Siga-nos

Perfil

Expresso

Desporto

Corrida ao Dragão para um homem só

  • 333

O eterno líder do FC Porto vai a votos, sem oposição, a 17 de abril, levado ao colo por 10 mil assinantes de 57 delegações de todo o país

Eleições Aos 78 anos, Pinto da Costa volta a ser candidato à presidência do FC Porto. O coro de críticas subiu de tom com o jejum de títulos, mas não tem força para protagonizar uma alternativa

Isabel Paulo

Isabel Paulo

Jornalista

A viver a época mais negra dos seus largos 34 anos de soberania absoluta, Jorge Nuno Pinto da Costa anunciou, na quarta-feira, a sua 14ª candidatura à cadeira de sonho do Dragão para o quadriénio 2016/2020. Há quase três anos sem títulos — o último foi a Supertaça no já ‘longínquo’ verão de 2013 —, o decano dos presidentes no ativo diz que só formalizou agora a sua candidatura porque esperou que a alternativa se chegasse à frente. “Havendo tanta gente disponível, competente, preparada e discordante com a forma como dirigimos o FC Porto, pensei que pudesse entrar mais do que uma candidatura”, afirmou na reunião com Fernando Cerqueira, presidente da Comissão de Apoio à Recandidatura de Pinto da Costa.

O alvo foi Vítor Baía, que não tem poupado o círculo próximo do seu antigo presidente e que garantiu, há dois meses, estar preparado para liderar os destinos dos dragões no pós-Pinto da Costa. O atrevimento não foi perdoado, nem por P.C. nem por Fernando Cerqueira, que atira que “quem tem memória não tem história”. “Duvido que seja sócio do clube, e se o é não deve ter as quotas em dia, pois nunca o vi numa Assembleia Geral, o lugar próprio para tratar os problemas internos, e não na rua”, afirma ao Expresso.

A última AG, na segunda-feira, foi quente: clima de intimidação, ameaças a jornalistas e um repórter agredido no exterior do Estádio do Dragão. Heleno Roseira, sócio portista há 31 anos e que no decurso da AG agradeceu à SAD “ter tido coragem de aparecer depois do que tem andado a fazer nos últimos três anos”, conta ao Expresso que, como outros, desistiu de discutir alguns assuntos. Sentiu-se intimidado pela claque Super Dragões. “Eles riam-se. Fernando Madureira aconselhou-me a ir para casa, dando-se ao luxo de o fazer com a conivência do sr.

Pinto da Costa e restantes dirigentes, salvo o presidente da mesa da AG”, sustenta. “Foi uma vergonha num país democrático.” O vaivém de jogadores e o pagamento de comissões a José Caldeira na recente renovação de Rúben Neves foram temas que ficaram de fora da populosa AG do FC Porto, onde estiveram presentes mais de 300 sócios, em vez dos habituais 30 a 40.

Ao insucesso em campo, Pinto da Costa soma dois desaires na justiça, tendo sido constituído arguido, a par de Antero Henrique, no caso SPDE, uma empresa acusada de vários crimes ligados à prática de segurança ilegal. Esta semana, o FC Porto surgiu ainda envolvido num alegado processo que estará a ser investigado no México. Em causa, a intermediação das transferências de Jackson Martínez e Diego Reyes pela Northfield Sports, com sede na Holanda, uma subsidiária do Grupo Cónclave, suspeito de ligações ao narcotráfico na América Latina. Os negócios dos dois ex-jogadores portistas foram conduzidos pelo diretor-geral e agora administrador da SAD Antero Henrique, embora fonte próxima do clube alegue que este “desconhecia” a atividade da empresa-mãe.

Avesso a críticas

A convivência com a crítica nunca foi um dos fortes de Pinto da Costa, que não deixou escapar a ocasião para lançar uma quota-parte das culpas do insucesso da equipa para cima dos comentadores afetos ao clube, que, na televisão ou noutros púlpitos de opinião, ousam reprovar a gestão da SAD ou a equipa, que desceu para 3º lugar da Liga na passagem de testemunho de Lopetegui para José Peseiro. Na segunda-feira, Pinto da Costa não repetiu o repto real “Porqué no te callas?”, mas andou lá perto. “Se dependesse de nós, iam falar para casa. Temos de estar atentos, não basta dizer que não os queremos cá, temos de os combater”, advertiu, após apontar o dedo a Manuel Serrão, que “devia estar num filme de humor”, a José Guilherme Aguiar, “que fala, fala, mas não diz nada”, “e ainda há o Rodolfo”, o ex-capitão portista, comentador no programa “Play-Off” da SIC Notícias.

No apelo à união, Pinto da Costa lançou também alfinetadas a Vítor Baía e a Carlos Abreu Amorim. Sem ligação ao clube há cinco anos, Baía caiu em desgraça junto da direção dos dragões desde que criticou Pinto da Costa por este estar cada vez mais “afastado das lides do clube e muito mal acompanhado na SAD”. Manuel Serrão, comentador do “Prolongamento”, não se melindra com os remoques do presidente. “É um elogio à minha independência de comentador livre e não pago pelo clube”, diz ao Expresso. O empresário lembra que o próprio Pinto da Costa já admitiu o erro da contratação do treinador espanhol e de Imbula. “Critico decisões e não pessoas, não sou funcionário do clube, era o que faltava alguém censurar-me por isso.” Numa coisa está de acordo com o presidente “ímpar na história do FC Porto”: Vítor Baía, que disse que varria aquela gente toda, “se acha que faria melhor”, devia apresentar-se como rosto da oposição e posicionar-se como alternativa”, ataca Serrão. “Ao contrário dele, eu confio em quem lá está, mas gostava de saber quais são as apostas para 2016/2017. Vão apostar na formação, num balneário com profissionais de referência e anos de casa?”, questiona, seguro que sem ‘portismo’ a equipa não será o que já foi.

Carlos Abreu Amorim, opositor feroz da SAD, lembra que é adepto do FC Porto, não da direção, e que a crítica é um direito inalienável. Sócio do clube há 39 anos, na sua página ‘Puro Portista’ escreveu que o FC Porto “se tornou um joguete fácil e cúmplice nas mãos dos empresários, com uma direção acomodada, aventalhada e pejada de nepotismo e de milionários”. O deputado do PSD não vê a relação entre o direito à crítica e o desafio para que quem a faz se candidate. “Não tenho vocação para dirigente desportivo, não é o meu líquido amniótico”, frisa Amorim, que alega não ter ido à AG por ter ficado até tarde na Assembleia da República. Também não assinou a subscrição de candidatura daquele que titula de “melhor dirigente do futebol português”. Mas irá votar.