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A corrida mais louca de Portugal

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É possível derrapar a cinco curvas da meta? Benfica e Sporting já mostraram que sim. Mas as ultrapassagens são raras

Mariana Cabral

Mariana Cabral

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Jornalista

Paulo Buchinho

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Ilustração

Esta corrida não tem trafulhices a cada curva e contracurva, nem personagens entre o estranho e o detestável, como um fiel amigo canino que passa a vida a rir cinicamente, mas é quase tão animada como os desenhos dos anos 60/70 que a inspirou. Porque tem máquinas potentes (bem, pelo menos um Ferrari todos concordam que há) e pilotos com uma dose saudável de loucura: um que anda sempre perfeitamente aprumado e utiliza a água (e os clichés) como gasóleo para enfrentar a dureza da estrada e outro que abana a trunfa enquanto vai mascando pastilha elástica e atirando graçolas carismáticas por onde passa.

Esta é a corrida mais louca de Portugal: chama-se Liga de futebol, começou a 14 de agosto com um Tondela 1-2 Sporting e chega ao fim daqui a cinco paragens. Que, para uns, são mais perigosas do que para outros. No GPS, a autoestrada que o Ferrari de Rui Vitória tem de percorrer até ao destino parece bem mais segura do que a estrada nacional do Jaguar (é verde...) de Jorge Jesus, mas só quando se chega às curvas se percebe se o piso está para acelerar ou travar.

Campeão só na última jornada

Se a pressão já é alta no início da corrida, pior ainda fica na reta final. Mesmo quando o líder está em situação vantajosa em relação ao perseguidor, como aconteceu em 2012/13, quando o Benfica de Jesus ia à frente do FC Porto de Vítor Pereira, mas acabou de joelhos. Dói? Muito. Mas os benfiquistas não se queixaram quando estiveram do outro lado da sorte, em 2004/05.

“Íamos à frente, mas fomos a Penafiel e perdemos, por isso o Sporting passou para líder”, recorda o ex-benfiquista Ricardo Rocha ao Expresso. “Lembro-me bem que foi uma desilusão muito forte e reunimo-nos logo no balneário. Antes do jogo, o [José] Veiga, que era o diretor, já tinha dito ao [Giovanni] Trapattoni que queria que fossemos para estágio para estarmos concentrados, mas claro que os jogadores não achavam muita piada, porque queriam estar perto das famílias. Mas logo ali no balneário percebemos que o melhor era estarmos todos juntos e dissemos que queríamos entrar em estágio para o penúltimo jogo, com o Sporting.”

O retiro deu resultado: o Benfica derrotou o rival (1-0) e acabou campeão. “Sentimos logo que era impossível recuperar daquilo”, conta Miguel Garcia, ex-defesa do Sporting que também estava nesse dia no relvado da Luz. “Esta época é diferente, porque já não vai haver confronto direto, mas é semelhante em relação à luta até ao fim. Acho que só vai haver campeão na última jornada, porque quem abrandar sabe que fica logo de fora.”

O treinador-amigo é a arma secreta

Não há maneira de facilitar as coisas, nem para o perseguidor, nem para quem é perseguido. “É sempre muito complicado, apesar de haver quem tente dar força. No meu tempo havia conversas dos mais veteranos, o Pedro Barbosa, o Sá Pinto, o Rui Jorge, a tentarem motivar e tranquilizar os mais novos”, diz Miguel Garcia. “São momentos de muita pressão, mas até acho que isso ajuda a fazer crescer a concentração e a superação”, considera Ricardo Rocha, que recorda com especial carinho o treinador campeão de 2004/05. “O Trapattoni era simplesmente espetacular. Todas as conversas com ele eram fenomenais, motivava-nos de forma incrível, era muito bom nas relações humanas. Era um senhor de 60 e tal anos muito engraçado, porque em todos os treinos aquecia connosco e enfiava-se nas barreiras, todo teso, a mostrar como saltar, e nós só nos ríamos. Era uma lenda mas era um de nós, e acho que essa relação com o treinador foi um fator decisivo naquele campeonato.”

O paralelismo com a relação de Rui Vitória com o plantel atual do Benfica é evidente. “Qualquer que fosse o treinador não ia ter vida fácil, mas a forma como aguentou e uniu a equipa para chegar à liderança e aos quartos de final da Champions... Há que dar valor ao treinador e à pessoa”, aponta Rocha, que vê o Benfica como favorito para o final, pelo “calendário mais acessível”. O histórico ajuda o argumento: a última vez que o Sporting conseguiu uma ultrapassagem do género foi em 1951/52. É difícil? Muito. Mas Miguel Garcia continua a acreditar: “Não por ser sportinguista, mas porque o Benfica tem mostrado que, fora de casa, está mais complicado e ainda vai a Vila do Conde. Ainda é possível escorregar.” Nesta corrida, todas as curvas contam.