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A igreja, o cabaré e o macaco

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lucília monteiro

Jorge Nuno Pinto da Costa prepara-se para cumprir o 14º mandato à frente do FC Porto. Depois de levar os dragões à glória, agora caminha para o declínio. Longos dias têm 34 anos

Rui Santos

No próximo dia 17, entre as 10h e as 19h, nas instalações do Pavilhão Dragão Caixa, o FC Porto vai a eleições para os respetivos órgãos sociais e Jorge Nuno Pinto da Costa apresenta-se como candidato único à presidência, propondo-se a cumprir o 14º mandato na liderança do FC Porto, que começa com a sua reeleição e termina em 2020, quando estiver quase a completar 83 anos.

A reeleição de Pinto da Costa acontece seis dias antes de completar 34 anos sobre a primeira vez que, formalmente, tomou conta dos destinos do clube azul e branco.

Transformou um clube regional num clube de dimensão nacional e internacional, explorando as hesitações e os dilemas dos seus antecessores, Afonso Pinto de Magalhães e Américo Sá. Levou o FC Porto à glória. Os sinais de declínio são evidentes, com um Benfica em sentido inverso, mais forte e mais competitivo. Não soube sair a tempo. Conseguirá ainda evitar a queda?...

1 A premonição de nascer no dia dos Santos Inocentes

Nasceu no Dia dos Santos Inocentes e isso tem qualquer coisa de dilemático e até de contraditório.

O dilema cinzelado no futebol a partir do qual se construiu a regra de que ou se é santo ou se é campeão.

A contradição ruminada no mundo da bola segundo a qual o processo de reconhecimento da inocência é algo que fica entre a liturgia e o cabaré.

Um de cinco irmãos, o número suficiente para fazer uma equipa de hóquei em patins. Okay, não havia na família uma especial vocação para o desporto, mas nas origens algo tem de se achar para se compreender por que razão Jorge Nuno andou muito tempo sobre rodas.

Olha-se agora para trás, para essas origens e mais os quejandos, e percebe-se no percurso do líder do FC Porto uma certa premonição desportiva. A entrada no mundo do futebol, esse mundo de mitos, bruxarias, confabulações, trabalho sério e outro tanto deixado nas mãos dos ourives da criatividade, numa correria permanente entre a oficina e a esquadra da polícia, teve a iniciá-la uma aproximação à modalidade dos patins e à das luvas de boxe.

Pensando bem, faz todo o sentido. Na verdade, considerando grande parte da história do futebol português, o êxito não teria sido o mesmo sem patins nem luvas de boxe.

Era preciso ser rápido.

Era preciso golpear.

Os pitons e as pitonisas são uma espécie de complemento à iniciação. Tudo começara nos colégios. No ‘Almeida Garrett’ e no ‘Caldinhas’ e na visão generosa da avó Alice, que lhe ofereceu o cartão de sócio no dia em que apagou as 16 velas. Duas épocas depois (1955-56), via pela primeira vez o FC Porto sagrar-se campeão nacional. O treinador era o brasileiro Daniel Yustrich, conhecido pelo seu mau feitio mas considerado essencial para a ‘fundação’ do profissionalismo no FC Porto.

Foi talvez a mais importante injeção de portismo nas veias de Pinto da Costa, cujo efeito seria declarado e amplificado — segundo o seu próprio testemunho — pelo famigerado ‘caso Calabote’, em 58-59, cujo árbitro (Inocêncio, nome próprio...), segundo rezam as crónicas, teria feito tudo para oferecer o título dessa época ao Benfica.

É no começo da década de 60 que Pinto da Costa inicia funções como dirigente do FC Porto, primeiro como vogal da secção de patinagem e, rapidamente, como seu principal responsável (1962-69). Consegue dar a volta a uma situação complicada ocorrida com a equipa de hóquei em patins e isso faz com que seja solicitado para integrar a secção de boxe. E é em 1969, depois de uma experiência determinante de sete anos na sua formação como dirigente desportivo, enquanto seccionista, que Pinto da Costa passa a integrar a direção presidida por Afonso Pinto Magalhães.

Já nessa altura, como o próprio confessou em tempos, o presidente do FC Porto considerava errado que os assuntos do futebol fossem discutidos e decididos por um conjunto alargado de diretores, em concreto mais de duas dezenas, alguns dos quais sem qualquer relação direta com a modalidade. Quer dizer, houve um tempo em que, no FC Porto, os assuntos do futebol poderiam ser decididos contra a vontade dos próprios responsáveis do futebol. Um absurdo, na visão de Pinto da Costa, nessa altura ainda ligado às chamadas ‘modalidades amadoras’ do FC Porto.

