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Clássicos. Dos 12 pontos em jogo entre os três grandes, o Sporting conquistou 6 e o Benfica 0. Faz diferença? Faz

Ainda estávamos a tentar decifrar as diferenças entre euros e escudos quando um fenómeno parou Portugal. Não havia redes sociais, mas andávamos todos a falar do mesmo: um tipo arrogante que ainda não era especial mas já era diferente. José Mourinho liderava o Porto há pouco mais de um ano e praticamente só sabia ganhar — incluindo os jogos contra os principais rivais, que não conseguiam pará-lo. Um dia, Manuel Vilarinho, então presidente do Benfica, vaticinou uma vitória sobre o FC Porto por 3-0. Correu-lhe mal: Mourinho pegou na entrevista do rival, afixou-a no balneário, e o FC Porto derrotou o Benfica. Tal como derrotou o Sporting, conquistando os 12 pontos possíveis nos quatro jogos com os rivais mais diretos naquela época de 2002/03. Foi a única vez nos últimos 20 anos que um ‘grande’ conseguiu um registo perfeito contra os outros dois ‘grandes’, e, ao contrário do que é habitual dizer-se no futebol, os jogos ‘grandes’ decidem campeonatos, sim. Nesse ano, o FC Porto foi campeão com 86 pontos, mais 11 do que o Benfica. Ou seja, descontando aqueles 12 pontos (e assumindo uma lógica linear, claro), o campeão seria o Benfica.

O exercício repete-se frequentemente nos campeonatos dos últimos anos, onde os pontos conquistados pelos líderes perante os rivais foram quase sempre decisivos — e isto olhando apenas para os números, sem considerar os momentos de ambos e o aspeto psicológico de uma vitória. Em 2014/15, o bicampeão Benfica conquistou 6 pontos contra os rivais: dois empates com o Sporting e um empate e uma vitória com o FC Porto. A equipa de Jorge Jesus terminou a Liga com 85 pontos, mais três do que o FC Porto. A conclusão é óbvia.

Vêm estes registos a propósito das prestações opostas de Sporting e Benfica contra os ‘grandes’ esta época. Em dois jogos com o FC Porto e um com o Sporting, o Benfica não conseguiu conquistar um único ponto. Já o Sporting contou por vitórias dois jogos, um com o FC Porto e um com o Benfica. O domínio sobre os rivais pode parecer trivial aos mais pragmáticos — é que, ainda assim, o Benfica só tem menos um ponto do que o líder Sporting —, mas os registos anteriores dão-lhe contornos curiosos: nunca houve um campeão que perdesse todos os jogos contra os rivais (atenção, Benfica); e o Sporting raramente é o melhor nos embates entre os três ‘grandes: a última vez foi em 2001/02, quando conquistou 6 pontos (o FC Porto ficou com 5 e o Benfica 3) e... foi campeão.

Forte com os fortes, fraco com os fracos. Ou vice-versa

Se os números do Sporting contra os ‘grandes’ são exemplares, o mesmo não se pode dizer dos números contra as equipas teoricamente mais fracas, com quem já desperdiçou 13 pontos. A razão é simples: o Sporting tem um todo que vale mais do que a soma das partes. É um conjunto coletivamente muito forte — a melhor defesa da Liga, com 14 golos sofridos —, fruto dos processos treinados até à exaustão por Jesus, mas peca pela falta de qualidade individual perto da baliza. Apesar da inteligência de Ruiz e de João Mário na associação com os colegas (6 e 8 assistências, respetivamente), nem sempre o Sporting consegue desbloquear o problema da falta de espaço perante adversários mais recuados — com a agravante da dependência de Slimani, que marcou 18 dos 49 golos da equipa. Depois dele, o melhor marcador é Adrien, com 7 golos (4 de penálti).

No Benfica, que tem o melhor ataque da Liga com 65 golos, o que não falta é criatividade, em especial quando os cérebros destes quatro tipos se juntam: Jonas (26 golos e 9 assistências), Mitroglou (14 golos), Pizzi (6 golos) e Gaitán (9 assistências). E ainda há uma quinta ‘parte’ a destacar-se: Renato Sanches, o puto atrevido que nunca mais largou a titularidade desde Astana. O médio ainda perde muitas bolas, mas tem uma ousadia que lhe permite tirar coelhos da cartola, como a assistência para o golo contra o FC Porto, e estabilizar as transições defensivas, por ter um fulgor físico invulgar (e tem a ajuda de Pizzi no meio). Ainda assim, é no aspeto defensivo que o Benfica mais peca — e o próprio Renato —, como se viu pela passividade nos golos do FC Porto, e Rui Vitória terá de manter as linhas da equipa muito juntas se pretender anular os movimentos interiores dos alas do Sporting.

Na cabeça de Jesus estará o jogo da primeira volta, que o Sporting ganhou ao fazer uma pressão brutal na saída de jogo do Benfica (que ainda tinha Almeida no meio e Guedes e Jiménez na frente). É que Jesus é mestre (não só da tática) nos jogos ‘grandes’: no Benfica só perdeu uma vez com o Sporting e nove com o FC Porto, em 35 jogos. Já Rui Vitória, em cinco jogos contra Sporting e FC Porto, esta época, leva cinco derrotas. Tem a certeza que os jogos com os ‘grandes’ não são assim tão decisivos?