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Duarte Gomes. “Se acham que um almoço nos influencia, têm-nos em má conta”

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O ex-árbitro completou mais de 400 jogos desde que passou a ser árbitro de primeira categoria, em 1997

Nuno Botelho

O árbitro Duarte Gomes decidiu acabar a carreira, aos 43 anos, e falou com o Expresso sobre críticas, erros, ameaças e... vouchers

Mariana Cabral

Mariana Cabral

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Jornalista

Nuno Botelho

Nuno Botelho

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Fotojornalista

Quando um jogador completa 25 anos de carreira, o mais provável é arrumar as botas. Com um árbitro — ou melhor, “um jogador falhado”, graceja Duarte Gomes —, o processo é semelhante, especialmente quando há problemas físicos. Depois de Pedro Proença e Olegário Benquerença, o futebol português perde outro dos seus árbitros mais experientes.

Porquê abandonar agora? Podia esperar pelo final da época.
Podia, mas não era a mesma coisa [risos]. Tive um conjunto de lesões demasiado penalizante para o trabalho que um árbitro tem de fazer. Uma vez que sentia que já não estava a ter as condições que considero mínimas para estar em alta competição, achei que já não estaria a servir a arbitragem mas apenas a servir-me dela, e isso nunca foi o meu objetivo.

Seria aquela altura na carreira de um jogador em que ia para os Estados Unidos, por exemplo.
Para um árbitro não. Esta realidade deste condicionamento físico tanto vale aqui como em qualquer outro sítio. Outro tipo de apelos não me faria mudar os meus princípios. Acho que o futebol é demasiado belo para ser servido por pessoas que não estão na sua plenitude, quer física quer emocional. E com 25 anos de carreira, 19 ao mais alto nível na I Liga, não queria beliscar de alguma forma a imagem que procurei construir, de entrega total. É que os condicionalismos físicos também afetam o estado de espírito. E se há coisa que um árbitro tem de ter num jogo é lucidez. Estar num jogo mais preocupado com as dores do que propriamente com o jogo, não seria justo nem para mim nem para ninguém.

Aconteceu-lhe isso esta época?
Aconteceu. As lesões têm sido um parceiro de viagem ao longo dos últimos anos. Não só são os jogadores que se lesionam. Tive de ouvir a mensagem que o meu corpo me estava a passar e parar.

Já era árbitro profissional, portanto não tinha outro trabalho.
Exato. Fiz uma opção na altura, deixei a minha atividade de bancário para me dedicar em exclusivo à arbitragem.

E agora?
Agora vou dedicar-me a outras coisas. Claro que a paragem na arbitragem não é aquela que é planeada idealmente, que é um fim de carreira com um jogo especial, com a pompa e circunstância da despedida, mas tenho uma atividade pessoal à qual me vou dedicando e que me vai preenchendo nesta fase de vazio no pós fim de carreira. Tenho um pequeno negócio a iniciar-se, na área do alojamento local. Ainda é um projeto embrionário mas acho que terá pernas para andar.

Então um árbitro quando acaba a carreira tem um bom pé de meia.
Um árbitro terá o mesmo pé de meia que um jogador ou qualquer outra pessoa que tenha um ordenado possa ter, desde que o tenha guardado ou investido bem durante a carreira. Lamentavelmente, não há uma saída gradual de um profissional de arbitragem para o desemprego ou para a vida comum, fora do desporto. Não há nenhuma almofada transitória nem nenhum tipo de saída mais gradual para a sua reinserção. Isso deve ser algo que deve ser pensado com outros olhos no futuro, porque, no meu caso, é uma dedicação de 25 anos de carreira, e não pode haver um vazio tão grande a todos os níveis quando a carreira termina abruptamente.

Pinto da Costa disse que o Duarte abandonava porque ia ser despromovido.
Não. Compreendo que a saída de um árbitro gera sempre alguns comentários mas cada qual sabe o que diz e é responsável pelo que diz.

Mas ia ser despromovido?
Não. Acho que a equiparação que foi feita não tinha a ver comigo mas sim com uma crítica indireta à estrutura da arbitragem. Como lhe digo, opinar faz parte do futebol, mas desvalorizo isso por completo.

