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Rui Santos. “A democracia ainda não chegou ao futebol”

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José Carlos Carvalho

A luta pela verdade desportiva continua: jornalista está presente em dois programas da SIC Notícias, escreve para o “Record” e lançou um novo livro, “Mentira$ Futebol Clube”. Leia a entrevista publicada na Revista E do Expresso de 5 de março de 2016

Este é um livro sobre os bastidores do futebol?
O futebol é uma modalidade maravilhosa. Quer dizer, o jogo. Sou um grande adepto, mas sou pouco tolerante em relação ao mal que estão a fazer ao futebol, porque o negócio tomou conta, pela negativa, das coisas boas do futebol. Não sou guardião de nada, mas como gosto muito de futebol às vezes revolto-me. Gosto de participar nesse combate, daí o livro, que me convidaram a escrever. Acho que o grande problema do futebol, independentemente do que acontece nos bastidores, é a arbitragem. Os jogadores evoluíram — basta olhar para o Cristiano Ronaldo, que é muito mais do que um tipo com jeito para jogar à bola, é um atleta —, os treinadores evoluíram — antes não tinham grandes preparações táticas, chegavam à cabina e gritavam “vamos a eles que nem ‘tarzões’” —, mas depois chegamos à arbitragem... e ficaram para trás. A evolução foi no sentido de maior exigência para todos, mas a arbitragem quase ficou parada no século XIX, proporcionalmente.

Há pouco tempo houve a profissionalização dos árbitros...
Ao fim de quantos anos? E uma profissionalização muito mal amanhada. O que digo é que não posso conceber que a arbitragem domine o jogo, no sentido de poder alterar aquilo que os jogadores e os treinadores preparam. Há as leis do jogo, e a arbitragem tem de ter mecanismos para que elas sejam cumpridas, só que não tem. Porque, desde que o futebol se transformou num desporto televisivo, nós todos somos milhões a ter uma visão dos lances, e temos de estar subordinados à visão pontual, às vezes periférica, às vezes cega, de um, dois, três, no máximo quatro elementos. É um contrassenso. Nas sociedades modernas já não há esses olhares soberanos, é tudo escrutinado. No futebol não. Às vezes, os árbitros decidem praticamente por palpite. Tem de se introduzir aqui qualquer coisa que elimine os erros grosseiros, através das novas tecnologias.

Não passamos demasiado tempo a falar de arbitragem?
Acho que sim, mas em Portugal temos um problema, que é a fação e a coação. Há pessoas que defendem incondicionalmente a fação, sem componente autocrítica. Acho importante que haja pessoas que consigam refletir sobre o futebol acima dessa lógica. Como homem da comunicação, repudio completamente métodos de coação. Revolto-me, insurjo-me, critico e tento denunciar.

Este ano tem sentido pressões diferentes?
Tenho, muito mais do que noutros tempos.

De onde?
Costumo dizer que a democracia não chegou ao futebol. As pessoas são muito intolerantes e querem à força toda catalogar os outros. Não me vou deixar capturar, por mais pressões que me façam, por mais processos que me queiram pôr.

De todos os grandes?
A minha vida tem sido isto. Os clubes grandes em Portugal vivem todos com os mesmos vícios. Deste ponto de vista, da relação com a comunicação, são iguais: há tentativas de condicionamento e de captura. Vivi isso com todos. Estive proibido de entrar nos estádios dos grandes, tive episódios para esquecer com eles. E não posso com aqueles que tentam fazer passar a ideia de que são melhores do que os outros, porque não são. São todos iguais.