José Maria Pedroto: a mesma ideologia, os mesmos objetivos. O regresso às Antas foi concluído em silêncio e em poucas horas

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Américo de Sá (à dir.) convida-o para diretor do futebol em 1976. Exige plena autonomia para exercer o cargo

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asf

Rabat Madjer em Viena. Um calcanhar que ficou na história da primeira Taça dos Campeões Europeus, conquistada em 1987 contra o Bayern de Munique de Jean-Marie Pfaff, Andreas Brehme, Matthaus, Hoeness e Rummenigge

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As conversas com Pinto Magalhães levaram a que o então presidente do FC Porto, confrontado com a necessidade de fazer algumas mudanças, convidasse Pinto da Costa a integrar a equipa dirigente do futebol. Pinto da Costa declinou o convite, segundo ele porque eram necessárias alterações profundas na forma de funcionamento e havia constrangimentos de natureza pessoal e profissional. Foi um ciclo difícil para o FC Porto, ao longo do qual passaram (sem sucesso) vários treinadores pelo clube. Mergulhado num período de convulsões, José Maria Pedroto abandona e ruma a Setúbal, onde levaria o Vitória à conquista do segundo lugar no campeonato (1970-71). É nesse ano que Pinto de Magalhães conclui o seu mandato e permite a entrada em cena de Américo de Sá.

Pinto da Costa refere que Américo Sá também o convidou e igualmente a ele, num primeiro momento, disse ‘não’. A saída de Pedroto não havia sido bem digerida e o sucesso do carismático ex-treinador do FC Porto no V. Setúbal e, depois, do Boavista adensaram a ideia de que era preciso quebrar a dinâmica (sem êxitos) de uma certa ‘linha de continuidade’. Antes, porém, ainda Américo de Sá — em 1976 — convidaria Pinto da Costa para ser diretor do futebol, com promessas de autonomia e uma profunda mudança na forma de funcionar do departamento. A ideia era criar-se uma linha direta entre os responsáveis do futebol e o presidente do clube, quebrando-se definitivamente a ideia de uma maior participação nas decisões relacionadas com o dia a dia do futebol.

Pinto da Costa conta que o seu primeiro impulso foi declinar o convite, mas a forma como (não) foi resolvida a aquisição de Albertino, contratado pelo Boavista depois de Américo de Sá lhe ter garantido que ia seguir o seu conselho de o levar para as Antas, somada às declarações de Valentim Loureiro segundo as quais “o FC Porto nunca levará a melhor sobre o Boavista, enquanto Américo de Sá for o presidente”, levaram-no a mudar de opinião e a aceitar o desafio.
As ideias de Pinto da Costa são claras e ficam expressas nas condições que afirma ter colocado a Américo de Sá:

1) Total liberdade para escolher a equipa técnica;

2) Total liberdade para, em sintonia com o treinador, constituir o plantel, de acordo com um orçamento predefinido;

3) Assuntos do futebol a serem tratados diretamente com o presidente.

O FC Porto ainda não estava preparado para tanto e em relação ao último ponto Pinto da Costa aceitou fazer parte de um núcleo restrito de cinco elementos que tomariam, em conjunto, as grandes decisões do futebol.

Este momento é particularmente importante na vida e na história do FC Porto, porque é a semente que vai fazer germinar o período de grande afirmação do clube nortenho no panorama do futebol nacional. É a semente que faz crescer a árvore da hegemonia.

O que está verdadeiramente em causa é a mudança de um modelo de gestão que atira o FC Porto para um ciclo de vitórias e se traduz na alavanca da ultrapassagem ao Benfica e Sporting.

Pinto da Costa põe em marcha o seu plano e a prioridade é garantir o regresso de José Maria Pedroto às Antas. Tudo feito em segredo e em poucas horas o acordo é celebrado. Começa uma nova vida no FC Porto e, a partir daqui, nada será como dantes. Nem no FC Porto nem no futebol português.

No primeiro ano como chefe do departamento de futebol, Pinto da Costa consegue alcançar o segundo lugar no campeonato (atrás do Benfica) e vencer a Taça de Portugal. O balanço foi considerado positivo — para uma equipa que não chegava ao título desde 1959 —, mas o grande objetivo era ganhar o campeonato e foi para isso que todos se uniram. E o FC Porto venceu as duas provas seguintes (77-78 e 78-79). Dois nomes emergiam na explicação deste êxito: José Maria Pedroto e Jorge Nuno Pinto da Costa.

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Reinaldo Teles, Angelino Ferreira, Fernando Gomes, Adelino Caldeira e Antero Henriques: protegeu sempre quem o apoiou. Quem divergiu , como Fernando Gomes e Angelino Ferreira, optou pela saída

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O ataque ao ‘tri’ estava no horizonte e as repercussões da afirmação do FC Porto começavam a sentir-se em Lisboa. Pinto da Costa acusava o chamamento do poder e era com ele que tinha de lidar. As suas divergências com Américo de Sá começavam a ser notadas e porque ressaltava um claro choque de interesses entre um clube do Norte (FC Porto) e dois clubes do Sul (Benfica e Sporting), Pinto da Costa aproveitou o posicionamento político de Américo de Sá (deputado eleito pelo CDS) e o facto de passar muito tempo em Lisboa e na Assembleia da República para lhe desferir o golpe fatal.