Como é que se explica a um adepto que numa época um árbitro está a apitar a final da Taça de Portugal e no seguinte é despromovido, como aconteceu a Marco Ferreira?
Preferia não pessoalizar, porque não conheço o trajeto do Marco Ferreira, cada um sabe das suas classificações. O que poderia explicar aos adeptos é que, num caso abstrato, um árbitro pode fazer uma grande época num ano e fazer uma menos feliz no ano seguinte. Tal como acontece com os treinadores, que ora são elevados ao máximo quando levam a equipa às competições europeias, ora são despedidos a meio da época quando a equipa desce de rendimento. Aconteceu recentemente com um treinador português no Valência. E acontece também a jogadores que num ano têm muitos golos marcados e no ano seguinte desaparecem, como foi o caso do Falcão, por exemplo. Este tipo de quebra de rendimento muitas vezes tem uma consequência e portanto as coisas muitas vezes não são tão lineares como parecem.

Marco Ferreira disse que o presidente do Conselho de Arbitragem o tinha pressionado para favorecer o Benfica. Aconteceu alguma coisa do género consigo?
Nunca.

Vítor Pereira ligava-lhe?
O Vítor Pereira, enquanto meu presidente, ligou-me muitas vezes, em muitos jogos de muitas equipas, sempre com a mesma mensagem: "boa sorte, bom jogo, vai tranquilo porque nós contamos contigo". É o papel pedagógico que um presidente deve ter junto dos seus árbitros.

Nuno Botelho

Gostaria de ser presidente do Conselho de Arbitragem?
Não.

Não no imediato, daqui a uns anos.
Repare, saí da arbitragem na semana passada. Ainda estou de calções e equipado, e só não tenho o apito na boca porque estou a falar consigo. Ou seja, ainda me sinto árbitro. Depois de 25 anos de um quotidiano tremendo, é difícil. No fundo estou a reaprender a ser gente, sem ser árbitro. Portanto se há coisa que neste momento não tenho, sou-lhe muito honesto, é qualquer ambição numa estrutura dirigente. Trocar o equipamento pelo fato e pela gravata não está nem pouco mais ou menos nos meus horizontes. Por outro lado, como já lhe disse, com 25 anos de experiência, sinto que posso ser útil para a arbitragem e para os jovens árbitros, mas no futuro, quando já estiver reenquadrado na minha posição de gente normal [risos].

Isso poderia passar por uma ligação na Liga, já que era muito próximo de Pedro Proença?
Era e sou ligado ao Pedro enquanto amigo, não sou ligado ao Pedro enquanto presidente. O Pedro tem um cargo que está a desempenhar de forma exemplar.

Crê que a atuação dele tem sido positiva?
Não tenho dúvidas nenhumas. Acho que depois do início de mandato em que foi alvo de tantas críticas, começar a apresentar trabalho é verdadeiramente uma chapada de luva branca para muita gente que o criticou e que agora está silenciada. É que isto é uma maratona de quatro anos, não é uma corrida por etapas. Temos muito este problema do imediatismo. Se não há resultados visíveis, as críticas chovem sem se dar voz a quem está a comandar o barco e esse barco foi dado a comandar democraticamente.Agora que os resultados começam a aparecer, que a Liga terá um balanço, pela primeira vez em muitos anos, com lucro, agora que aparecem patrocinadores para a II Liga, agora que aparece uma centralização dos direitos de televisão para a II Liga, já não vejo tantos detratores e é bom sinal, é sinal que o trabalho e o silêncio compensam mais do que o ruído.

Mas a centralização dos direitos televisivos na I Liga não aconteceu e na II também não se tratam de todos os clubes.
Certo, mas os clubes fizeram uma escolha. A bandeira de uma liga, como da federação, está sempre sujeita aos seus associados, não é? Se uma pessoa diz numa reunião que é a favor, mas depois toma a opção de fazer um negócio por conta própria, não há muito a fazer sobre isso. O que interessa é que o futebol português possa ganhar com estes negócios e parece-me - e aqui uma visão não de árbitro mas apenas de adepto - que o futebol português está no bom caminho, porque realmente os valores postos em cima da mesa são muito elevados, quer para a I liga, para quem fez os negócios individualmente, como para a II Liga, na centralização. Quer pelos patrocínios que estão a aparecer. Isto só pode beneficiar o futebol. A forma de chegar a isto talvez não tenha sido a mais homogénea para todos, mas o resultado final parece-me bom.

