Siga-nos

Perfil

Expresso

Desporto

Nelo Vingada, treinador do Marítimo: “Comecei cedo, treinei em oito países, sou do PS e não estou velho”

  • 333

Gregório Cunha

Este sábado o Sporting recebeu o Marítimo (3-1) e frente a frente estiveram os dois treinadores mais velhos da Liga: Jorge Jesus tem 61 anos, Nelo Vingada tem 64. O primeiro nunca saiu de Portugal, o segundo treinou em “oito países” e de todos eles trouxe uma “história para contar”. Esta é a história dele

Li uma entrevista sua, feita há quatro anos, em que dizia que treinaria mais três ou quatro anos.
Quando dei essa entrevista estava a treinar o Dailan Shide, na China, em 2012, e nessa altura tinha mesmo ideia de que, após o Dailan, ia deixar isto. Tinha um contrato longo, um ótimo salário (o melhor que já recebi), mas as coisas correram mal. Houve um escândalo com o mayor da cidade, que levou o presidente do clube a ser preso. Acabou por ser encontrado morto na prisão, dizem que teve um ataque cardíaco... O clube entrou em insolvência em 2013 e a liga chinesa não aceitou a inscrição, não recebi quatro meses de ordenado, e saí. Fui para a seleção do Irão.

Foi a sua segunda aventura no Irão.
Estive em oito países e tenho histórias para contar em todos. Logo no começo, em 1996, fui convidado para ser selecionador da Arábia Saudita, pela qual me sagrei campeão da Ásia. Foi um choque, sobretudo para a minha mulher, que sempre me acompanhou na carreira (para onde eu fui, ela foi também). Vivíamos num condomínio com piscina à qual só eu podia ir, porque as mulheres não podem mostrar o corpo. Ia bem preparado para aquilo, porque estivera antes na embaixada a saber tudo sobre a cultura. O príncipe da Arábia Saudita disse-me: “Só te falta casares com quatro mulheres para seres um árabe a sério. Se quiseres, eu providencio.” Comer com as mãos, o borrego, jogos cujos intervalos duravam meia hora porque coincidia com a hora da reza — jogadores no balneário, equipados mas descalços, virados para Meca e a rezar. O segundo país onde estive foi os Emirados Árabes Unidos, por poucochinho tempo. Não foi fácil. Os jogadores eram polícias, guardas e militares. Havia treinos em que só apareciam sete ou oito.

Sete ou oito?
A não ser que houvesse jogo no estrangeiro, aí apareciam todos [risos]. Onde é que eu ia?

Emirados Árabes Unidos.
Isso. Depois, Egito: pobreza e sujidade. Treinei o Zamalek, fui campeão sem derrotas. Almoçava ou jantava com o Manuel José e as nossas mulheres, grandes bacalhoadas, e aquilo fazia uma confusão enorme nos egípcios: dois treinadores de clubes rivais a comerem juntos. Olhe, foi lá que uma das minhas filhas conheceu o marido, o Mohammed, egípcio. Ele estava a tirar o curso de hotelaria, nós vivíamos num hotel, o Meridien e... bom, nestas coisas, o amor acontece, não é? Casaram em Portugal, um casamento católico, com um diácono e não um padre, e têm uma filha, a Leonor. O casamento teve repercussão nos jornais: um egípcio a casar com a filha do português do Zamalek. O Egito estará sempre no meu coração. Ao contrário de Marrocos.

Porquê?
Foi a única vez em que assinei e pensei: “Hmmm, isto cheira-me a esturro.” Trocas e baldrocas, e tive de pagar €20 ou €30 mil para sair. A minha sorte é que a federação da Jordânia também andava a falar comigo. Portanto, não fiquei muito tempo desempregado. Está a apanhar tudo?

Estou. Que tal foi a Jordânia?
Oh pá, espetacular. Devo ter ido umas dez vezes a Petra. Fantástico. E tomar banho no Mar Morto? Ui. Conheci o príncipe [Ali bin Hussein] que se candidatou recentemente à FIFA e também estive três ou quatro vezes com o Rei da Jordânia, uma delas com Cavaco Silva, que esteve lá. Eu já o conhecia, quando ele me tinha condecorado por causa do Mundial de juniores de Lisboa, e até tinha uma relação cordial com ele, mesmo sabendo ele que eu sou do PS. Participei nos Estados Gerais, com o Guterres.

Continue, continue...
OK. O país seguinte foi o Irão, em 2009. Teerão é lindíssima, e aquela ideia do papão sinistro é um exagero. Há muitas restrições e, obviamente, eu também estava numa situação privilegiada, como treinador do Persepolis. Desportivamente, foi muito difícil: os campos tinham a qualidade dos nossos campos da 3ª divisão. E a assunção da responsabilidade é treta.

E nem um copinho podia beber.
Tinha duas hipóteses: ia ao mercado negro ou aproveitava as receções nas embaixadas.