Segundo Pinto da Costa, o presidente Américo de Sá não reunia condições para combater o centralismo — esse centralismo lisboeta que, alegadamente, levara o Sporting a conquistar o título em Guimarães (com um golo de Manaca na própria baliza) e a Taça de Portugal, na época anterior, em função de uma arbitragem favorável de Mário Luís, que logo a seguir foi incluído na comitiva leonina numa digressão à China. Nessa época de 79-80, o chefe de departamento de futebol dos azuis e brancos, com a perda do título para o Sporting e a Taça de Portugal para o Benfica, depois de ter ganho dois campeonatos seguidos, tinha a convicção de que o “centralismo lisboeta” ia fazer tudo para que o FC Porto não voltasse a ganhar.

Pinto da Costa não sentia a cobertura de Américo de Sá e Américo de Sá perdera a confiança em Pinto da Costa. E como o presidente era Américo de Sá, este havia decidido que Pinto da Costa não iria continuar na sua direção.

A equipa técnica, chefiada por Pedroto, toma posição (atacando violentamente Américo de Sá), os jogadores dividem-se e vive-se o denominado ‘Verão Quente’. O clube está fraturado, Pedroto abandona o FC Porto (Hermann Stessl é chamado para o seu lugar) e Pinto da Costa, entretanto substituído por Teles Roxo, termina a sua passagem como dirigente do clube. Por pouco tempo. Em Dezembro de 1981, nasce um movimento de apoio a Pinto da Costa e em 17 de abril de 1982 o ex-chefe de departamento de futebol é eleito presidente do FC Porto.

Esta síntese do que foi a relação inicial de Pinto da Costa com o FC Porto é fundamental para se compreender não apenas o papel do presidente portista na transformação do clube mas também o êxito de um emblema que apenas com ele alcançou dimensão nacional e internacional.
Volvidos quase 34 anos sobre a sua eleição como presidente, muitos dos princípios defendidos nas décadas de 70 e 80 em relação ao funcionamento do futebol ainda se mantêm bem vivos, mesmo depois do advento das SAD (Sociedades Anónimas Desportivas), que no caso do FC Porto foi constituída em 30 de julho de 1997, há quase 20 anos.

Esta foi a base do sucesso do FC Porto: uma liderança inequívoca, construída sobre si próprio, a escolha de um treinador (José Maria Pedroto) que, na área técnica, fosse um dos melhores e a projeção de um discurso de ataque aos clubes de Lisboa e à capital, a servir de cola para unir as hostes. Pedroto tinha todas essas características e foi ele o verdadeiro ideólogo da transformação do FC Porto. Pinto da Costa teve o instinto, a perceção e a inteligência de perceber que aquela era, devidamente dimensionada, a ‘fórmula de sucesso’. A fórmula que levaria o FC Porto a ganhar mais vezes na década de 80 (com um grande ‘boom’ internacional, através das vitórias na Taça dos Campeões, na Supertaça Europeia e na Taça Intercontinental); a tornar-se hegemónico na década de 90 e, depois de um ciclo de três épocas, a permitir a intrusão do Sporting e Boavista (entre 1999-2000 e 2001-02), a dominar claramente cerca de dez anos no arranque do século XXI.

2 O período áureo (o coração bate)

O coração do Dragão bate.

Bate forte, sentado no músculo que gerou no ventre de tantas vitórias. Bate forte, exibindo orgulho pelas artérias da cidade do Porto, o seu bastião Douro. Bate forte, porque história rima com memória e da memória não se apaga com uma tecla do teclado.

O coração do Dragão bate.

Bate forte, quando recupera a gestação no Lima, no Ameal e na Constituição, antes da consagração nas Antas e no Dragão.

Bate forte e Pinga. Pingas de Pinga e pingas de Virgílio, Pedroto, Jaburu e Hernâni.
Bate forte, quando revive as conquistas intercontinentais no Japão, em Tóquio e Yokohama, a primeira sobre um manto espesso de neve, com Madjer a driblar e a tirar um adversário da frente antes do toque final de Fernando Gomes sobre a linha de golo como se estivesse a jogar num tapete de jardim, entre estrelícias e crisântemos e, depois, o mesmo Madjer, deus maior do futebol argelino, a usar a bota direita como se tratasse de um picador de gelo, tirado do filme protagonizado pela quentíssima Sharon Stone, picando a bola por cima da cabeça do guarda-redes do Peñarol, Pereira, congelado pela visão coagulante do avançado portista. Um frapé de emoções, com a pergunta a tiritar de frio: como é que se pode jogar futebol dentro de um frigorífico, com pitons em vez de lâminas num Holiday on Ice construído sobre o plasma de clube português?