Vê os programas de debate de futebol?
Passo os olhos, por dever. Interessa-me ouvir aqueles que têm vínculos com os clubes. Mas não perco muito tempo com isso. Acho que este ano foi péssimo e introduziu um fator de ruído suplementar que o futebol dispensava. Mas, lá está, se se resolvesse o problema da arbitragem o ruído de certeza que iria diminuir. Mas aqui também há responsabilidade dos clubes, que, não satisfeitos com os mecanismos que têm de promoção das suas ideias, ainda estão sempre a tentar introduzir e capturar mais pessoas na comunicação social. Hoje temos na televisão pessoas absolutamente obcecadas, cegas, acéfalas e mal-educadas — tudo o que o desporto dispensa. O que se tem visto é uma coisa degradante e deplorável, com responsabilidades várias.

Culpa das televisões também?
Claro. Obviamente, pensam nas audiências.

Também tem essa preocupação?
Tenho, elas fazem parte do negócio. Quando estava n' “A Bola”, por muito bons que pudessem ser os jornais do ponto de vista editorial, tinha sempre o objetivo de venda, não podia levá-los debaixo do braço para casa e emoldurá-los. Mas também acho que é má ideia partir-se do princípio que é a ‘peixeirada’ que vende. Acho que temos fenómenos e epifenómenos na televisão, e neste momento estamos a assistir à passagem de um tufão, e as pessoas vão chegar à conclusão que tem pouco de positivo, porque acaba por não se discutir nada, e as pessoas cansam-se. Vão fartar-se destes talibãs da comunicação, incendiários que não trazem nada de bom.

Tem noção de terem gozado com as suas roupas garridas ou com o seu “aiaiaiaiai”?
[risos] Acho que isso resulta do impacto inicial que as coisas tiveram. Ninguém é consensual neste país. Quando aparece alguém que quer estar acima disso, por dever de ofício, é muito complicado, porque há sempre uma tentativa de captura, como já disse. Portanto, começam a pegar por tudo. No meu caso, foram os caracóis — já me livrei deles, porque os anos passam [risos] —, a roupa, os botões de punho... Até nas minhas confrontações com alguns agentes desportivos lá vêm os botões de punho, os caracóis ou as gravatas [risos]. Sobre isso, esboço um sorriso, porque é de uma indigência intelectual e de um vazio que acho que só me valoriza.

Já pôs o seu nome no Google?
[risos] Oh... Já, tenho de confessar que sim. Para perceber as coisas.

A primeira ligação que aparece é da Wikipédia, mas o texto está adulterado. Diz que foi sodomizado, entre outras coisas do género.
[risos] Não vi nada disso, vou ter de ler.

Depois há um blogue do Sporting a dizer que é benfiquista e um do Benfica a dizer que é sportinguista...
É habitual, em função daquilo que digo mudo de clube. Recebo muitas mensagens dessas, é um vestir e despir de camisola constante. Sempre disse que vim de uma família sportinguista, mas porque coloquei questões a tudo o meu pai, provavelmente, morreu a pensar que eu era benfiquista. Gostava de ver o FC Porto do Mourinho e do Artur Jorge, gostava de ver o Benfica do Jesus e gosto de ver o Sporting do Jesus. Isso não faz de mim benfiquista, sportinguista ou portista. Mas as pessoas não toleram isso. Tento ser responsável nas minhas opiniões, mas não estou muito preocupado com o que dizem. Percebo exatamente quem está por trás, esses “serviços secretos” que os clubes põem a funcionar na internet, essa nova PIDE.

Está em dois programas da SIC Notícias, escreve no “Record”, agora lança um livro... As pessoas não se fartam de si?
Não sei. Acho que sou capaz de projetar uma ideia de utilidade para as outras pessoas, mesmo aquelas que se confessam fartas. Encaro cada programa como uma final da Liga dos Campeões. Quando estava n' “A Bola”, recebi uma vez uma carta de uma leitora que me dizia que lá em casa havia muitas chatices por causa daquilo que eu escrevia, porque a senhora e o marido discutiam. Ela dizia que eu os irritava solenemente, mas que não conseguiam deixar de ler [risos]. As pessoas, às vezes, chateiam-se, mas estão lá. São a minha massa associativa [risos].

[Texto publicado na edição 2202 da revista E do Expresso, em 5 de março de 2016]

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