máquina fotográfica e voltou ao hotel para buscá-la, e viu o prédio desabar como um castelo de areia pela televisão, não esteve no sítio errado à hora errada. A primeira pode acontecer a algumas pessoas, a segunda aconteceu ao nadador olímpico Ian Thorpe. E isto, se quisermos dramatizar, pode definir uma vida. Ou pelo menos uma carreira — e chegamos a Claudio Ranieiri.

Ranieri pode amanhã conquistar o título de Inglaterra pelo Leicester (14h05, BTV2) se ganhar ao United, em Manchester, e esta será a história mais inspiradora que escreveremos e leremos nos próximos anos. Porque no ano passado o Leicester lutou para não descer. Porque o Leicester nunca foi campeão numa Liga que é mais democrática do que se pensa (Everton, Nottingham Forest, Leeds, Derby County ou Blackburn Rovers já a ganharam). Porque o Leicester não tem estrelas e no plantel até estão jogadores com cadastro e passado duvidoso. E porque tem o treinador que tem — e voltamos a Ranieri.

Zero titoli. Bom, quase

A história de Ranieri é tão improvável quanto a do clube que ele lidera. Ao contrário do tipo do aeroporto e de Ian Thorpe, Ranieri nunca acertou o sítio com a hora numa carreira longa, que já leva 14 clubes (repetiu o Valência), entre os quais o... Puteolana e uma seleção (a grega). Em nenhum deles, Ranieri foi campeão, embora tenha estado em alguns que lutam e conquistam títulos, como a Juventus, a Roma, o Inter de Milão ou até o Chelsea. O que Ranieri tem no bolso são uma Taça e uma Supertaça de Itália, com a Fiorentina (1996 e 1997), uma Taça do Rei de Espanha e uma Supertaça UEFA, com o Valência (1999 e 2004). O rótulo que se dá a homens como ele, a quem dão condições para vencer mas que perdem, é o de derrotado. E ele sente isso na pele, especialmente quando lhe falam daquele Chelsea, de 2000 a 2004, que coincidiu com a entrada de Abramovich nos londrinos. Ranieri assistiu a tudo: à injeção dos milhões do russo, às primeiras contratações sonantes (Makélélé ou Damian Duff) apadrinhadas por ele, ao pulo competitivo que teve o dedo dele. E Ranieri deitou tudo a perder.

Em 2003/04, tudo parecia encaminhado para uma final na Liga dos Campeões, porque nem o FC Porto, nem Mónaco, nem Deportivo da Corunha teriam poder suficiente para aquele Chelsea, o peixe graúdo em meias-finais sem tubarões. Só que Ranieri tomou más decisões no melhor dos momentos: o monegasco Andreas Zikos foi expulso aos 53 minutos, Ranieri tirou um defesa (Melchiot) e pôs um avançado (Hasselbaink), e o Chelsea passou a jogar com três pontas de lança (Hasselbaink, Crespo e Gudjohnsen). Ranieri foi muito cedo com muita sede ao pote, desequilibrou a equipa e acabou por perder por 3-1.

O resto toda a gente sabe como foi. Mourinho venceu a Champions, foi para o lugar dele no Chelsea, conquistou a Premier League duas vezes consecutivas e a carreira de Ranieri começou a definhar. Talvez tivesse chegado antes de tempo ao sítio certo. E por mais que ele dissesse que fora ele quem começara aquele Chelsea, que fora ele quem indicara Didier Drogba, Arjen Robben e Petr Cech antes de o despedirem, ninguém lhe dava troco. A não ser, claro, Mourinho, contra quem teve arrufos a sério na Serie A, no período em que o português treinava o Inter e o italiano a Juventus. “O Ranieri? Acho que ele tem razão quando diz que eu me exijo muito e que tenho de ganhar para me sentir bem. Por isso é que ganhei tanto. O Ranieri tem a mentalidade de alguém que não precisa de vencer. Tem quase 70 anos e ganhou uma Supertaça e um pequeno troféu.”

Ranieri outra vez no sítio certo, porque a Juve é um bom lugar, à hora errada. E foi assim sucessivamente até chegar à Grécia pós-Fernando Santos e ser derrotado pelas Ilhas Faroé. Tinha batido no fundo e era do fundo da tabela que teria de começar — e agora vem o Leicester.

Porquê só agora?

Há várias teorias para o sucesso do Leicester: a não participação do clube nas provas europeias e a eliminação prematura nas taças de Inglaterra e da Liga inglesa, o que dá descanso aos jogadores; o bom trabalho do departamento de scouting e do staff médico, porque há poucos lesionados; e Claudio Ranieri. Em Leicester, o italiano encontrou um grupo sem estrelas e moldável, que o respeita apesar do passado, e isso permite-lhe retirar o máximo dos futebolistas. Está no sítio certo à hora certa e nem Mourinho, despedido do Chelsea esta época, resistiu a este alinhamento dos astros.

Stan Collymore, ex-jogador e agora comentador, revelou que um antigo craque do Chelsea lhe tinha confessado o problema de Ranieri: “Ele era ótimo com os miúdos, mas não tinha jeito para os egos.” Ao mínimo desentendimento com uma estrela, Ranieri sentia-se desautorizado e diminuído, e punha o contestatário de parte. E, assim, perdia o controlo do balneário.

Num clube pequeno, de uma cidade relativamente pequena, cuja equipa local favorita de todos nem é a de futebol mas a de râguebi, Ranieri sentiu-se à vontade para exigir a Mahrez e a Vardy que corressem e defendessem como defesas. Porque é aí que está o segredo de um treinador: convencer o futebolista de que aquilo que está a fazer o leva a algum lado. E o jogador continuará convencido enquanto continuar a vencer.