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Mataram o futebol

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Maradona,atleta? Era gordo, anafado e até drogado, mas foi um dos melhores futebolistas de sempre e levou a Argentina ao título mundial em 1986

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Estávamos nos anos 90 quando o futebol deixou de ser ócio para ser negócio. A falta de prazer alastrou-se a jogadores, treinadores e adeptos. “Voltemos aos espetáculos de antigamente”, pediu o mentor de Guardiola numa conferência em Lisboa

Há uma maneira infalível de distinguir o adepto ocasional do adepto apaixonado. Basta fazer-lhe uma pergunta simples: qual foi o teu primeiro Mundial? Faça agora um minuto de intervalo e pense bem no assunto. Já está? Prossigamos: o primeiro adepto se calhar não saberá ao certo o que dizer; o segundo terá uma resposta que o enquadrará geracionalmente e que nos permitirá perceber como é que o futebol o começou a marcar. Ora o meu primeiro Mundial foi, lamentavelmente, o de 1994, nos EUA. Que teve Romário, Bebeto (a embalar o bebé, pois claro), Baggio e Preud’homme, sim, mas pouco mais. Porque quando comecei a ver futebol, já o futebol tinha morrido. Juanma Lillo explica: “Tens de fazer muita força para te lembrares de qualquer coisa emocionante nos Mundiais de 1990 e 1994, foram insuportáveis. Foi nos anos 90 que o futebol morreu”, disse o homem que Pep Guardiola reconhece como seu mentor.

A tese deste treinador espanhol de 50 anos, explicada pelo próprio numa conferência que decorreu em Lisboa, na Universidade Lusófona, é dura e baseia-se em dois argumentos fundamentais: foi nos anos 90 que, fora de campo, a modalidade começou a ser muito mais negócio do que ócio; e foi nos anos 90 que, dentro de campo, a supremacia do físico sobre a técnica passou a dominar o futebol.

Faz sentido? Muito, diz António Simões. “Não quero parecer moralista, mas a nossa juventude hoje será que quer ser como Messi e Ronaldo ou será que quer ter o que Messi e Ronaldo têm, dinheiro e fama? Os milhões que estão entre ganhar e não ganhar mexeram muito com o jogo e com o jogador, a quem hoje se paga somas quase incomportáveis”, considera o ex-internacional português, que recebia cinco mil escudos (hoje 25 euros) quando foi contratado pelo Benfica, em 1961.

Em 2014/15, os clubes que participaram na Liga dos Campeões partilharam um bolo de mais de mil milhões de euros, entre prémios e receitas televisivas. Mas o número não impressiona a ganância. Recentemente, a ideia da criação de uma Superliga apenas para a elite europeia, já defendida em 2009 por — quem mais? — Florentino Pérez, voltou a ganhar força, quando os maiores clubes ingleses se reuniram com Charlie Stillitano, empresário norte-americano que organiza a International Champions Cup, torneio de pré-época que reúne algumas das maiores equipas do mundo, e que tem boas relações com a UEFA. Para Stillitano, a Liga dos Campeões — ou outra competição semelhante — só deve ter os maiores clubes a competir, porque são os maiores que geram mais dinheiro e são os maiores que os adeptos querem ver. O empresário utilizou o exemplo do Leicester, surpreendente líder da Liga inglesa, para dizer que, ainda que “a história seja bonita”, há que ver o outro ponto de vista: interessa mais ter na Champions o Leicester ou o Manchester United?

“Conheci o Stillitano quando morei nos EUA e não me choca que ele queira criar uma liga assim, que creio ser inevitável, eventualmente, mas a questão aqui é conciliar o negócio com a paixão, que é indispensável no futebol”, defende Simões. É que a ditadura das grandes potências (financeiras) no futebol nem sempre é acolhida com um sorriso: basta ver a cara de enjoo de Jackson Martínez quando foi apresentado na China (a contrastar com a alegria do empresário Jorge Mendes) ou a luta dos adeptos do Liverpool contra o aumento dos preços dos bilhetes em Inglaterra. Lillo diz que o dinheiro se sobrepôs à paixão, e torna-se difícil contrariá-lo: “Hoje fala-se de tudo menos do próprio jogo. Onde está a paixão de um adepto que nem pode dizer o 11 da equipa numa época, porque os jogadores estão sempre a mudar? Antes, o Maradona marcava um golo sozinho, era um herói. Hoje, se o Messi marca um golo há cinco gajos que levantam logo a mão: o dietista diz que foi da refeição que preparou, o podologista diz que lhe cortou as unhas, o preparador físico diz que foi dos sprints que treinaram...”

