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Ninguém acreditava, mas que hay Liga, hay

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Faltam quatro jornadas e o campeão afinal já não é assim tão óbvio. Culpa do Barcelona

Mariana Cabral

Mariana Cabral

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Jornalista

Carlos Esteves

Carlos Esteves

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Os ingleses têm uma teoria para explicar o que muitas vezes é apenas inexplicável: aquelas alturas em que uma equipa, por uma razão ou por outra, ou até uma série delas, simplesmente não consegue parar de ganhar. Chamam-lhe, poeticamente, “momentum” — a Federação Inglesa até editou um livro sobre o assunto —, o que, em português (a palavra é latina), pode ser traduzido como “momento”, “dinâmica” ou “ímpeto”. Ou, em futebolês, aquela altura em que uma equipa “engata” e vai por ali fora, porque tudo, tudo, tudo corre bem e ninguém, ninguém, ninguém a consegue contrariar.

Às 19h30 de 2 de abril de 2016, o Barcelona estava num “momentum” que parecia não ter fim. Não perdia um único jogo — em todas as competições — desde 3 de outubro, quando foi derrotado em Sevilha (1-2), na 7ª jornada, e era líder da Liga espanhola com nove e dez pontos de avanço sobre Atlético e Real Madrid, respetivamente. Mais: já nem os rivais acreditavam numa reviravolta. “A liga acabou”, admitia Zinedine Zidane no final de fevereiro, depois de perder com o Atlético. Antes, Diego Simeone já tinha admitido que o Barcelona “era demasiado forte e raramente cometia erros”.

O problema é que um “momentum” tem razões que a razão desconhece. “É uma força escondida porque nem sempre se reflete no resultado de um jogo e é invisível porque vem do fluxo de energia trocada entre adversários”, explica a Federação Inglesa da forma mais científica possível. Ou seja, um “momentum” pode acabar de um momento para o outro. Porquê? Porque sim.

O do Barcelona acabou às 20h57 de 2 abril de 2016, quando Karim Benzema (que a seleção francesa já excluiu do Euro-2016) fez o 1-1 no clássico espanhol no Camp Nou, na 31ª jornada da Liga. E, 23 minutos depois, Cristiano Ronaldo fez o 2-1. “Um jogador ou um adepto consegue ‘sentir’ as coisas a irem a seu favor ou contra si e a equipa que apoia e consegue ‘sentir’ quem começa ter aquele poder”, explicam os ingleses no tal manual. E todos sentiram que alguma coisa estava a mudar. “Foi um jogo muitíssimo importante psicologicamente”, disse Zidane. “Pensavam que nos iam marcar quatro ou cinco, mas isso não aconteceu”, disse Pepe. “Acontecem coisas estranhas no futebol quando se perde e nunca se sabe o que pode vir a acontecer. Basta que eles tenham alguns resultados negativos e estaremos de volta à corrida”, disse Bale.

Crise, disseram eles

Uma semana depois do clássico, em casa da Real Sociedad, o Barcelona parecia tudo menos o Barcelona que não sabia perder. E perdeu: 0-1. Na jornada seguinte, já em casa, com o Valência, nova derrota. 1-2. E, pelo meio, a equipa de Luis Enrique foi eliminada nos quartos de final da Liga dos Campeões. Pelo... Atlético de Madrid.

Tudo o que podia correr mal correu mal e, de repente, já não havia vantagem nenhuma: o líder tinha 76 pontos, o Atlético de Madrid tinha 76 pontos e o Real Madrid tinha 75 pontos. Começou a falar-se de crise, porque um histórico tão negativo já não se registava desde 2002/03, quando a equipa então liderada por Louis Van Gaal perdeu com Valência (2-4), Celta de Vigo (2-0) e Atlético de Madrid (3-0).

Van Gaal acabou despedido, mas Luis Enrique está seguro. Não só porque o Barcelona ganhou campeonato, Liga dos Campeões e Taça do Rei em 2014/15, mas porque, na quarta-feira, voltou às vitórias e espantou a crise: ganhou 8-0 ao Deportivo da Corunha, com uma exibição estranhamente parecida à do jogo com o Valência, recheada de oportunidades de golo, ainda que os resultados tenham sido em tudo diferentes. A noite foi especialmente marcante para Luis Suárez, que marcou quatro golos (já são 30 na Liga, apenas menos um do que Ronaldo) e fez três assistências. Messi e Neymar também marcaram e mostraram que o grande problema dos catalães está nestes três jogadores. E a solução também. É que, quando o tridente ofensivo “MSN” não funciona, o Barcelona não funciona. Mas quando funciona... “Não sei se já ultrapassámos a situação, mas espero que sim. Vejo a equipa num grande nível, apesar de termos desperdiçado a vantagem que tínhamos”, disse Luis Enrique. Restam quatro jogos para recuperar o “momentum”. E a Liga.