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O treinador desbocado que repreende Wenger, avisa Guardiola e estima Mourinho

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Raymond Verheijen foi adjunto de Guus Hiddink na seleção russa, no Euro 2008 (e, no Mundial 2002, na Coreia do Sul)

DR

Raymond Verheijen não é um nome reconhecido pelos adeptos, mas este treinador holandês especialista na formação de outros treinadores esteve em todos os mundiais e europeus desde 2000, com a Holanda, com a Coreia do Sul, com a Rússia e com a Argentina. Esta semana esteve em Portugal a dar um curso e falou com o Expresso

“Está na hora.” Raymond Verheijen estava à conversa com o Expresso na meia hora de almoço do curso que lecionou segunda-feira, no Caixa Futebol Campus, no Seixal, quando se levantou subitamente da mesa, sem olhar para trás. Eram 14h59 e a aula recomeçava às 15h. Um formador mais relaxado provavelmente chegaria atrasado alguns minutos, enquanto terminava a conversa de forma menos brusca. Verheijen não. A razão é simples: porque, tal como explicou logo no início do curso, nunca faz o contrário daquilo que pede aos outros - seja aos treinadores/alunos, seja aos jogadores de um clube ou seleção.

No balneário (ou na sala de aula) de Verheijen, há um conjunto de regras a servir de referência para todos (como chegar a horas) e a comunicação, a partir daí, é sempre clara e simples. “Estou aqui para melhorar a vossa formação e não para ser vosso amigo”, explica. Depois, começa a embaraçá-los. “Um piloto de um avião de qualquer parte do mundo tem sempre a mesma comunicação com um controlador aéreo. Não há espaço para subjetividade e invenções para se referir a um Boeing ou à aterragem, porque estão em causa vidas de pessoas. Agora imaginemos que vocês, treinadores, são os pilotos e os controladores aéreos são os vossos jogadores. A vossa comunicação é sempre bem entendida? Ou seja, tinham confiança suficiente para entrar neste avião?”

As respostas hesitantes que se seguiram deixaram Verheijen tirar uma conclusão simples: “Vocês são uma merda”. Assim mesmo. É que a confusão na comunicação é um dos maiores problemas do futebol, explicou o treinador holandês ao Expresso. “No futebol há demasiadas pessoas a complicar as coisas desnecessariamente com supostas opiniões, especialmente pessoas que vêm de fora do futebol e não o compreendem verdadeiramente, mas trabalham nele, muitas vezes utilizando termos técnicos que em nada se relacionam com o futebol. O que acontece então? Há uma poluição muito grande na linguagem futebolística e uma série de exercícios que nada têm a ver com futebol, sem bola. Por isso, o futebol precisa de voltar às bases iniciais, manter as coisas simples como elas são. Esta é a mensagem mais importante.”

CIENTISTA Verheijen conduziu um estudo que comparava o tempo dos sprints dos jogadores em três situações: sozinhos; com um colega ao lado mas sem bola; e em disputa direta com um colega por uma bola que vai a fugir. Todos os jogadores eram muito mais rápidos na última situação

CIENTISTA Verheijen conduziu um estudo que comparava o tempo dos sprints dos jogadores em três situações: sozinhos; com um colega ao lado mas sem bola; e em disputa direta com um colega por uma bola que vai a fugir. Todos os jogadores eram muito mais rápidos na última situação

d.r.

Verheijen vai passando a mesma mensagem desde 2010, quando criou a World Football Academy e começou a dar cursos por todo o mundo, baseados na sua experiência e nas dezenas de estudos científicos que efetuou ao longo dos anos. Antes, já tinha sido formador da federação holandesa, onde entrou em 1998, com apenas 25 anos - uma lesão no joelho fê-lo desistir da carreira de jogador e passar para a de treinador logo aos 18 anos -, e ensinou, entre outros, Ruud Gullit, Frank Rijkaard e Ronald Koeman.

