Siga-nos

Perfil

Expresso

Desporto

Eu vi o adeus do Kobe Bryant

  • 333

Sean M. Haffey/ Getty Images

Kobe não é deste mundo, é de um outro, um especial. Nós só passamos por aqui, somos apenas testemunhas. Ele é eterno. O relato de quem assistiu à despedida

Rui Pedro Silva, em Los Angeles

Quando Kobe Bryant partiu para os minutos finais do jogo de despedida, a noite já era especial, mas o que se seguiu serviu quase como uma faixa escondida no final de um dos melhores álbuns de sempre.

E ouvi-la, ao vivo, sem perceber até onde iria ou quando acabaria a canção, é indescritível. É de levar as mãos à cabeça, olhar em volta e perceber que todos têm a mesma pergunta na mente: “Mas como é que isto é possível?” Na noite de 13 de abril não fui jornalista, não fui adepto dos Celtics, não fui espectador. Fui testemunha. Misturado com tantos outros que tiveram a mesma sorte. Sim, porque para nós aquelas duas horas e meia foram uma questão de sorte.

Sorte de quê? De comprar os bilhetes em outubro com o pressentimento de que seria o último jogo, de resistir ao azar de ficar sem o e-mail para onde seriam enviadas as entradas a 9 de abril; e de ter passado por três idas às bilheteiras até resolver a coisa a menos de duas horas do arranque. Mas essa foi só a minha sorte particular. Depois houve a outra, aquela que teve a assinatura de um génio que quis garantir uma última noite de glória.

Harry How/ Getty Images

Digo-o sem hesitar: foi o melhor momento desportivo que já vivi. Supera finais da Liga dos Campeões (de Madrid e Lisboa), Mundial de basquetebol e muitos outros jogos de NBA, basebol, hóquei no gelo ou futebol americano. O que Kobe Bryant fez não foi normal. A lenda dos Lakers começou por ser humano, falhando lançamentos. Mas depois começaram a entrar. Cedo se percebeu que aquele não era mais um jogo dos Lakers com Kobe Bryant. Era ‘o’ jogo de Kobe Bryant. O jogo que o ajudaria a manter vivo depois da era Jordan.

Quando não estava em campo, perdia interesse. Poucos eram os que queriam saber e só mesmo a perspetiva de regressar ao court alimentava a esperança. Cedo os 10 pontos se transformaram em 20. E os 20 em 30. E os 30 em 40. Aí, já no último período, todos pensámos que ia aos 50. A partir dos 47, a 3’05” do final, tornou-se impossível ficar sentado. Era como se no fundo todos soubéssemos e sentíssemos que a história estava ao virar da esquina e ninguém a queria perder. Com uma diferença: estávamos muito enganados quando pensávamos que a marca redonda seriam os 50. Kobe, o humano genial, transformou-se em Kobe, o extraterrestre sobredotado.

Sean M. Haffey/ Getty Images

Uma exibição deve ter altos e baixos mas Kobe afundou a lógica e aumentou o patamar de euforia incrédula a cada intervenção. Era Mamba, era Rei Midas, era Kobe, um adolescente da Pensilvânia com o sonho de ser o melhor Laker da história. E de cada vez que segurava a bola com as duas mãos a caminho do cesto, só me restava levar as minhas à cabeça, em estado de assoberbamento total.

Ainda é difícil perceber o que aconteceu. E acreditar que aconteceu. Kobe transformou uma noite que já era especial numa impossível de esquecer. Não voltou a falhar um lançamento e fechou a contagem com 60 pontos. Mas não foi só isso: sozinho deu mais uma vitória, pela última vez, aos Lakers. Sem pressão? Pelo contrário. O que acham que significa ir para a linha de lance livre a 15 segundos do fim com a possibilidade de chegar aos 60 pontos?

Ao contrário de mim e de todos os outros na bancada, Kobe não tremeu. Não podia tremer. Porque Kobe não é deste mundo, é de um outro, um especial. Nós só passamos por aqui, somos apenas testemunhas. Ele é eterno.

  • O espetacular adeus de Kobe Bryant, que já foi bestial e besta da NBA

    Ele nunca quis fazer amigos, nunca tentou agradar a ninguém e chegou a dizer em entrevista à “Newsweek” que não acreditava na felicidade. Esta quinta-feira despediu-­se espetacularmente, com 60 pontos marcados e o mundo rendido. A história de Kobe Bryant, a lenda da NBA que saiu com uma aura de glória depois de anos a ser odiado pelos seus pares. “Ser odiado foi extremamente necessário para mim, foi o meu alimento”

  • A lenda de Kobe Bryant ou como acabar uma carreira brilhante com 60 pontos

    No último jogo da sua carreira, o basquetebolista revisitou os seus tempos de glória nos Los Angeles Lakers. O pentacampeão da NBA que todos pensavam estar desaparecido voltou por um dia e para quebrar recordes. Marcou 60 pontos, bateu recordes de Michael Jordan e protagonizou a mais sensacional despedida na história da liga norte-americana