O coração do Dragão bate forte. E mais forte bate ainda quando se percebe que essa vitória, em Tóquio, transformado acidentalmente numa casa de pinguins, amigos do sushi e mais tarde dos Madredeus, tinha oito arquitetos portugueses (João Pinto, Lima Pereira, Inácio, André, Sousa, Jaime Magalhães, Rui Barros e Fernando Gomes), um brasileiro (Geraldão), um polaco (Mlynarczyk) e um argelino (Madjer). Era a consagração da equipa que, meses antes, no Prater, em Viena, com a mesma base de jogadores, mas ainda com o contributo de mais quatro futebolistas portugueses (Eduardo Luís, Quim, Paulo Futre e Frasco) e mais dois brasileiros (Celso e Juary), entre titulares e suplentes utilizados, havia derrotado o grande Bayern de Jean-Marie Pfaff, Andreas Brehme, Matthaus, Hoeness e Rummennigge e conquistado a sua primeira Taça dos Campeões Europeus.

Estes triunfos no espaço internacional (Taça dos Campeões Europeus, Taça Intercontinental e Supertaça Europeia), a primeira com Artur Jorge e as outras com Tomislav Ivic, surgiram no seguimento das sementes lançadas por Pedroto e Pinto da Costa e foram fundamentais para calar as bocas das oposições. As internas e as externas. As vitórias em Viena, Tóquio e nas duas mãos da Supertaça Europeia, Amesterdão e Porto, perante o Ajax de… Johan Cruyff foram tão concludentes que não permitiram qualquer tipo de contraditório.

José Mourinho trouxe o êxito capaz de abafar o ‘Apito Dourado’

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joão carlos santos

André Villas-Boas conseguiu reprimir a afirmação de um ‘novo’ Benfica

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getty images

Só Benfica tinha ganho duas Taças dos Campeões Europeus (60-61 e 61-62) e nenhum clube português havia conseguido vencer nem uma Supertaça Europeia nem um título intercontinental.
O FC Porto ganhava terreno no jogo da sua emancipação e libertação.

Em Lisboa, muitos não entendiam o que estava a acontecer.

O período áureo do FC Porto estava em marcha e já se percebeu, pelo que ficou dito atrás, que Pinto da Costa utilizou — além do seu portismo — um instinto raro para atacar os grandes problemas do clube:

1) Criação de um centro de poder através de uma liderança inequívoca;

2) Gestão fechada do futebol;

3) Discurso apontado aos adversários, ambos rivais de Lisboa, o que facilitou a radicalização de uma comunicação de matriz política com o objetivo claro de visar o país e realçar o alegado desprezo que Portugal, nas suas diversas dimensões político-partidárias, votava ao Norte e concretamente ao Porto.

É preciso tempo, persistência, solidez, resiliência, propensão para o combate. Quando Pinto da Costa decidiu travar esta luta, ele sabia que não podia regatear tempo para outras coisas. Durante muitos anos — os anos suficientes para afirmar uma ideologia —, doou-se ao FC Porto de uma forma total. Sabia que acordava com um combate para travar e adormecia a pensar na luta seguinte. Percecionava e identificava os adversários, que poderiam apresentar-se em diversos campos (na Luz, em Alvalade, no Governo, na Comunicação Social, por exemplo) e não lhes dava tréguas. Aperfeiçoou as técnicas de combate e começou a perceber uma estranha reação nos ‘inimigos externos’: em vez de procurarem soluções para estugarem o passo do exército portista, dão sinais de estranha passividade e até de recuo e alguma fascinação.

O Benfica vinha de uma época de ouro, com Eusébio, e de um domínio avassalador nas décadas de 60 e de uma parte importante da década de 70. Borges Coutinho era um presidente respeitado e vencedor. Ferreira Queimado sofreu os efeitos da ‘explosão’ do FC Porto e Fernando Mendes e João Santos arrostaram com as consequências de um FC Porto particularmente intenso na sua estratégia expansionista. E tudo se tornou mais complicado ainda com Jorge de Brito (92-94) mas fundamentalmente com Manuel Damásio (94-97), antes da entrada em cena de Vale e Azevedo (97-2000). Entre 1992 e 2000, quando o FC Porto estava imparável na conquista da hegemonia do futebol português, o Benfica — na transição de Jorge de Brito para Manuel Damásio — ainda conquistou um título nacional, sob a orientação técnica de Toni, mas os sinais de crise eram notórios.

Damásio deu início a um período de profunda desorientação no futebol, com aquisições em catadupa, a maior parte das quais sem sentido. O FC Porto avançava. O Benfica recuava. E o ambiente no futebol português era tomado claramente pela agressividade colocada em campo por Pinto da Costa e seus sequazes.

3 Sai uma dose de coação para a mesa do canto

Quem conhece a história do FC Porto e, principalmente, quem conhece Jorge Nuno Pinto da Costa nas suas múltiplas dimensões, sabe que é um homem ambivalente: dócil, generoso, divertido e agradável para quem revela compreensão e aceitação perante a sua enorme propensão para pisar o risco e absolutamente intratável para quem o contraria ou hostiliza.

