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Como se prepara um jogo que pode decidir uma época

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J A Hampton

Ninguém joga para perder, mas há encontros decisivos em que a vitória nem sempre acontece. Como em 2005, quando o líder Sporting, liderado por José Peseiro, foi à Luz perder — o jogo e o campeonato. E como em 2013, quando o líder Benfica, treinado por Jorge Jesus, foi ao Dragão ‘ajoelhar-se’ ao minuto 92. Este sábado há FC Porto-Sporting (18h30, SportTV1) e perguntámos a quem sabe como se preparam estes jogos de alta tensão

Manual do treinador de treinadores

O que faz um coach?
Rui Lança é investigador e formador nas áreas de liderança e de impacto comunicacional, e dá aulas aos treinadores enquanto tiram o curso. “Há dois campos onde posso trabalhar. No treinador e na equipa. Posso ajudar o treinador a descobrir onde pode potenciar a sua mensagem, o seu comportamento e a organização mental das suas ideias. Nas equipas, trabalho as competências individuais e coletivas que a equipa denota e vejo se é necessário melhorar ou criar de raiz comunicação e flexibilidade cognitiva entre todos”, explica o coach.

Como é que um treinador (e até um jogador) se pode treinar a ele próprio?
“Não há receitas”, avisa Rui Lança. “Mas há sempre pontos que podemos melhorar. Ser mais expressivo, processar informação mais rapidamente, saber como comunicar com os jogadores, ser mais empático... Isto serve para um treinador mas também para um jogador, porque além das capacidades técnicas e táticas há atletas com maior capacidade de foco nas tarefas.”

Como é que Jorge Jesus deve preparar o jogo?
“O principal é equilibrar os níveis de stresse dos jogadores”, explica Rui Lança, porque o Sporting vai à frente do FC Porto e é, na teoria, favorito. E sabe que tem de ganhar para continuar a lutar pelo título. “Claro que o momento cria ansiedade, porque os jogadores sabem que um resultado negativo significa o abandono do principal objetivo. Jesus deve nivelar esses níveis de stresse, ainda que saibamos que ele não é um treinador muito preocupado com os jogadores, é mais preocupado com a tarefa em mãos, com o plano estratégico e tático da equipa — e até com ele próprio. As declarações que fez sobre o contrato dele já estar pago, por exemplo, chamando mais uma vez a si o centro das atenções, não são positivas para a união do grupo.”

Como é que José Peseiro deve preparar o jogo?
“Tem de subir os níveis de motivação atuais e incutir nos atletas a importância do jogo, ainda que não tenha reflexo em termos classificativos. A gestão de grupo, a motivação e a comunicação não são os pontos fortes de Peseiro (nem de Jesus), mas é importante neste caso focar os aspetos motivacionais, dar mais importância ao jogo e mostrar que pode haver benefícios para os objetivos individuais dos jogadores”, diz o coach, que dá um exemplo que pode ser utilizado pelo treinador. “Seria bom falar do jogo na Luz, onde a equipa também não era favorita e foi ganhar. É preciso recordar isso aos jogadores para eles terem noção de que é algo perfeitamente possível.”

Dias sem fim

Por Hugo Viana, ex-jogador do Sporting

Lembro-me bem que era a penúltima jornada e todos nos elogiavam a época, tanto em termos internos como externos. Toda a gente passou a semana a falar no “jogo do título”, que era difícil para nós, porque era na Luz, mas que nos bastava o empate, e nós no balneário sentimos essa tensão. O trabalho nos treinos não teve diferenças, mas a semana foi bem mais tensa para os jogadores. Só queríamos que os dias fossem mais curtos e o jogo chegasse o mais rápido possível. Mas o Peseiro não demonstrava isso.

Ele é um treinador que em campo sente muito o jogo, mas fora de campo é extremamente tranquilo a passar as mensagens para a equipa. Ele dá muita importância ao lado psicológico dos jogadores, porque a nossa motivação também tem muito a ver com o nosso estado mental antes dos jogos importantes. Como habitualmente, entrámos em estágio na academia, em Alcochete, um dia antes, e foi lá que preparámos o jogo. Os capitães — o Pedro Barbosa, o Beto e o Rui Jorge — eram muito experientes, lideravam pelo exemplo. Demonstravam sempre uma grande tranquilidade, mas não houve nenhum discurso diferente. Infelizmente, perdemos o jogo. E, logo a seguir, a final da Taça UEFA. Foi uma semana muito complicada de gerir. Ainda hoje é.

A música do Maxi

Por Miguel Vítor, ex-jogador do Benfica

Sabíamos que a ida ao Dragão podia decidir, porque era a penúltima jornada, mas a preparação do jogo não diferiu do habitual. Desde o início da semana, o mister Jesus fez exercícios com foco nas fraquezas do adversário, ou, pelo contrário, nos pontos fortes deles, para treinarmos como pará-los. Depois, já nos últimos treinos da semana, alguns jogadores faziam como se fossem o adversário, repetindo os movimentos deles e jogando contra os supostos titulares.

Geralmente, o mister focava sempre esse aspeto estratégico como o mais importante, não ligava à carga psicológica. Lembro-me de que em 2009/10 fomos ao Dragão com possibilidade de sermos campeões lá e, antes do jogo, fizeram-nos uma surpresa: mostraram-nos um vídeo motivacional, com mensagens das famílias. Mas perdemos esse jogo, por isso a partir daí não houve mais vídeos desses. Víamos só vídeos com imagens do adversário, especialmente as bolas paradas. No dia do jogo, o mister dava a palestra no hotel, falando em termos táticos. No balneário, só falava com um ou outro jogador individualmente. Nós não falávamos muito entre nós. Se fosse preciso mostrar confiança era o Luisão, e se fosse para a palhaçada para descontrair era o Rúben Amorim. E o Maxi metia uma espécie de reggaeton a tocar.