Nunca lhe venderam nada?
Eles chegavam-se ao pé de mim, na rua, e diziam: “Coach, coach Vingada, alcohol?” Nunca aceitei. Sabia lá eu se eram polícias disfarçados. Lembrei-me agora de uma coisa caricata.

Então?
Fomos jogar ao Qatar um jogo para cumprir calendário. Decidi levar jogadores menos rodados e perdemos por 4-1. Quando cheguei a Teerão, estava o escândalo montado. Mil pessoas, mil pessoas!, no centro de estágios do clube a insultarem e a intimidarem. O capitão veio ter comigo e perguntou-me: “Quer dar o treino?” E eu: “Nestas condições, não.” E ele: “Mas quer dar o treino ou não?” E eu: “Se isto melhorar...” O capitão fez uma chamada e chegaram várias carrinhas com uns tipos lá dentro, com ar de gorilas. A confusão acabou ali.

Estamos quase a voltar à China.
Falta a Coreia do Sul, o melhor lugar onde estive. Ficámos em Guri, longe de Seul como a Amadora é de Lisboa. Fui campeão e ganhei a Taça da Liga, com o FC Seul. Eles são subservientes, olham para o treinador como um líder. A relação é de distanciamento. E eu, português, cheguei lá e comecei a anotar as datas de nascimento dos filhos, das mulheres, a convidá-los para festas em casa e tal. Acharam aquilo estranho. Estava lá o Ricardo Esteves [ex-futebolista que passou pelo Benfica], que já era casado com a minha outra filha, um brasileiro e um montenegrino; o resto, só coreanos e quase nenhum falava inglês. Saí por incompatibilidades e fui para a China fazer o contrato da minha vida: condomínio de luxo, com tudo, ginásio, campo de ténis, pequeno-almoço, tudo incluído.

E o trabalho em Portugal?
Orgulho enorme de ter conquistado dois Mundiais sub-20, em Riade e em Lisboa. Cá, com 130 mil pessoas no estádio, foi inesquecível. Também gostei de trabalhar na Académica e no Marítimo, e, obviamente, aquele quarto lugar nos JO de Atlanta, em 96.

Nessa seleção estava o Porfírio.
Sabe que a mãe dele, que é ginecologista, é médica das minhas filhas? O Porfírio era completamente fora... Lembro-me de ser acordado às tantas da manhã, no Canadá, pelo gerente do hotel: “Houve um jogador que descobriu as chaves do armazém, roubou um carrinho de golfe, e foi para um bar aqui perto. Estacionou o carrinho à porta.” Tinha cada uma...

Qual o melhor jogador que treinou?
O Dani [hoje, comentador da TVi24]. Tinha tudo: talento, cultura, inteligência, velocidade. Fazia o que queria com uma bola. No Mundial do Qatar de 1995, sub-20, ficámos em 3º lugar, e os diretores técnicos da FIFA vieram ter comigo e disseram-me: “Só houve um jogador melhor do que o Dani, com esta idade, nas fases finais de Mundiais — o Maradona”. Se o Dani tivesse a mentalidade do Ronaldo e o rigor do Figo, a história podia ter sido outra.

E o Nelo, como foi como jogador?
Não era mauzinho. Joguei no Belenenses e no Atlético, mas comecei a estudar muito cedo para ser treinador e passei para o banco aos 27 anos. Portanto, não é que seja muito velho, comecei foi muito cedo [risos].

Não sente o preconceito da idade?
Passei por dois preconceitos. Eu fui dos primeiros (o primeiro foi o Jesualdo Ferreira) a sair das universidades para ser treinador de futebol. E resultou. Cheguei a ser professor do Mourinho e do Peseiro, dois dos meus melhores alunos. Conheço o Mourinho dos tempos em que era adjunto do pai dele, o Félix. Depois, quanto à velhice, o Ranieri tem a minha idade, teve aqueles resultados horríveis na Grécia [perdeu com as ilhas Faroé], e hoje lidera com o Leicester. Não há uma regra. Não estou velho.

Anda nisto por gosto?
Não é por dinheiro. Não sou rico, mas estou confortável. Nunca cometi loucuras, talvez a única foi ter pago a pronto um Mercedes. Foram €50 mil euros e ainda hoje é o meu carro. Tem 14 anos. Paguei, para ir com um carro novo ao casamento da minha filha [risos]. Sigo a máxima da minha mãe, que era costureira, tinha umas mãos fantásticas: “O dinheiro não é de quem o ganha, mas de quem o poupa.”

Começou a treinar novo. Não era difícil ter autoridade?
Tinha uma vantagem, porque tinha sido jogador. Ou seja, muitas vezes, quando faltava um jogador para fazer equipa nos treinos, eu entrava lá para dentro. Ainda fiz umas quantas ‘cuecas’ a craques [risos].

Jogou contra o Jesus?
Tenho ideia de que ele era um jogador habilidoso mas muito irreverente. Aliás, ainda hoje é irreverente, não é? Mas, fora de campo, é muito diferente do que é dentro do campo. O jogo mexe connosco.