Foi quase sempre assim em quase toda a sua vida.

É de elementar justiça reconhecer que, na caminhada para a supremacia do futebol português, Pinto da Costa rodeou-se de excelentes jogadores, que corporizaram a ideia de exército, combate, provocação, conflito.

Não teria havido êxito somente através do magistério de influência conseguido fora das quatro linhas, e é importante não desprezar essas duas realidades. Elas concorrem as duas na caracterização do perfil do mais controverso presidente de um clube de futebol que o futebol português conheceu desde sempre. Todos o queriam copiar e, por isso, transformou-se num mito. O Benfica e o Sporting, nas suas diversas mutações, tudo fizeram para compreender e assimilar o fenómeno, mas o resultado foi desastroso. Apesar das tentativas, ninguém conseguia clonar Pinto da Costa e os ensaios redundaram num enorme falhanço.

O sucesso do FC Porto tem muito a ver, primeiro, com a capacidade de roubar ao Benfica o rótulo de clube que dispunha dos melhores jogadores portugueses e, em segundo lugar, através deles, formar equipas competitivas, capazes de serem, sobre o terreno, as extensões do pensamento do líder Pinto da Costa, cada vez mais visível na crista da onda azul e branca.

Na sua história, o FC Porto teve alguns jogadores portugueses relevantes (como Pinga, Virgílio, Pedroto, Hernâni, Barrigana, Custódio Pinto, Américo, Pavão, entre outros), mas foi quando José Maria Pedroto regressou ao FC Porto que se começaram a formar as equipas-exército. Jogadores como Fonseca, Gabriel, Simões, Freitas, Murça, Octávio, Rodolfo, Seninho, Gomes e Oliveira foram uma espécie de ‘tubos de ensaio’ para as experiências mais radicais realizadas nas décadas de 80 e 90. Na final da Taça dos Campeões Europeus, conquistada ao Bayern (maio de 1987), sob a batuta de Artur Jorge, João Pinto, Celso, Eduardo Luís, Inácio, Quim, Jaime Magalhães, Madjer, Sousa, André, Frasco, Juary e Futre eram já a imagem da qualidade embutida no compromisso.

Após a influência decisiva de José Maria Pedroto, foi contudo com Artur Jorge, Carlos Alberto Silva, Bobby Robson, António Oliveira e Fernando Santos que o FC Porto corporizou (nos anos 90) a ideia de equipa-exército.

A cada deslocação do FC Porto, fosse a Chaves, Aveiro, Setúbal, Lisboa ou Portimão, a imagem de carga pesada. A cada receção no areópago portista, a construção de um ambiente hostil a quem se deslocasse ao Estádio das Antas. Os adversários e, principalmente, as equipas de arbitragem e os jornalistas, sobretudo os jornalistas ‘de Lisboa’ (assim etiquetados), eram recebidos por uma espécie de ‘orla securitária’, que alternava entre a simpatia musculada e a musculação mais antipática.

Nunca declaradamente, Pinto da Costa justificava este transformado ADN do FC Porto como uma decorrência do protecionismo que Salazar e o Estado Novo dedicavam aos clubes de Lisboa e, particularmente, ao Benfica.

O presidente do FC Porto dava voz ao sentimento expressado em “Os Maias”, de Eça de Queirós, em cuja obra, numa fala de João da Ega, se diz que “Lisboa é Portugal” e que “fora de Lisboa não há nada. O país está todo entre a Arcada e São Bento!”

Pinto da Costa olhou para o país e para as suas assimetrias sociais, políticas, culturais e económicas para desferir o maior ataque ao centralismo da capital que alguma vez fora visto em terras lusas. Pinto da Costa atirou Portugal contra Portugal e fez dele uma espécie de manifesto político. Fez de Lisboa a capital da macrocefalia e da injustiça e lançou um grito de revolta. Fez-se ouvir em Marco de Canaveses e em todo o Norte; em Portimão e em todo o Sul. Quis dizer ao país que não havia nada nem ninguém que pudesse conter a revolta. Nem governos, nem presidentes da República, nem jornais, nem árbitros, nem jornalistas. Foi constante e perverso na denúncia e no desmascaramento dos calabotes do desenvolvimento e talvez se tenha inspirado neles e nas suas perversidades para replicar em dobro a aplicação de uma dinâmica que levasse o Porto e a região à glória.

Pinto da Costa achava que tinha legitimidade para isso porque entendia que o Porto, os portuenses e os nortenhos eram credores de um ciclo novo, em função de um tempo em que tinham sido injustamente ostracizados e esquecidos.

Talvez tenha sido um direito reclamado ou apenas uma vingança. Mas Pinto da Costa nunca cedeu e longos foram os anos em que calçou as botas cardadas e não facilitou na linha da frente. Usando artilharia pesada e também ‘fogo amigo’.