Fez falta uma intervenção do presidente da Liga numa altura tão crispada como esta em relação à arbitragem?
Sabe que o presidente da Liga é presidente da Liga, não é? Ou seja, não é presidente da arbitragem. Acho que compete é à estrutura de arbitragem falar de arbitragem. O presidente da Liga realmente foi árbitro, mas já não é. E têm uma função que é o desenvolvimento dos clubes, dos seus associados, e está a cumprir esse papel. Sabe que o ruído é cíclico, embora tenha fontes diferentes, em função dos resultados desportivos. Estar a comentar o ruído todos os anos era redundante. Muitas vezes dilui-se pela força do silêncio.

Não nota agora maior crispação?
O que noto é maior protagonismo e mediatismo de certas pessoas. O ruído tem sempre o mesmo fundamento, que são as decisões dos árbitros. Existe sempre o elemento ligado ao impacto mediático de quem fala, porque os erros dos árbitros em jogos da II Liga ou dos distritais são exatamente os mesmos que em jogos de I Liga. O problema é a dimensão que depois ganham em termos mediáticos.

Compreende a intervenção do árbitro Cosme Machado a reconhecer o erro que teve no Sporting-Académica?
Compreendo a vontade de falar, também já o fiz anteriormente. Por um lado as pessoas acham que a lei da rolha impera na arbitragem, que isto é um sociedade secreta e fechada e que os árbitros deviam falar e pronunciar-se sobre os seus erros, mas quando eles o fazem são logo apontados: “Olha este que fala muito mas arbitra pouco”. Não há como satisfazer um adepto irritado, magoado e apaixonado pelo seu clube. Muitas vezes nós fazemos um reconhecimento de um erro e as pessoas dizem que nós pedimos desculpa, mas são coisas completamente diferentes. Os árbitros têm um segundo para decidir, por isso o erro faz parte do jogo e deixa-nos tristes, e muito mais a nós do que a qualquer outro interveniente. Também temos família, também temos amigos, também moramos num sítio com vizinhos e não gostamos de nos sentir pouco orgulhosos do nosso trabalho quando erramos. Levei tudo com humor, porque é preciso ter encaixe. Não podia ser uma prima-dona. Via os meus jogos na televisão e ficava muitas vezes espantado: como é possível errar tanto?

Seria útil haver também uma flash interview para os árbitros no final dos jogos?
Não, porque o árbitro seria sempre criticado, porque iria invariavelmente dizer o mesmo: errei, não vi. À primeira ou à segunda vez ia ser engraçado mas depois iria ser redundante. Ninguém ganha com isso. O Pierluigi Collina dizia uma coisa muito interessante sobre isto, que era “a melhor entrevista é aquela que não se dá”. O árbitro tem um ângulo e vê uma vez. E pode ter a lucidez afetada pelo cansaço, pela transpiração, por ter corpos à frente dele, por ter olhado para o assistente, por estar a receber uma informação naquele momento, por ter sido chamado por um jogador, por ter ouvido uma pancada... Pode desfocar minimamente e já não vê. Compreendo que o adepto comum se esqueça disto, mas quem está no futebol tem a perceção que o jogo é muito imediato. Citando uma vez mais o Collina, nós perdemos sempre com a televisão. É um jogo que não podemos ganhar. Não temos 5% dos meios que tem a televisão. As imagens televisivas expõem-nos ao milímetro e ao milésimo de segundo, ao frame de um slow motion.

Normalmente todos os anos há uma formação prática de arbitragem para jornalistas e comentadores. Seria útil fazer essa formação para dirigentes também?
Claro que sim. Para dirigentes e até para adeptos. Tudo o que é formação é fundamental, porque muitas vezes as pessoas têm falta de conhecimento das leis de jogo.

Lembro-me de estar no papel de árbitra numa dessas formações e de me sentir desorientada.
É difícil, não é? [risos] É a primeira ideia que se tem, normalmente. E agora é ter isso e ainda acrescentar em cima 60 mil pessoas a ver, com barulho, com flashes, com câmaras, com pressão... Sabemos que um erro pode interferir no campeonato, numa despromoção, num futuro de um treinador, num contrato de um jogador. Acho que a ideia de uma formação seria ótima, mas não sei se seria muito do interesse dos dirigentes, que estão mais habituados ao trabalho de gestão, de fato e gravata.

