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O azar de Peseiro, a aselhice da estrutura

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GUIDO KIRCHNER / EPA

FC Porto perde na Alemanha por 2-0. Os castigos de Maxi e Danilo, a lesão de Marcano, as atitudes de Maicon, pouco talento e um plantel desequilibrado - as ilações do jogo

Há coisas que não se conseguem explicar, como o azar e a pouca sorte, palavrinhas que José Peseiro sabe de cor e salteado, porque lhas lembramos sempre que aquela época no Sporting vem à baila - normalmente, recordamos-lhe isso quando perde. São estigmas, e os estigmas são mais difíceis de arrancar da pele do que uma bola de futebol do corpo de Messi. Ou então não.

Ou então, talvez haja coisas que não se conseguem explicar, porque não é suposto explicá-las. Talvez haja mesmo tipos que tenham azar e pouca sorte. Talvez José Peseiro, que sabe essas duas palavrinhas de cor e salteado, seja um deles, e talvez nem precise que lhas recordemos, porque está consciente que anda, pé-frio ante pé-frio, sobre uma camada de gelo fininha e quebradiça. Talvez os castigos europeus de Danilo e Maxi Pereira, a cobardia de Maicon e a lesão de Marcano, que o deixaram sem opções em Dortmund, se apresentem como os últimos exemplos de um homem amaldiçoado.

Este foi parte do onze titular: Varela (apenas 10 jogos a titular, sempre a extremo) a defesa direito, Layún (rei das assistências) a central, Martins Indi ao lado dele, o anjinho José Angel à esquerda, Sérgio Oliveira (sem ritmo) no meio campo. Não se podia esperar muito; quanto muito, podia esperar-se uma derrota magra, ligeira, por 1-0 ou 2-1, à qual se pudesse dar a volta na 2.ª mão.

MONIKA SKOLIMOWSKA / EPA

O Dortmund, enfim, não era uma equipazinha, e tinha Kagawa, Nyri Sahin, Aubameyang e Mkhitaryan, que jogam bem mais simples do que os nomes deles fazem supor: em velocidade e ao primeiro toque. Para o Porto de Peseiro, um treinador que gosta da vertigem e para quem defender nunca é uma boa opção, este era um contexto que contrariava a sua própria natureza. E quando alguém é obrigado a ser o que não é (Peseiro, Varela e Layún), pode correr tudo mal.

E começou logo a correr mal, com Pisczek a marcar um golo na recarga a uma defesa de Casillas, mas não correu logo tudo mal. O FC Porto, aos bocadinhos, recuperou dos tremeliques e lá foi pondo os pés no jogo, sobretudo a partir dos 25 minutos, quando o meio-campo acertou nas marcações e não deixou aquela defesa de remendos a abrir buracos. O Dortmund dos apelidos esquisitos teve outras duas ocasiões além do golo; o FC Porto, que demorou até conseguir ligar sectores, fez o primeiro remate ao minuto 33'. 1-0 ao intervalo. Nada mau, pensámos nós. Nada mau, terá pensado Peseiro, que para se precaver tirou Brahimi e pôs André André, uma substituição que o argelino não entendeu apesar das justificações do treinador.

INA FASSBENDER / Reuters

Os portistas, que já tinham pouca criatividade, perderam-na toda com a saída de Brahimi. Sem ninguém que lhes impusesse respeito, os alemães começaram a apertar e chegou o 2-0, através de Reus (71'). A partir daí o tabuleiro do jogo empinou-se e o encontro inquinou para os portistas - a única oportunidade de golo da formação portuguesa aconteceu ao minuto 91', já depois de Casillas ter feito uma grande defesa e de ter visto outra bola a bater-lhe nos ferros.

A inexperiência e a inépcia e a inércia e a incapacidade dos que estiveram em campo deixaram à vista de todos o desequilíbrio de um plantel que nem no mercado de inverno foi corrigido. Aí, não se pode falar em azar de Peseiro, mas na aselhice da estrutura.

INA FASSBENDER / Reuters