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O ícone e o iconoclasta

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Juan Medina/ Reuters

O Bayern de Munique de Guardiola foi derrotado (1-0) em Madrid pelo Atlético de Simeone na primeira mão das meias finais da Liga dos Campeões.

Estava na cara que o jogo ia ser assim, porque o Atlético é a cara do Simeone e o Bayern a do Guardiola. São equipas de autor, tal como o golo de calcanhar é do Madjer, a mão será a do Maradona ou do Vata, e a roleta é do Zidane. O Atlético de Simeone veste sempre todo de negro e é duro, e por vezes joga sujo como um vilão latino do Scarface. O Bayern de Guardiola é o modelo slim fit cosmopolita e bem-falante, que sairia de uma rixa com a retórica e a oratória. Simeone não viraria a cara, Guardiola daria a outra face. Simeone joga às damas, porque os movimentos são simples e diretos; Guardiola é um xadrezista, complexo e criativo. Simeone é o iconoclasta e Guardiola o ícone.

Neste choque ideológico, entre a fome de um clube e a fartura de outro, levaria a melhor quem levasse o jogo para o seu lado. E o caminho mais fácil, primitivo e selvagem para vencer uma discussão é através do músculo.

Por isso, o Atlético, que tem menos argumentos, entrou no limite, como se o encontro se decidisse logo ali. Pressionou o campo todo, roubou bolas em todo o lado, ganhou quase todos os duelos, fechou quase todos os espaços. E repito todo e todos, porque todos eles, juntos, parecem um só.

Aos 15 minutos, o Atlético tinha seis remates à baliza de Neuer - e um golo marcado.

KIKO HUESCA/ Reuters

O mais difícil estava feito, mas havia que continuar a fazer mais do mesmo, porque Simeone é tipo de uma receita só, e ele di-la frequentemente: "O esforço é inegociável". E isso é igual para as quase estrelas (Griezmann), para as ex-estrelas (Torres) e para os outros que preenchem as nove vagas que restam. Até ao fim da primeira-parte, o Atlético esteve por cima e manteve o Bayern a falar para os seus botões.

Na segunda-parte, à medida que os corpos do futebolistas do Atlético começaram a dar de si, Guardiola foi pondo em campo Ribéry e Müller. Ambos tinham começado do banco já que o jogo no Vicente Calderón pedia mais do que o toca-e-foge.

Com eles, o Bayern criou mais perigo, é verdade, mas o perigo é sempre um conceito relativo para os jogadores do Atlético, que estão habituados a sofrer e a defender, e preparados para ir até às últimas consequências para terem o que procuram. Se o conseguem ou não, isso é secundário, desde que no banco eles sintam que Simeone está com eles, como um xamã de braços no ar numa sessão espírita. A isso chama-se compromisso, a isso chama-se equipa e a melhor equipa que tem piores jogadores ganhou hoje. E é aí que está a graça do futebol.