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“Sou ex-jogador, ex-treinador, ex-diretor. É uma lista bonita que prova que tudo tem um fim”

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Anton Want/ALLSPORT

Cruyff falava como jogava: bonito. Adorava futebol e queria que o adorássemos como ele: Cruyff proclamava o jogo elegante e sofisticado, dominador e deslumbrante. Foi profeta dentro de campo, foi filósofo fora dele: “As lendas também podem alimentar-se de uma derrota”. Johan Cruyff, 1947-2016: perdêmo-lo esta quinta-feira para o cancro do pulmão. Morreu mesmo um dos grandes

Cruyff nasce como jogador nas escolas do Ajax de Amesterdão, estreia-se na primeira equipa com 17 anos e entra na seleção holandesa aos 19, em 1966. Em 1969, a quase desconhecida formação das camisolas brancas com uma lista vermelha ao centro chega pela primeira vez à final da Taça dos Campeões Europeus. É derrotada pelo Milan, mas dois anos depois, sob a batuta de Cruyff, com a célebre camisola número 14, inicia uma série de três vitórias consecutivas do maior troféu europeu. Os grandes e poderosos senhores da Europa do futebol - Inter, Real Madrid, Bayern, Liverpool, Benfica, Juventus - vergam-se ao futebol total e ao talento atacante dos holandeses. O Ajax domina a Europa e o Mundo no início dos anos 70, e Cruyff conquista três bolas de ouro e uma de bronze entre 1971 e 1975. É então contratado pelo Barcelona e ajuda-o a vencer o Campeonato de Espanha após um longo jejum, tornando-se num dos maiores ídolos de sempre do clube catalão.

Na selecção da Holanda, a escola do Ajax faz furor e ganha adeptos por todo o lado. No Mundial de 74, na Alemanha, depois de afastar a Argentina (4-0) e o Brasil (2-0), a laranja mecânica chega à final com os alemães. Mal o jogo começa, a bola chega aos pés de Cruyff, que corre para a baliza, dribla todos os adversários que lhe surgem pela frente e acaba derrubado na grande área germânica. É penálti e o golo mais rápido de sempre numa final de Mundial. A Holanda acabaria por perder por 2-1, deixando um travo de amargura em milhões de espectadores. Poucas vezes uma selecção teve tantos adeptos nos cinco continentes. "Porque é que perdemos o jogo?", recorda Cruyff. "Se tivéssemos ganho, talvez ninguém falasse dessa final e da perfeição do futebol que praticámos. As lendas também podem alimentar-se de uma derrota." No Mundial de 78, na Argentina, já sem Cruyff, que recusou participar num torneio assombrado pela ditadura militar de Videla, a laranja mecânica voltaria a seduzir o mundo do futebol... e a perder a final, de novo com a equipa anfitriã, desta vez a Argentina, por 3-1.

Nesta digressão pela memória, o nome de Cruyff surge quase sempre associado aos de Neeskens e Krol, seus companheiros no Ajax e na selecção. Este trio brilhante foi percursor de um outro trio de excepção que faria renascer o perfume do futebol holandês 20 anos mais tarde: Gullit-Van Basten-Rijkaard. E obriga a recordar mais atacantes geniais, como o trio Di Stefano-Puskas-Gento, do Real Madrid, e a dupla Pelé-Coutinho, do Santos e da selecção do Brasil, nos anos 50/60. Ou os artistas Zico-Sócrates-Falcão, do Mundial em que o cometa italiano Paolo Rossi brilhou de forma fugaz mas decisiva. Sem esquecer o virtuosismo de George Best no Manchester United dos anos 60 ou o talento inigualável de Diego Maradona, ambos capazes do pior e do melhor.

Cruyff, continuará a ser lembrado pelo toque de classe e de distinção do seu futebol, pela magia da sua técnica, pela sua genial visão de jogo. Como dizia o argentino Quino (autor da banda desenhada “Mafalda“): “Quando Johann Cruyff estava em campo, era como se estivéssemos a ver Rudolf Nureyev num palco”. E continuará a ser lembrado pelo que dizia: “Sou um ex-jogador, um ex-treinador, um ex-diretor, um ex-presidente honorário. É uma lista bonita que prova que tudo tem um fim”. Cruyff, 1947-2016.

Republicação (com atualização) de um texto que saiu na revista do Expresso em maio de 2002, assinado por José António Lima