PAULO CUNHA/Getty

O Duarte sempre foi dos árbitros que mais falou nas redes sociais. Pareceu-lhe útil ter esse contacto mais próximo com os adeptos?
Temos de ver que as redes sociais são uma inevitabilidade deste século, por isso quem não acompanhar estagna no tempo. Se bem utilizadas - e repito, se bem utilizadas - podem humanizar a figura de um árbitro que até então era visto como o corrupto, o ladrão e o malandro. Essa humanização facilita a identificação com as pessoas e aumenta o respeito. Não estou nada arrependido de ter tido uma postura de maior abertura a nível das redes sociais, embora tenha sempre salvaguardado as questões de foro mais privado e de tecnicidade desportiva, mas em termos de esclarecimento, de dar às pessoas uma perspetiva do que é a arbitragem por dentro... Quanto mais as pessoas se familiarizarem com a arbitragem, mais nos compreenderão.

Os adeptos conhecem os jogadores da própria equipa, adversários, treinadores, dirigentes, mas sabem pouco sobre os árbitros.
É isso que faz com que se criem teorias de conspiração, por um aparente estado secreto que, no fundo, não existe. Estamos em pleno século XXI, o futebol de há 20 anos não tem nada a ver com o de agora, há transmissões televisivas permanentes, há um escrutínio tremendo, há programas diários em vários canais, há três jornais diários desportivos em Portugal - deve ser o único país onde isto acontece. Temos de nos adaptar a esta nova realidade para não sermos alvo de suspeitas e burburinhos. Acho que essa abertura, apesar de não muito bem vista ainda pela UEFA e pela FIFA deve cada vez mais ser, de forma gradual e pedagógica, uma realidade.

Lembra-se do seu primeiro jogo como árbitro?
Era estagiário, foi no campo da Boa Hora. Recorda-se do António Marçal? Era um árbitro de 1ª divisão, na altura internacional, e ele foi o chefe da equipa nesse jogo, eu era o fiscal de linha - na altura chamava-se fiscal de linha, agora é que já não. Foi no princípio da época de 91/92 e foi dos momentos mais gratos da minha vida. Ele tinha uma carrinha branca, de trabalho e deu-me boleia para o jogo, foi absolutamente fantástico. Tinha 18 anos, ainda era uma criança. Recordo-me bem de ter vivido esse jogo com uma intensidade emocional tremenda, desde o dia em que recebi a nomeação, uns quatro dias antes - aquele ritual de preparar o jogo, fazer o saco, pôr as botas a brilhar. Ao longo dos anos nunca perdi a vontade de ir ao correio, naquela altura, e ao email, hoje em dia, saber que jogo é que me tinham dado e começar imediatamente a prepará-lo com os meus colegas. Perceber quem eram os jogadores, os treinadores, o estádio, o público, a viagem... tudo isso sempre me deu um grande gozo. É o tal quotidiano de que falava há pouco e que agora desapareceu de um momento para o outro. Agora não sei, dedico-me à pesca ou às damas [risos].

O que é que lhe deu para ser árbitro?
Foi uma enormíssima coincidência. Vi um panfleto caído no chão com a pergunta "Queres ser árbitro? Inscrição gratuita" E para quem tinha 18 anos "gratuita" é sempre uma palavra chave [risos]. Na altura estava a começar o curso de Direito na Clássica e achei piada. Era um curso, salvo erro, à quarta-feira à noite e ao sábado de manhã, portanto era compatível com os estudos. A ideia era apenas tirar o curso, mas depois há aulas práticas, pega-se na bandeirola, pega-se no apito e a coisa começa a ficar cá dentro.

Antes também mandava bocas aos árbitros nos jogos?
Sim, lembro-me de ser malandreco [risos]. É importante, enquanto árbitro, lembrar-me do que era ser adepto, mas há limites que não podem ser ultrapassados.

Um árbitro é um jogador falhado?
Eu sou [risos]. Era muito fraquinho. Joguei quatro anos no Nacional da Madeira - cresci no Funchal -, mas depois deixei de jogar porque realmente não tinha jeito. Mas sempre gostei muito de futebol, tanto a tentar jogá-lo como a ver jogos. Depois percebi que a arbitragem era também uma forma de estar no futebol, embora de uma forma ligeiramente diferente. Creio que um jogador pode vir a ser um grande árbitro, porque a vivência do jogo é fundamental para esta atividade.