O coxo, o gordo e o anão

Se o futebol é negócio e o negócio só recompensa os vencedores, há que fazer tudo para aumentar as probabilidades de ganhar. Ou, por outro lado, não perder. Foi aí que entrou o físico. “O conhecimento mais profundo e científico sobre o ser humano fez com que a componente física invadisse o futebol e passasse a dominá-lo, especialmente nos anos 90. Passámos a ter muitos jogadores extremamente competitivos fisicamente, mas daqueles que não nos ajudam a ganhar, ajudam é a não perder, que é uma coisa bem diferente”, argumenta Simões, que sofreu na pele com adversários bem mais fortes — mas bem menos talentosos — do que ele.

Passou a confundir-se atleta com futebolista, mas o futebol nunca teve a linearidade da ginástica: nem sempre um grande atleta é um grande futebolista, e vice-versa. “No primeiro Mundial que vi, o de 62, no Chile, fiquei deslumbrado com o Garrincha. Como era possível um homem com as pernas tortas, daquele tamanho, fazer aquilo tudo? E o Maradona? Baixinho, uma grande cabeça, um grande rabo — a antítese do atleta baseado no físico, e era o melhor”, diz António Simões.

Francisco Silveira Ramos, diretor técnico da Federação Portuguesa de Futebol, resume os avanços e recuos da modalidade em quatro fases distintas: “Nos anos 60/70, uma fase baseada na técnica; nos anos 70/80, a introdução de métodos de treino para apurar o físico acima de tudo; nos anos 90/00, um aumento do volume dos treinos físicos; e, atualmente, um novo paradigma em que o lado técnico voltou a ser o mais importante, mas sem esquecer o físico e a tática.”

Mais importante do que correr é saber para onde correr. “Quando treinava o Saragoça, um jogador veio ter comigo no início da época e disse-me, todo contente: ‘Mister, estou melhor do que nunca fisicamente.’ Olhei para ele e respondi-lhe: ‘Isso é a pior notícia que me podias dar. Agora vais estar em mais sítios errados mais vezes, cabrão’”, contou Lillo. No último mês, nos oitavos de final da Liga dos Campeões, o Barcelona foi a Londres derrotar o Arsenal por 2-0. O atleta Lionel Messi teve uma prestação lamentável: correu pouco mais de oito quilómetros, o pior registo de todos os jogadores em campo (alguns correram 12 quilómetros). Mas o futebolista Lionel Messi teve uma prestação bem diferente: criou perigo sempre que teve a bola em seu poder e marcou os dois golos da equipa. Touché.

“Se eu fosse bola, queria jogar nos pés de quem? De Messi, claro”, sentencia Simões. “O futebol é arte, não é corrida. Num Mundial há 23 jogadores em cada uma das 32 seleções, e são quase todos iguais. Só há meia dúzia de reis e príncipes. Cada vez que aparece alguém que faz alguma coisa mais surpreendente, ficamos malucos”, graceja. Mais surpreendente do que as cuecas e cabritos que Neymar trouxe para Barcelona é difícil, mas, ainda assim, há em Espanha quem diga que aqueles malabarismos são uma falta de respeito para com os adversários. Preferimos então ter um jogo aborrecido, que não ofenda ninguém?

“Se queremos ter um jogo que nos apaixona, então o que interessa é ter jogadores que nos apaixonem com a bola”, conclui Silveira Ramos. “Lembro-me da emoção de ver o Mundial de 66 e, além do Eusébio, claro, impressionava-me muito o Coluna, que não perdia uma única bola. Era incrível, porque a bola não tinha segredos para ele — para eles —, fruto da muita liberdade individual, algo que depois os jogadores deixaram de ter. O João Vieira Pinto, por exemplo, contou-me que, a determinada altura da carreira, perdeu à vontade perante os adversários, porque os treinadores tantas vezes o obrigavam a jogar a um e dois toques, a ter de largar a bola rápido, que ele acabou por perder a boa relação que tinha com a bola.”