Mas Verheijen não se limitou à teoria - pelo contrário. Toda a teoria que profere - ele chama-lhe “filosofia” - é baseada em ações práticas do jogo, que ele foi percebendo cada vez melhor ao fazer parte das equipas técnicas de Frank Rijkaard (na seleção da Holanda), de Dick Advocaat (Holanda, Rússia e Coreia do Sul), de Guus Hiddink (Rússia e Coreia do Sul) e de Gary Speed (País de Gales), para além de ter trabalhado no Feyenoord e no Manchester City.

“Tanto faz se é uma menina de 8 anos na Índia ou um profissional de 26 anos em Portugal: as ações no futebol são sempre as mesmas. São uma interação entre o nosso corpo e o que nos rodeia. No futebol, um passe é uma interação entre o jogador, a bola, o colega e o adversário. Se for só um jogador e uma bola, sem o resto, não é um passe. É só um movimento de uma perna a bater numa bola. Isto não é futebol. Porque se fazemos exercícios de futebol sem adversários então não estamos a treinar futebol, estamos a treinar ginástica.”

A palavra de ordem de Verheijen é “simplificar”, algo que é difícil de conseguir quando há tanta gente a dar opiniões sobre algo que não domina, diz. O treinador holandês utiliza como exemplo os preparadores físicos: “Se o treinador de futebol treina a tática e a técnica, por que razão tem de vir o preparador físico que não sabe nada de futebol treinar o físico? Vêm falar de aeróbio e anaeróbio, e força e velocidade... No futebol, o que interessa é que os jogadores consigam fazer muitas ações explosivas por minuto, durante 90 minutos. Andar a correr à volta do campo ou sem uma bola não serve para nada”.

ESCRITOR O livro “Mais simples do que isto?”, lançado segunda-feira em Portugal, detalha as experiências de Verheijen pelos clubes e seleções por onde passou, incluindo as situações menos profissionais: jogadores holandeses a fugirem do hotel a meio da noite no Euro 2000 e russos a beberem vodka no Euro 2008

ESCRITOR O livro “Mais simples do que isto?”, lançado segunda-feira em Portugal, detalha as experiências de Verheijen pelos clubes e seleções por onde passou, incluindo as situações menos profissionais: jogadores holandeses a fugirem do hotel a meio da noite no Euro 2000 e russos a beberem vodka no Euro 2008

d.r.

Verheijen não só é treinador e formador, como é especialista na condição física dos jogadores, porque é especialista em periodização, “teoria que planeia as atividades da equipa de forma a que todos os jogadores consigam recuperar na totalidade entre cada uma das atividades que têm, de modo a que não acumulem fadiga, que depois origina as lesões”.

No Twitter, @raymondverheije critica frequentemente vários treinadores de topo (Arsène Wenger, David Moyes e Roy Hodgson, por exemplo) pelo número absurdo de lesões que provocam nas suas equipas, dizendo que é uma loucura, por exemplo, treinar duas vezes por dia. “Mourinho é um dos poucos bons exemplos, porque entende perfeitamente a periodização. Mas a maioria dos treinadores não entende os princípios e acha que tem de treinar muitas vezes e acaba por lesionar os jogadores, por excesso de fadiga. O que faço no Twitter é alertar as pessoas, usando os maus exemplos para explicar os princípios da periodização. Não vale a pena treinar quem já tem fadiga. As pessoas dizem que quero chamar a atenção, mas a mim não me interessa minimamente o Wenger ou o Klopp. Uso-os como exemplos práticos para mostrar em que é que a periodização poderia ajudar”, explica.

“Por exemplo, Guardiola irá ter muitos problemas na Liga inglesa. Porque ele é muito exigente, com treinos muito intensos, o que quer dizer que os jogadores vão desenvolver fadiga nos treinos e precisam de tempo para recuperar. Só que na Premier League às vezes só há dois dias de recuperação entre jogos, tempo que não permite a recuperação completa. Ou seja, é um grande risco. Já o vês no Bayern de Munique: antes de Guardiola, a equipa tinha o mais baixo registo de lesões da Europa e agora têm muitíssimo mais lesões.”

A questão é que, quando os jogadores não se lesionam, um treinador consegue estar sempre a jogar com a equipa mais forte que tem. “E, no futebol, quando a equipa joga mais vezes com os melhores jogadores que tem, está mais perto das vitórias.” Simples.