Qual o pior momento que passou em campo?
Houve momentos em que temi pela minha vida. O mais marcante foi na minha época de promoção para a 3ª divisão nacional, quando fui agredido num jogo por um jogador sénior. Tive de sair no carro da polícia, cercaram o balneário, tive de ficar retido... Tinha 21 anos e lembro-me que nessa noite, já em casa, ponderei duas hipóteses: ou deixava a arbitragem, porque não estava para aturar aquilo - porque era uma paixão de amor à camisola, sacrificava os meus fins de semana, o dinheiro era muito pouco e pagavam com atraso, tínhamos de ser nós a arranjar os equipamentos, não saíamos com namorada e amigos porque tínhamos vários jogos ao fim de semana, chovesse ou fizesse sol -, ou então continuava e nunca mais deixava.

Teve mais momentos em que temesse pela vida?
Tive a felicidade de, mesmo fora do campo, nunca ter tido abordagens violentas, apesar de alguns momentos desconfortáveis. Recebi mensagens, e-mails, toques de campainha a meio da noite, carro riscado várias vezes... As bocas eram habituais, mas era pior quando estava com a família. Ouvi comentários muito agressivos, olhos nos olhos, até quando estava com a minha filha de 3 anos ao colo. Ofensas tremendas que prefiro não reproduzir, porque é uma linguagem na qual não me revejo. Mas muito baixo nível. “Fazia-te isto se não estivesses com ela, mas também podias levar tu e ela.” A cegueira num momento assim é total. Por outro lado, tive abordagens muito simpáticas, de pedidos de esclarecimento e incentivo, porventura pelos trajetos mais recentes do Olegário [Benquerença] e do Pedro [Proença], que terão deixado todos com algum orgulho pelos sucessos europeus. Se calhar, as pessoas agora veem um árbitro e chamam-lhe incompetente, mas já não lhe chamam desonesto. Eu posso ser incompetente e mau árbitro, mas desonesto ou corrupto não sou.

Foi abordado para influenciar algum jogo?
Tenho o prazer de dizer que nunca fui abordado para isso. Não sei se pelo modo como me posicionei perante as pessoas, talvez retraindo comportamentos indevidos.

Recebeu vouchers do Benfica?
Ao longo da minha carreira, recebi mais de trezentas camisolas de clubes - já as contei -, incluindo de Benfica, Porto e Sporting. E nunca distingui esse tipo de ofertas, em nenhum clube, nem nunca levei essas lembranças como algo que fosse uma tentativa de me influenciar de algum modo no jogo. Valorizei apenas como gestos simpáticos, que foram para mim, para os meus colegas e muitas vezes também para os adversários da equipa da casa. Também dei muitas camisolas minhas a jogadoras que mas pediram, tal como cartões. Recebi uma braçadeira de capitão do Helton que guardo com muito carinho, porque foi um gesto pessoal e é uma pessoa de grande caráter, que nunca teve qualquer palavra de má educação. Também recebi camisolas com o meu nome na parte de trás, relógios de valor insignificante com o símbolo do clube, galhardetes, toalhas... Se acham que uma camisola ou um almoço nos influenciam, têm-nos em muito má conta. Não nos ofendam, por favor.

Quem é que quer a camisola de um árbitro?
É giro, vários jogadores querem. Sabe que os árbitros criam relações de empatia muito grandes com os jogadores, por vezes até de amizade com muitos deles. O que obviamente não interfere no campo, até porque já expulsei alguns amigos.

Quem?
O Ricardo Sá Pinto, o Carlos Martins, o Hélio, o Fangueiro... muitos deles. O Helton, o Luisão, o Adrien... No jogo estamos a ter uma vivência enquanto profissionais, a desempenhar as nossas funções. Há uma linha de respeito bem definida. Há uma coisa que as pessoas têm de perceber de uma vez por todas, porque isto é uma questão de cultura desportiva: se um treinador pode ter um clube do coração e treinar outro e ser profissional, se um jogador faz a formação toda num clube e depois vai jogar pelo rival e ser profissional, por que é que um árbitro não pode ser simpatizante de um clube e arbitrar? Cada vez que um árbitro diz que tem um clube, das duas uma: se prejudica, é porque quer mostrar que é sério e apita contra, se beneficia, é porque é do clube. Nunca se dá o benefício da dúvida a uma pessoa que só quer ser profissional.