Guardiola ganhou 
14 troféus em quatro anos no Barcelona, mas, como diria Cruyff, “o maior legado é o estilo”: revolucionou o futebol moderno com a valorização da posse de bola como ferramenta ofensiva

Guardiola ganhou 
14 troféus em quatro anos no Barcelona, mas, como diria Cruyff, “o maior legado é o estilo”: revolucionou o futebol moderno com a valorização da posse de bola como ferramenta ofensiva

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Algures entre esta desvalorização da criatividade dos jogadores começou a valorização de outro interveniente no jogo como expoente máximo da evolução tática: o treinador. “Começámos a olhar mais para o treinador quando ele passa a trazer algo de novo para o futebol: Guttmann introduz uma variação na tática WM com a seleção da Hungria da década de 50, Zagallo influencia o futebol brasileiro em 4-2-4 e 4-3-3 em 60/70, Helenio Herrera fica para a história com o catenaccio [tática ultradefensiva] no Inter de Milão dos anos 60”, conta o scout Rui Malheiro, que debita formações, variações e ‘onzes’ de tudo o que são equipas no futebol como quem soma dois mais dois. “São marcas ao alcance apenas de grandes nomes, daí dizermos, mais recentemente, o Inter de Mourinho ou o Barcelona de Guardiola. Mas também é preciso ter noção de que há espartilhos táticos que não são benéficos para os jogadores: é preciso haver liberdade para haver criatividade.”

O culto da vitória, numa sociedade que só reconhece vencedores — “o desporto atual reproduz e multiplica as taras da nossa sociedade, centrada na medida, no rendimento, na eficácia”, escreveu o professor Manuel Sérgio no livro “Filosofia do Futebol” —, aumenta o ego dos treinadores, líderes máximos de uma equipa, mas é preciso não esquecer o essencial: são os jogadores que jogam o jogo. “Trabalhei com muita gente, como jogador, treinador e diretor, mas nunca me apercebi de um treinador que tenha feito um jogador. Podem ajudá-los, mas não os fazem jogadores”, conta Simões.

A este propósito, Vítor Frade, ex-coordenador da formação do FC Porto, costuma dizer: “O futebol não se ensina, aprende-se.” Simões corrobora: “Tinha um treinador que dava muitas indicações: ‘Ó Simões, faz isto assim e assado.’ Mas eu não sabia fazer aquilo daquela maneira, então pegava na bola e fazia à minha maneira. E ele lá dizia: ‘Pronto, assim também está bem!’ A criatividade é assim. Por isso é que digo que conheço muitos jogadores que em muito contribuíram para fazer treinadores, isso sim.”

Jogar à bola vs. jogar futebol

A valorização excessiva do treinador é especialmente preocupante na área da formação, onde o coletivo muitas vezes prejudica o desenvolvimento individual. “Há uma pressão muito forte da sociedade — que depois se reflete nos dirigentes e treinadores — para obter resultados rápidos, porque parece que só é bom quem ganha. Quem perde não presta”, diz Silveira Ramos. “Hoje há muitos treinadores com conhecimento, que apresentam demasiados constrangimentos aos miúdos. Costumo dar este exemplo: se há um cirurgião que sabe todas as técnicas médicas, mas só lhe aparecem pacientes saudáveis, ele vai aplicá-las na mesma?

Isto acontece nos treinadores, que sabem muito sobre modelos de jogo e organização coletiva, e quando começam a carreira, normalmente na formação, vão aplicar isso nos miúdos, mas não deviam”, explica o diretor técnico da Federação.

O resultado é a formatação dos jovens jogadores. “No outro dia vi o professor Sidónio Serpa escrever, com razão, que ficava muito preocupado quando ouvia um treinador referir-se a crianças de 10 anos como ‘os meus atletas’. Nas idades mais jovens, temos de preservar a origem lúdica do jogo, porque é aí que se desenvolve a criatividade. Há que separar no percurso de formação o jogar à bola do jogar futebol. Deixem os meninos jogar à bola”, pede Silveira Ramos, que acrescenta que em Portugal os clubes já refletem sobre essa questão e procuram replicar o antigo futebol de rua nas suas academias. “Os miúdos querem fintar e imitar o Ronaldo e o Messi e o Rui Patrício: deixem-nos fazê-lo. Se eu vejo o Renato Sanches a passar por todos, vou dizer-lhe para largar a bola? Claro que não! Se ele consegue, então vamos pô-lo a jogar em inferioridade numérica em vez de igualdade numérica, ou então pô-lo a jogar com os mais velhos, para ele continuar a desenvolver as suas capacidades com a bola.”

