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O segredo do conto de fadas do Leicester? Coração, alma e... pizza, diz o treinador

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O italiano Claudio Ranieri, de 64 anos, levou o modesto Leicester ao topo da liga inglesa

Claudio Ranieiri, treinador da equipa-sensação da Premier League, está aos 64 anos a um pequeno passo da maior conquista da carreira. Num artigo, explica como levou uma equipa, o Leicester, dos últimos lugares da tabela até ao topo da liga inglesa

Há um ano, por esta altura do campeonato, o Leicester City, uma modesta equipa do centro de Inglaterra, estava a lutar para não ser despromovida da principal divisão do futebol inglês. Agora, os "foxes" (alcunha herdada por causa da caça de raposas naquela região no século XIX) estão a quatro vitórias de conseguir um feito inédito nos seus mais de 100 anos de história: conquistar a Premier League. E não dão sinais de desarmar do objetivo: nos últimos seis jogos, empataram um e venceram cinco, sempre pela margem mínima (1-0), deixando o também surpreendente Tottenham a sete pontos. No King Power Stadium, o estádio do clube, já cheira a festa.

Como é que uma equipa que há dois anos estava no segundo escalão luta agora pelo título em Inglaterra, é a pergunta a que todos tentam responder. O treinador do clube, o italiano Claudio Ranieri, de 64 anos, deixa algumas pistas num artigo imperdível no site The Player's Tribune.

Quando no última verão chegou ao Leicester, Ranieri era um treinador com um currículo cheio de nomes gordos (Valência, Atlético de Madrid, Chelsea, Fiorentina, Parma, Roma, Juventus, seleção da Grécia....), mas magro em títulos de campeão: venceu apenas três campeonatos, todos em divisões inferiores – no terceiro escalão com o Cagliari (Itália), no segundo com a Fiorentina (Itália) e com o Mónaco (França). O mais perto que esteve de um caneco a valer foi no Chelsea em 2004, antes da chegada de Mourinho, e depois disso na Juventus (2009), Roma (2012) e Mónaco (2014). Quatro vezes segundo. Quatro vezes o primeiro dos últimos.

Na primeira reunião, o presidente do Leicester, o milionário tailandês Vichai Srivaddhanaprabha, não lhe pediu altos voos: bastava-lhe não ser um dos últimos entre os últimos. 40 pontos. Era o que precisavam para ficar mais um ano na Premier League. "Nessa altura, eu não poderia imaginar que abriria o jornal a 4 de abril e veria o Leicester City no topo da classificação com 69 pontos. No ano passado, por esta altura estávamos no fundo da tabela. Inacreditável", escreve Ranieri.

O futebolista do Leicester Danny Drinkwater festeja mais uma vitória com o colega de equipa Leonardo Ulloa

O futebolista do Leicester Danny Drinkwater festeja mais uma vitória com o colega de equipa Leonardo Ulloa

Darren Staples

O italiano conta que percebeu que tinham uma oportunidade de sobreviver na Premier League quando viu a qualidade dos futebolistas no primeiro treino. Jogadores como Jamie Vardy, Riyad Mahrez, N'Golo Kanté, Wes Morgan ou Danny Drinkwater, "considerados demasiado pequenos ou demasiado lentos para outros grandes clubes". Há poucos anos, muitos deles andavam pelas divisões secundárias. Vardy trabalhava numa fábrica. Kanté estava na terceira divisão francesa. Mahrez na quarta. Agora, estão a lutar pelo título na liga mais mediática do planeta, brilham nas suas seleções e figuram nas listas de compras de meia Europa.