Não facilitou e sempre automotivado pelos resultados rápidos da sua intervenção, na gestão e no discurso, houve um tempo em que se terá deslumbrado com a eficácia dos métodos utilizados. Não eram apenas os bons jogadores e os bons treinadores; não era apenas o modelo de gestão, agora mais centralizado na sua figura em equipas pequenas e criteriosamente escolhidas no plano administrativo. As vitórias em Viena em Tóquio, sinalizadoras, a dimensão do êxito, a verificação de um Benfica reduzido à sua expressão mais humilhante e um Sporting quase invisível, a cadência das conquistas, o avanço territorial e imperial, tudo foi importante para a criação de um halo de inexpugnabilidade e até de uma certa magia em redor de Pinto da Costa.

A ideia da punição talvez tenha estado presente e nela se plasmou a vontade de não reprimir nem avaliar possíveis danos perante a as visitas, tornadas constantes, do verbo coagir.

A ambivalência e a dúvida entre premiar e reprimir, entre atrair e rechaçar, entre encantar e abduzir sempre estiveram presentes no mapa de Pinto da Costa. Foi nessa ambivalência e com a capacidade de não se chocar com nada que conseguiu ter junto de si e do seu meio pessoas tão abissalmente diferentes como o general Ramalho Eanes e o guarda Abel ou Leonor Beleza e Carolina Salgado.

Há quem veja nessa transumância entre a igreja e o cabaré a razão pela qual Pinto da Costa se tornou, talvez, na figura que, num determinado momento, maior poder conseguiu concentrar à sua volta. Com a bênção do Papa João Paulo II.

Nesse trajeto, percebeu que não podia ter apenas ‘inimigos’ — algo que por exemplo o atual presidente do Sporting, Bruno de Carvalho, já algumas vezes comparado ao homólogo do FC Porto, não conseguiu entender — e fez algumas alianças estratégicas muito importantes para a afirmação do seu magistério de influência. Uma dessas alianças, talvez a mais eficaz, realizou-a com Valentim Loureiro, seu parceiro de muitas ‘viagens’. E com Pinto de Sousa, um dos homens fortes da arbitragem.

O ‘Apito Dourado’ foi apenas a consequência do deslumbramento e de um certo sentimento de impunidade que tomou conta do líder portista.

Não está em causa, nem nunca esteve, creio, a valia e a capacidade técnico-táctica de jogadores e treinadores chamados por Pinto da Costa a desenhar a supremacia do FC Porto.

A verdade, porém, é que — através da disseminação do medo e da intolerância por tudo o que não fosse alinhado com o ideário e o compromisso de Pinto da Costa — alguns penáltis (não) foram assinalados, árbitros receosos correram à frente dos jogadores-soldados e jornalistas foram agredidos.

Não é uma fase brilhante e que deva orgulhar Pinto da Costa. Mas aconteceu e faz parte da estória (dentro da história).

O ‘Apito Dourado’ pariu um rato, mas as escutas efetuadas ao longo do processo deram para perceber muita coisa. Que os árbitros e os fiscais de linha eram sugeridos, propostos ou ‘negociados’. Era uma pouca-vergonha e até Luís Filipe Vieira foi apanhado nessas escutas — questionado por Valentim Loureiro — a recusar árbitros, a dois dias da meia-final da Taça de Portugal de 2003-04.

Com maior ou menor dificuldade, incluindo uma escapadela a Espanha, não exatamente para comprar caramelos, Pinto da Costa sofreu muito com o embate do ‘Apito Dourado’ mas resistiu. E, convenhamos, era muito difícil resistir. Teve apoios muito importantes dos quais nunca se esquecerá e que são fundamentais — não apenas como dívida de gratidão — na entourage atual. O FC Porto pode estar a pagar, indiretamente, essa dívida de gratidão.

4 Mourinho ajuda a diminuir impacto do ‘Apito Dourado’

No começo do milénio, ainda antes das labaredas do incêndio relativo ao ‘Apito Dourado’ atingirem grandes proporções e depois da conquista do ‘penta’ (com Fernando Santos), Pinto da Costa, claramente sentado em cima do êxito, vê o Sporting e o Boavista a interromperem um ciclo impressionante de vitórias (apenas 4 derrotas em 5 campeonatos).

Astuto e numa fase em que não quer ver comprometido todo o trabalho realizado até então, e percebendo as capacidades de um treinador que prometia muito, Pinto da Costa contrata José Mourinho. Estava para eclodir o ‘Apito Dourado’. É um período particularmente agitado na vida do líder portista. Mourinho salvaguarda-lhe a parte desportiva e permite-lhe concentrar-se noutras batalhas, a principal das quais tem a ver com a sua sobrevivência como dirigente desportivo e, evidentemente, como presidente do FC Porto.

O Estádio do Dragão é inaugurado em 2003 e o FC Porto volta a sagrar-se campeão europeu em 2004 (em Gelsenkirchen, perante o Mónaco, 3-0).

