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Crónica de um teórico da conspiração

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José Sena Goulão/ Lusa

O Benfica ganhou ao Vitória de Setúbal (2-1) e voltou à liderança do campeonato.

Se eu quisesse escrever uma crónica conspirativa, seria mais ou menos assim:

Ouvi dizer, ou li num jornal qualquer, já não me recordo, que os tipos do Sporting tinham dado uns belos patacos ao Vitória de Setúbal para que estes ganhassem ao Benfica. Isto é mesmo à portuguesa, pensei, o futebol português no seu melhor. É o futebol do outro, o do Facebook, que se queixa sempre dos árbitros e a quem validam golos em fora de jogo.

Só que depois, quando vi a ficha de jogo, olhei para o onze do Vitória e percebi que o Quim Machado tinha deixado alguns titulares no banco. Estou enganado, repensei, agora é que é mesmo à portuguesa, o futebol português em todo o seu esplendor: o Vieira cobriu a oferta do Bruno de Carvalho e o Fernando Oliveira, o presidente do Vitória, fez aquela conferência de imprensa só para despistar e lançar-se num leilão. Este é o futebol do outro, não o do Facebook mas o do Twitter, o das geometrias variáveis e dos ângulos tortos nos foras-de-jogo e dos Simpsons, que só teve um jogador expulso durante mais de um ano. Isto vai ser limpinho, limpinho, para o Benfica, como dizia o outro, não o do Twitter, nem o do Facebook, mas aquele-que-vocês-sabem, que é omnipresente.

MANUEL DE ALMEIDA/ Lusa

Mas enquanto o portátil se ligava e eu preparava o login, lançado para escrever sobre campeonatos comprados, o André Claro fez aquele golo ao Ederson. Tinham passado 14 segundos e aqueles 14 segundos foram suficientes para viajar de uma teoria da conspiração à outra - e regressar à original. Eh pá, voltei a pensar eu, o Vitória deve estar carregadinho de dinheiro de Alvalade para entrar com esta moral na Luz. O tipo do Facebook sabe mesmo o que faz.

Ou então não sabe e eu também não sei. É que para meu azar e da história que eu queria escrever, o Vitória de Setúbal ecolheu-se e o Benfica esticou-se, logo a seguir, como que por magia, e chegou ao intervalo a vencer por 2-1. De volta à estaca zero.

E então eu, que vivo numa cabeça que já viu muitos filmes, imaginei o Luís Filipe Vieira e o Fernando Oliveira a combinarem um enredo manhoso, em que o Vitória marcava primeiro, só para não dar nas vistas, e depois afrouxava para sofrer dois golos, um do Jonas, para o rapaz andar ali na luta pela Bota de Ouro, e outro do Jardel, só porque sim. Tudo aquilo me fazia tudo sentido e eu fui para o intervalo a pensar assim, que a coisa estava feita. Que eles, do Vitória, estavam feitos com eles, do Benfica.

Na segunda-parte continuei na mesma, furioso com esta Liga que permite que uma equipa que vai em primeiro ganhe desta forma a uma equipa que luta para não descer. Furioso, também, porque não percebia porque é que o André Claro não marcava outro golo ao Ederson, aquele coxo olímpico do Brasil que até se faz de coxo para perder tempo. Furioso, sobretudo, porque o Benfica ia vencer tranquilamente, sem verdade desportiva.

MANUEL DE ALMEIDA/ Lusa

Mas foi aí que algo aconteceu: as pernas dos futebolistas do Rui Vitória começaram a empenar (as do Pizzi, do Gaitán, do Jonas, e do Mitroglou) e eu pulei atrás no tempo, até ao tempo em que li aquela notícia do Sporting a pagar milhares para o Setúbal vencer na Luz. Talvez, pensei eu pela enésima vez, talvez tivesse lido mal e onde estava dinheiro se calhar estava a palavra bruxedo, e o Sporting e o Vitória, algures durante a semana, tivessem contratado alguém para um mau-olhado que atingiu o Pizzi quando fez aquele passe milimétrico para o avançado do Vitória. Aquilo não deu golo por um triz - para a próxima, o tipo do Facebook tem de se chegar com mais pataco à frente.

P.S.: No meio disto tudo, o que não me ocorreu escrever foi que o Benfica era melhor do que o Vitória, diz a classificação, e de que o Vitória não precisa de incentivos para vencer, porque ninguém quer cair no caldeirão da II Liga. E também não me ocorreu que a Liga dos Campeões estoira fisicamente com uma equipa curta, como é a do Benfica, e de que a fatura poderá chegar nos próximos jogos. Se assim for, Jesus terá razão. Se assim não for, outra pessoa pagará a fatura.