O Proença quando abandonou disse que era "heterossexual, de esquerda e do Benfica". E o Duarte...
[risos] Heterossexual, as minhas preferências partidárias dependem e sou simpatizante do Benfica. Acho que não há nenhum benefício em assumi-lo publicamente, porque as pessoas não estão preparadas culturalmente para respeitar um árbitro que tenha a frontalidade de assumir o seu clube. Por isso os meus colegas não o fazem, porque as represálias e as más interpretações que isso origina são terríveis para a sua carreira. Por defesa, mais vale não dizer nada. Mas as pessoas têm de se habituar que os árbitros também são pessoas. E assim como elas têm os seus gostos, desde crianças, os árbitros também têm. Mas dentro de campo isso não interessa. Quando eu arbitro o Benfica com o Sporting para mim é só o vermelho contra o verde, ou o azul contra o amarelo, e por aí fora, porque o que eu quero mesmo é que o jogo me corra bem a mim.

O melhor jogo onde esteve foi a final do Euro, na equipa de Proença? Ou é melhor ser o árbitro principal?
Quando estamos numa equipa queremos tanto o sucesso da equipa que vivemos o jogo com a mesma intensidade, a função é quase irrelevante. Obviamente que as finais nas quais tive a felicidade de estar com o Pedro [Proença] foram marcantes, mas também foram as meias finais da Champions, jogos de apuramento para o Europeu, final da Taça de Portugal, final da Supertaça... Não consigo dizer só um só. Tenho um trajeto muito bonito e tenho muito orgulho disso. Não é demagogia: eu sempre me considerei um árbitro mediano - isto é verdade. Independentemente do percurso que fiz e do qual me orgulho, a verdade é que acertei muitas vezes mas também errei muitas vezes na minha carreira.

Lembra-se do penálti sobre o Mário Jardel no Benfica-Sporting?

Lembro-me perfeitamente. E se não me lembro, há sempre pessoas que fazem questão de mo relembrar [risos]. Até lhe digo mais: 15 de dezembro de 2001. Portanto veja bem como me lembro. Sabe que há jogos que marcam uma carreira. O penálti do Jardel foi um erro entre muitos que cometi. O problema são as consequências do erro e não o erro em si. Cometi erros muito maiores contra clubes que não tiveram voz para os reclamar, na 2ª divisão, por exemplo.

Apanhou algum jogador mais mal educado?
Não. Devo dizer que os jogadores são das melhores pessoas que podemos apanhar no futebol. Eles estão com uma pressão tremenda, em choque com o adversário, a querer ganhar enquanto equipa e a querer manter o lugar individualmente, e muitas vezes têm de libertar uma frustração tremenda. E saber gerir essa frustração também é ser árbitro, porque não basta ter as leis do jogo debaixo do braço e apitar tudo. É preciso traçar a linha entre o limite máximo da frustração e o início da má educação. Normalmente conseguimos perceber as reações dos jogadores.

Mas se um jogador o mandar para um certo sítio...
É expulso. Se me ofende, está a ser grosseiro, é injúria direta. Mas se for um desabafo do género “bolas, f...” aí eu compreendo, porque é uma reação à jogada e é a linguagem do futebol.

Lembra-se de um encosto que levou de Belluschi, ex-Porto?
Também estive mal nesse lance, porque também dei esse encosto. Ou seja, não fui inteligente para evitar que isso acontecesse. Sabendo que ele estava num momento de frustração, devia ter dominado o momento com tranquilidade, em vez de ir ao contacto. Pus-me a jeito, por isso não tomei nenhuma decisão disciplinar mais grave, porque senti que também fui responsável. Hoje não faria o mesmo, teria evitado a situação.

É a favor das tecnologias na arbitragem? O vídeo, por exemplo.
Sim, sou a favor de tudo o que possa ajudar à decisão e à verdade desportiva.

A introdução dos árbitros de baliza que não pareceu ajudar muito.
Sabe porquê? Porque eles não exteriorizam nenhum decisão, não têm apito nem bandeirola, só falam. E falam muito e tomam muitas decisões, fazem um trabalho invisível de prevenção nas áreas, porque os jogadores sabem que estão a ser observados ali em cima. Polémica vamos ter sempre. O salero do jogo nunca desaparecerá, faz parte. Mas há limites, porque o ruído alavanca comportamentos inadequados. Por exemplo, mandaram-me mensagens a dizer que sabiam que a minha filha estava na creche tal: “Quando chegares lá a miúda já desapareceu”. Foi de tal forma que teve de estar um polícia na creche. Quando o futebol desperta emoções que chegam a este ponto, alguma coisa está mal.

[versão alargada de entrevista publicada na edição de 6 de fevereiro de 2016 do Expresso]