Quer dizer: o FC Porto está — com Mourinho — num momento de retoma e isso dá ânimo a Pinto da Costa para resistir ao impacto do ‘Apito Dourado’. Quando a ‘bomba’ rebenta, já Mourinho não está no Porto, mas os factos imputados correspondem às duas épocas em que o técnico português se achava na Cidade Invicta.

Consagrado com um título europeu, Mourinho sai para o Chelsea, o FC Porto não acerta nos treinadores (Luigi Delneri, Victor Fernández e José Couceiro, apesar da conquista da taça Intercontinental pelo espanhol), e o Benfica, com Trapattoni, consegue ganhar o campeonato (2009-10), o que já não acontecia há 10 anos. O FC Porto recompõe-se com Co Adriaanse e Jesualdo Ferreira, até que Luís Filipe Vieira — sem êxito nas apostas feitas até então — vai buscar Jorge Jesus ao Sporting Braga. Muda tudo: com investimento, o Benfica começa a ‘morder os calcanhares’ ao dragão e a estreitar diferenças até se sagrar bicampeão nacional. Começa a falar-se de declínio e de ‘fim de regime’. Pinto da Costa está mais velho e começa a perceber-se que o seu poder já não é o mesmo.

5 Sinais de declínio, com o Benfica mais forte

A luta pela hegemonia foi difícil e uma canseira. Batalhas todos os dias, durante décadas, não é para todos. O FC Porto e Pinto da Costa sentaram-se em cima do êxito, que foi rotundo e para eles imperecível.

O líder portista contou durante muitos anos com a colaboração da vocação autofágica do Sporting, com as dificuldades de gestão do futebol reveladas no período anterior a Manuel Vilarinho e Luís Filipe Vieira, no Benfica, e com o tempo de aprendizagem que o atual presidente dos ‘encarnados’ precisou para si próprio, no sentido de compreender todo o fenómeno do futebol, transversalmente, dentro e fora das quatro linhas.

À maturação e evolução de Luís Filipe Vieira têm de se lhe juntar a chegada do treinador Jorge Jesus ao Benfica. Com ele, o futebol dos ‘encarnados’ mudou. Não havia um modelo, não havia uma cultura de exigência e isso Jorge Jesus levou para a Luz e para o Seixal e aplicou um conceito muito próprio no dia a dia do futebol profissional do Benfica.

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joaquim norte de sousa

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Ana Baião

Maicon: o capitão que abandona o barco ou um sinal de falência?

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Luís Filipe Vieira decidiu investir no futebol e em Jorge Jesus; e Jorge Jesus decidiu investir todos os seus conhecimentos no futebol do Benfica. Tudo numa altura em que o FC Porto se apresentava instalado no cume da montanha. O Benfica é campeão na primeira época com Jesus, o FC Porto sente-se ameaçado e a ‘guerra’ Benfica-FC Porto ou FC Porto-Benfica conhece episódios que ficam para sempre na memorabilia do futebol nacional.

André Villas-Boas consegue reprimir a vontade de afirmação do ‘novo Benfica’, mais competitivo e mais agressivo, mas Villas-Boas ganha o campeonato, a Taça de Portugal e a Liga Europa (além da Supertaça) e abandona o Dragão, deixando Pinto da Costa numa situação difícil e inusitada. Pinto da Costa nunca fora adepto de ‘chicotadas’ e era ‘chicoteado’ por um dos seus próprios treinadores. Recorreu a Vítor Pereira, as coisas aconteceram in extremis (Jesus ajoelhou), mas havia claros sinais de degradação competitiva da equipa. Muitas entradas e saídas, muitos negócios, muitas operações de compra e venda que colocavam em destaque a dependência de um conjunto de mecanismos capazes de garantir a eficácia dessas operações, como o recurso, nomeadamente, a fundos de investimento.

Pinto da Costa, ao longo do seu percurso no FC Porto, defendido pela obra que havia conseguido erigir, nunca permitiu, internamente, grande ruído à sua volta. Contestação clara e inequívoca, zero. Pinto da Costa protegeu sempre quem o protegeu e apoiou (de modo diferente e em circunstâncias diferentes, Reinaldo Teles, Adelino Caldeira e Antero Henrique) e quem, num determinado momento, divergiu dele, como foram os casos dos ex-administradores Fernando Gomes e Angelino Ferreira, no plano da gestão financeira, optou pela saída. Discretamente. Com o mínimo de dano possível.

Contudo, essas saídas encerravam dentro delas a previsão de uma grave crise financeira no FC Porto, face aos sinais de que Pinto da Costa não parecia muito interessado em promover uma política de contenção, reduzindo os gastos com o futebol.

O caso da saída de Fernando Gomes encerra consequências muito importantes, do ponto de vista da relação do FC Porto com o exterior.

Em custos com pessoal, a SAD do FC Porto passou de gastos de €48,9 milhões em 2013-14 para €70 milhões em 2014-15 (com Julen Lopetegui). Brutal e aparentemente insustentável!

