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O UMM e o BMW

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MIGUEL A. LOPES/ Lusa

O Benfica foi eliminado da Liga dos Campeões pelo Bayern de Munique após um empate (2-2) na Luz (3-2 na eliminatória)

Um tio meu tinha um UMM e toda a gente na família lhe achava graça porque era atarracado como um português, rijo como um português, e pobretanas e desprovido de extras como um português. Não era carne para combate, mas carro para combate. Carro de combate. Dava para tudo, servia para tudo, de táxi, de mula de carga, de veículo de passeio, cabiam lá os almudes e os miúdos.

Mas o UMM não era o Mercedes que o meu tio também tinha, ainda que esta história resultasse melhor se ele tivesse tido um BMW. Não teve, mas vocês já perceberam onde eu quero chegar: ao fim.

E para se chegar ao fim (ou a um fim) há sempre vários caminhos, mas o que mais convém é aquele em que se chega lá depressa e seguro, a tal conversa de chacha do compromisso entre o motor, material e acabamentos de um carro. E, nisso, dizem, não há como os alemães. E, nisso, dizemos nós, não há entre portugueses. Numa corrida, apostem no BMW e não no UMM.

Carcela-Gonzalez e Thomas Muller

Carcela-Gonzalez e Thomas Muller

Rafael Marchante/Reuters

Portanto, o mais provável era que fosse mais do que improvável que o Benfica passasse o Bayern de Munique. Sim senhor, perdeu lá apenas por 1-0, só que o jogo de lá não podia ser como de cá: defender e procurar a sorte. Na Luz, era preciso marcar pelo menos dois golos e esperar que o Bayern não marcasse um. Basicamente, o UMM tinha de andar sempre no 'red line' (a expressão é de Rui Vitória) e o BMW da Baviera andar ao ralentim, ou então, despistar-se devagar, devagarinho. Mais difícil do que isso, o UMM tinha de fazer isto tudo com menos três peças (Gaitán, Mitroglou e Jonas), que representam 3/4 do ataque.

Mas a corrida não começou mal e uma das peças suplentes, Jiménez, até marcou um golo a passe de Eliseu - quando Vitória decidir jogar só um avançado e em ataque rápido, o mexicano talvez seja a melhor opção, porque é mais veloz e combativo do que os outros dois. O Estádio da Luz levantou-se, a equipa cresceu, a meta ficou á vista, mas logo se perdeu quando Sanches perdeu de vista Vidal, instantes depois de Jimenez ter falhado o 2-0. Foi o empate, 1-1, e tudo mudou até ao final da primeira-parte. As mãos deixaram de pedir a bola e os braços caíram, a intensidade baixou, porque, convenhamos, os futebolistas puseram-se a fazer contas de cabeça: ora bem, marcar um golo já era difícil, marcar outros dois seria impossível, a aventura podia acabar assim, que ninguém levava a mal.

Talisca fez um golaço a Neuer, de livre direto

Talisca fez um golaço a Neuer, de livre direto

Paul Hanna/ Reuters

Na segunda-parte, o desânimo prosseguiu, e o desânimo, toda a gente sabe, leva à desconcentração. O Bayern aproveitou, pôs o pé na tábua e fez o 1-2, pelo inevitável Müller, aquele tipo que não percebemos se é extremo, ponta de lança ou médio - apenas sabemos que marca golos. Quase nada a fazer. Seis minutos depois, Vitória tirou Pizzi, já a pensar no campeonato e no jogo contra o Vitória de Setúbal. E tudo se encaminhava para uns quilómetros finais em velocidade de cruzeiro, cada uma das partes com a vida resolvida, quando Talisca fez um golaço a Neuer (de livre direto). Rui Vitória, expulso pelo árbitro, foi engolido pelos adeptos nas bancadas, e aquilo contagiou os benfiquistas da bancada e os benfiquistas do campo durante uns instantes mais, prolongando um sonho que parecia impossível de alcançar em contra-relógio e com o conta-rotações a dar as últimas.

Fica a história de uma eliminatória equilibrada pelos números (1-0 na Alemanha, 2-2 em Portugal), mas desequilibrada no futebol que se jogou. O Benfica não sai pela porta pequena, mas sai. Porque foi inferior e é inferior. Tem a ver com o motor. E a suspensão. E o chassis.

Tem a ver com tudo o que uma equipa tem e tudo o que a outra não tem.