Hoje há bem mais jogadores federados do que antigamente — em 1996 havia 95.746 jogadores e jogadoras, em 2015 houve 162.705 —, mas, ainda assim, o talento parece mais escasso do que em outros tempos. “Lembro-me bem de que houve um período na formação em que só interessavam aos clubes os jogadores altos. Esquecemo-nos que existia uma bola”, conta Simões. “No meu tempo havia poucos reis e muitos príncipes, mas acho que os príncipes da minha altura seriam reis hoje em dia.” Silveira Ramos concorda: “Também creio que havia mais jogadores apaixonantes no tempo do Simões, mas felizmente hoje em dia já há mais gente a ter noção de que é preciso estimular o desenvolvimento individual e não comprometê-lo.”

A ressurreição

Então, se o futebol morreu, o que andamos a fazer? Lillo chama-lhe a nova “busca do Santo Graal”. O problema não é só do futebol, diz, mas de uma sociedade em constante mudança, fruto de uma evolução tecnológica que promoveu o imediatismo como norma. “A essência pela qual as coisas se faziam perdeu-se. No meu tempo tinha de passar por muitíssimo para ter dinheiro para comprar uma caderneta de futebol. Hoje, compram-se os cromos todos da caderneta de uma vez só, para despachar. Queremos tudo para ontem, sem percorrer o trajeto. A sociedade atual criou outro tipo de homem, e creio que somos atualmente mais filhos da sociedade do que dos nossos pais”, explicou o ex-adjunto da seleção chilena. “Falta rua no jogar e bairro no viver”, concluiu.

A solução, aponta Lillo, está no melhor livro de tática do mundo: o regulamento. “Toda a lógica do jogo está aí: diz que é provável que seja feio, porque é jogado apenas com os pés, e que ganha quem marcar mais. Atenção: quem marcar mais, porque não diz em nenhum sítio que ganha quem sofrer menos golos.” A arte de antigamente — da Hungria de 54, do Brasil de 70, da Alemanha de 72 e do dream team de Cruyff, enuncia — é difícil de replicar atualmente, ainda que haja mais gente a tentá-lo: “Aquilo que se vê de bom, que gosto de ver, com o Barcelona e o Bayern de Pep, com o Dortmund, o Arsenal e a Fiorentina, não é modernidade, é um voltar ao passado, à essência do futebol.”

Rui Malheiro, cujo primeiro Mundial foi o de 82 — da fantástica seleção brasileira, que acabou por perder para a Itália —, concorda: “Claro que vencer é o que interessa a 90% dos adeptos, pela questão da clubite aguda, mas creio que já há uma geração mais nova menos interessada no resultado e mais na qualidade do jogo. Até porque temos hoje em dia mais gente a querer valorizar o espetáculo: Guardiola no Bayern de Munique, Tuchel no Dortmund e Paulo Sousa na Fiorentina, por exemplo, todos a procurar impor o futebol positivo, de ataque, menos resultadista.”

No (legítimo) polo oposto está José Mourinho, claro. “É o maior exemplo do treinador resultadista, com grandes sucessos, ainda que no início não fosse tanto como é agora. Também era muito ambicioso, mas procurava que as equipas jogassem bom futebol e teve uma influência fantástica em Portugal com a evolução do 4-4-2 losango. Depois ficou algo diferente, com a passagem por Itália e por ser eventualmente contraponto a Guardiola.” E passou a querer acima de tudo aquilo que Sócrates, o “doutor” que liderava o Brasil de 82 (outro que não era “atleta” — fumava e bebia tudo o que lhe apetecia), diz que não é o essencial: ganhar de qualquer maneira.

“Vencer não é a coisa mais importante do mundo. Futebol é arte e deveria ser sobre mostrar criatividade. Como se jogar feio desse resultados sempre?” Não dá. Só dá Mundiais aborrecidos. Como o de 1994.