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O espetacular adeus de Kobe Bryant, que já foi bestial e besta da NBA

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MIKE NELSON / EPA

Ele nunca quis fazer amigos, nunca tentou agradar a ninguém e chegou a dizer em entrevista à “Newsweek” que não acreditava na felicidade. Esta quinta-feira despediu-­se espetacularmente, com 60 pontos marcados e o mundo rendido. A história de Kobe Bryant, a lenda da NBA que saiu com uma aura de glória depois de anos a ser odiado pelos seus pares. “Ser odiado foi extremamente necessário para mim, foi o meu alimento”

Há momentos raros na vida em que sentimos que estamos numa realidade diferente, em que algo nos diz que vamos recordar o que está a acontecer durante muito, muito tempo. A emoção, o fervor que sentimos como se nos encontrássemos numa redoma que mais ninguém compreende tem uma explicação: estamos a testemunhar um momento em que se faz História.

O mundo teve essa sensação na madrugada desta quinta-feira, quando viu a lenda da NBA Kobe Bryant marcar 60 pontos no jogo que pôs um ponto final à sua carreira de 20 anos, feita exclusivamente nos LA Lakers. Provavelmente foi um dos poucos momentos em que Kobe foi uma figura consensual, mas nem todos os ícones são pacíficos e na noite passada só importava festejar o legado do terceiro maior marcador de sempre na NBA.

"Uau, pai!", exclamaram os filhos de Kobe, que nunca o tinham visto jogar assim (a lenda aconselhou-­os a ir ao Youtube e nós fizemos o mesmo, para repescar alguns dos melhores momentos da longa carreira). Não foram os únicos: o Twitter foi invadido por mensagens de homenagem e apoio a Kobe, escritas por fãs, celebridades ou colegas de profissão.

O Staples Center, casa dos LA Lakers, estava rodeado por milhares de pessoas há horas. Kobe Bryant entrou pelas 17h15 (hora local) no balneário, completamente vestido de preto e contrastando com os balões e confetti amarelos e roxos que deixavam antever a festa. Na véspera, o seu colega e rival (porque para Kobe nunca houve colegas amigos) Shaquille O'Neal, agora comentador da NBA, perguntava-­lhe numa entrevista: "Estão a preparar­-te uma grande festa de despedida, muitos de nós vão estar presentes. Prometes-­me uma coisa? Preciso que marques 50 pontos nessa noite. Pode ser?".

Kobe respondeu que não, e se acabou por marcar 60 e trazer a euforia ao Staples Center em particular e à internet em geral não terá sido para agradar Shaquille. O jogador, antigo colega nos LA Lakers, foi durante muito tempo seu conhecido inimigo, o que não era tarefa difícil. Dizia Kobe, que já figurou em listas dos jogadores mais odiados daquela liga, num anúncio recente da Nike: "Amem-­me ou odeiem-­me. Só há estas duas opções, sempre foi assim. Odeiem-­me por ser um veterano, um campeão. E odeiem que eu seja amado por essas mesmas razões".

A 30 de novembro do ano passado, Kobe anunciou a retirada no website Player's Tribune, dedicado a promover um contacto direto entre os jogadores e os fãs ("querido basquetebol, tenho por ti um amor tão profundo que te dei tudo o que tinha, da minha mente e corpo ao meu espírito e alma. Nunca vi o fim do túnel"). No caminho para o final do túnel, Kobe mostrou-­se mudado, comenta Tim Dahlberg, da Associated Press, citado pelo "Washington Post": "Na última época abraçou adversários, recebeu prendas de outras equipas e sorriu mais. Não foi o verdadeiro Kobe".

O verdadeiro Kobe é unanimemente descrito como alguém competitivo, egoísta, sozinho. Ele é o primeiro a dizê­-lo: "Ser odiado foi extremamente necessário para mim, foi o meu alimento. O isolamento fez­-me crescer", chegou a admitir, citado pelo "New York Times". O ex-colega dos Lakers Maurice Carter confirma essa ideia ao "Washington Post": "Tu não estás na vida dele fora do campo, e tens de aceitar isso". Tom Ziller é mais duro: "Ele parece mais interessado em mostrar ao mundo que trabalha duro, ao contrário de Michael Jordan, que trabalhava o mesmo que os seus contemporâneos e conseguia destruí­-los. Ele adora ser o vilão".

Agora, depois do último jogo - que descreveu como "surreal" -, Kobe brinca: "Há 20 anos que me dizem para passar a bola. Hoje, no último jogo, gritaram-­me para não o fazer". Ele não o fez, os colegas fizeram questão de o deixar brilhar e o mundo teve um lampejo do antigo Kobe, que deu cinco campeonatos aos Lakers, a sua equipa desde que saiu do liceu, aos 17 anos, para começar a jogar. No fim, admitindo que "foi como se estivesse no meio do nevoeiro" no meio das fortes emoções da noite passada, criticou os colegas por terem aberto champanhe nos balneários com a sua habitual frieza: "Isso é para os campeonatos".

Não foram só os colegas que quiseram celebrar o legado de Kobe. De Kanye West, que se referiu a ele como "Deus", a Magic Johnson, que o classificou como "o melhor Laker de sempre", toda a gente esqueceu as controvérsias que o rodeiam (incluindo a acusação de violação que em 2003 se tornou pública, sendo que o caso acabou por ser resolvido por acordo fora dos tribunais). O "New York Times" titulou que Kobe acabou a carreira com um "ponto de exclamação", o "New York Post" disse que ele acabou a carreira "ao melhor estilo Kobe", o "Washington Post" confessou que na noite de quarta­ para quinta só viu amor após duas décadas de "repugnância", o "Guardian" falou de uma "noite de magia final". Até Obama foi contagiado e publicou um tweet de euforia à hora do jogo.

Flea, o baixista dos Red Hot Chili Peppers, contribuiu para a festa de champanhe, confetti e balões que milhares de pessoas testemunharam no Staples Center ao tocar o hino norte-americano, "Star­Spangled Banner", numa versão que alguns classificaram como uma "imitação de Jimi Hendrix" e que mereceu as maiores críticas nas redes sociais.

Mas a noite era de Kobe, que depois de anos de desaires na NBA -­ ainda 28 de março, por exemplo, os LA Lakers tiveram a derrota mais pesada de sempre contra os Utah Jazz - recuperou a conhecida garra e determinação para fazer a quinta melhor pontuação de toda a carreira. Voltou a ser herói, ele que tantas vezes foi vilão. As palavras do colega Roy Hibbert, num tom de total deslumbramento, podem ajudar a explicar porque é que o mundo parou para ver os afundanços daquele que já foi considerado um dos jogadores mais odiados da NBA: "Kobe transcende a realidade ­ as dimensões, o passado e o futuro. É único. É o que aspiramos a ser, dentro e fora de campo. O talento, a competitividade, o empenho, a energia, tudo".