Pela integração da EuroAntas na SAD, cuja principal atividade é a exploração do Estádio do Dragão, o ativo, segundo as contas de 2014-15, cresceu 80%, mas o passivo cresceu 42,7%, em razão igualmente da agregação do passivo da EuroAntas, que assumiu o project finance para a construção do estádio.

Gerou-se também o mito segundo o qual o FC Porto é um fenómeno mundial em relação à capacidade de comprar e vender, mas a verdade é que os valores publicados na imprensa e as mais-valias reais correspondentes às operações de venda são bastante diferentes. Alguns exemplos recentes:

Quer dizer que as intermediações e outros custos associados às operações de transferência são elevados, além de ser indiscutível que o FC Porto tem uma estrutura de custos muito pesada.

Face aos resultados dos últimos exercícios, a SAD do FC Porto anda às voltas com o Fair-Play Financeiro da UEFA e a luz vermelha já se acendeu, uma vez que nas próximas contas o prejuízo não pode ser superior a €8,6 milhões.

O FC Porto, ao mesmo tempo que estava a perder identidade no balneário — a chamada ‘cultura Porto’ — com perda de referências, como eram os casos de um Vítor Baía, de um Jorge Costa, de um Fernando Couto, de um Ricardo Carvalho, de um Bruno Alves, de um Raul Meireles, já para não falar de um João Pinto, de um André, de um Jaime Magalhães, de um Sousa, de um Frasco, e, para não ir mais atrás, dos ‘Rodolfos’ que transpiravam FC Porto por todos os poros, promovendo loucamente a ideia de uma placa giratória no Dragão, por onde passavam jogadores não pertencentes totalmente ao FC Porto, o que gera dificuldades aos treinadores no sentido da criação de raízes no balneário, perdia também músculo financeiro e ainda poder na sua relação com o mundo exterior. E essa perda de poder fica muito relacionada com a saída de Fernando Gomes, que pura e simplesmente não se afastou como o fez Angelino Ferreira; saiu do FC Porto para a Liga e da Liga para a Federação, construindo excelentes relações com o “Benfica de Vieira”.

Aqui estão, evidenciados, os sinais da decadência portista. O envelhecimento (natural) do líder, um certo convencimento que o mais importante já estava feito, levando toda a estrutura — a famigerada estrutura — a acomodar-se ao ritmo dos negócios e às mordomias decorrentes do exercício de administrar, a vertigem incontrolável da despesa (grandes vendas não têm correspondência em estabilidade financeira), o crescimento do Benfica e o súbito ressurgimento do Sporting (em fase de avaliação) e a perda de poder através da Federação (FPF), com consequências, por exemplo, ao nível de uma nova realidade na relação com o sector da Arbitragem. O FC Porto perdeu o controlo da Arbitragem quando deixou de controlar a Federação.

6 Firme na ‘cadeira de sonho’ até ao fim. E o FC Porto?

É neste quadro decadente que Pinto da Costa se prepara para iniciar o 14º mandato como presidente do FC Porto. Ignora os sinais, as críticas e a contestação. Os ‘Cerqueiras’ tratam de ripostar perante as ‘ameaças’ protagonizadas pelos ‘Baías’ e ‘Amorins’. Quando Pinto da Costa enfrentou Américo de Sá, o FC Porto debatia-se. Agora um pouco, também. A diferença é que, no interior do FC Porto, ninguém tem a coragem de dizer, não que o rei vai nu, porque essa nudez ainda pode ser resolvida com algumas peças de roupa, mas que o FC Porto precisa de se renovar. Antero está preso na sua funcional ‘lealdade’ e Pinto da Costa nunca viu no filho, Alexandre, ultrapassadas as divergências de antanho, vocação para a função presidencial. Pinto da Costa não vê sucessores e talvez nem queira ouvir falar deles. O FC Porto parece condenado a ter de se resolver quando Pinto da Costa partir, como acontece inexoravelmente a todos os seres humanos. Essa é a maior provação dos portistas. Pinto da Costa talvez entenda que conquistou o direito de ficar até ao fim. Na sua ‘cadeira de sonho’. A ’cadeira de sonho’ que não quer abandonar. E por isso assiste, sem sombra de crítica ou autocrítica, ao esvaziamento do Dragão. Falhou com Lopetegui e contratou Peseiro. A equipa tenta equilibrar-se, mas o episódio Maicon acentua a ideia de falência. O ‘capitão’ abandona o relvado? Como é possível? Como é possível o FC Porto, a sua estrutura profissional e o seu presidente, não terem um substituto para o brasileiro? Como é possível não se ter resgatado Octávio ao Guimarães, em janeiro? E de capitulação em capitulação, o FC Porto expõe-se, finalmente, às mensagens e ao poder — mais ou menos simulado; mais ou menos dissimulado — da sua claque.

Não se sabe quem manda mais: se Antero, se Madureira (chefe da claque dos Superdragões).

A igreja, o cabaré e o macaco, no passeio da fama. Da ascensão à queda.

E o FC Porto?!

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 2 abril 2016

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