AS PILHAS DE KANTÉ E VARDY, "UM CAVALO FANTÁSTICO"

Nesse primeiro treino, Kanté, um médio pequeno mas irrequieto, que a 25 de março marcou um golo na estreia a titular pela França, não parava de correr de um lado para o outro, "como se tivesse um pacote de pilhas escondido nos calções". Ranieri disse-lhe: "Hey, N'Golo, abranda. Abranda. Não corras atrás da bola a toda a hora, okay?". O gaulês acenava com a cabeça, dizia que sim, mas dez segundos depois já estava a acelerar desenfreadamente como se tivesse bebido a poção mágica de Astérix. Ranieri voltou à carga: "Disse-lhe, 'Um dia vou ver-te cruzar uma bola e depois concluíres tu mesmo o cruzamento de cabeça'. Ele é inacreditável, mas não é a única chave. Há demasiadas chaves nesta época incrível".

Jamie Vardy, por exemplo. Para o treinador, o segundo melhor marcador da Premier League "não é um futebolista, é um cavalo fantástico", que precisa de correr livre pelo campo. O técnico só lhe pediu uma coisa: podia movimentar-se por onde quisesse, mas teria de ajudar a equipa quando esta perdesse a bola. Se ele presssionasse o adversário, todos os colegas o seguiriam. Foi essa mensagem que o italiano deixou aos seus jogadores antes do primeiro jogo da época. "Somos uma equipa pequena, por isso temos de lutar com todo o nosso coração, com toda a nossa alma. Não me interessa o nome do adversário. Tudo o que quero é que lutem. Se eles forem melhores do que nós, okay, parabéns. Mas eles têm de mostrar-nos que são melhores".

Será um futebolista? Será um fantástico cavalo? Eis Jamie Vardy, goleador sensação da Premier League

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Carl Recine

Os "foxes" começaram a época de forma fantástica, sobretudo para uma equipa que pretendia escapar à despromoção – quatro vitórias, quatro empates e apenas uma derrota. Ranieri só tinha uma preocupação: a equipa concedia demasiados golos. Então, antes do jogo da 10ª jornada, contra o Crystal Palace, o técnico tentou uma nova abordagem: prometeu oferecer pizza aos jogadores se não concedessem qualquer golo.

Depois da vitória por 1-0, o técnico cumpriu a promessa, mas tinha uma surpresa preparada: seriam os futebolistas a preparar as suas pizzas. "Têm de trabalhar para tudo", disse-lhes. Depois disso, nos 22 jogos que se seguiram, mantiveram a baliza inviolável uma dúzia de vezes. "Não creio que seja coincidência", pensa agora.

Ranieri elogia a "eletricidade fantástica" que se sente no King Power Stadium, a casa do Leicester

Ranieri elogia a "eletricidade fantástica" que se sente no King Power Stadium, a casa do Leicester

Carl Recine

26 JOGADORES, 26 CÉREBROS, UM CORAÇÃO

Ranieri não esquece os adeptos. Fala de uma "eletricidade fantástica" no King Power Stadium e não apenas quando a equipa tem a bola. "Quando estamos sob pressão, eles sentem a nossa dor e cantam ainda com mais convicção. Percebem a complexidade do jogo e [sabem] quando os jogadores estão a sofrer. Estão muito, muito perto de nós".

Faltam seis jogos para o conto de fadas do Leicester ter um final feliz. Por todo o mundo, há milhões de adeptos a torcer pela equipa. O próprio Príncipe William, conhecido adepto do Aston Villa, já confessou que deseja que o Leicester vença a Premier League. "Penso que seria positivo para o desporto", admitiu na cerimónia do décimo aniversário como presidente honorário da Federação Inglesa Futebol.

Enquanto os adeptos sonham, Ranieri – que admite terminar a carreira no Leicester – diz que a equipa tem de continuar a lutar, com mente e coração abertos, baterias carregadas e a correr livremente como Vardy e Kanté. "Este é um pequeno clube que está a mostrar ao mundo o que pode ser alcançado com espírito e determinação. Vinte e seis jogadores. Vinte e seis cérebros diferentes. Mas um coração". Talvez no final da época tenham direito a mais uma ou duas festas com pizza.