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Os bastidores da transparência da Segunda Circular

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FRANCISCO LEONG/ AFP/Getty Images

André Carrillo vai deixar o Sporting e já assinou pelo Benfica até 2021. Saiba como, quando e porquê

A dada altura neste artigo, o leitor sentir-se-á baralhado porque achará a informação confusa e difusa, mas é o que acontece quando há mais do que três partes envolvidas e no meio delas um negócio de milhões que se fez... e outros que deixaram de se poder fazer. O Expresso ouviu todos os lados na transferência de André Carrillo para o Benfica e esta é a história que deles se extrai.

Houve um tempo em que Elio Casareto, agente de Carrillo, e Bruno de Carvalho, presidente do Sporting, se deram bem. Aconteceu logo no início do mandato de Bruno de Carvalho: Casareto pediu ao diretor desportivo Augusto Inácio uma reunião com o presidente para que os três encontrassem uma solução para o jogador. Porquê? Porque o passe de Carrillo estava dividido entre Pini Zahavi, o agente israelita, o Alianza Lima, clube ao qual o futebolista fora comprado, e o Sporting. Casareto disse a Inácio que aquilo tinha tudo para correr mal dali a três anos, quando chegasse o momento de renovar contrato.

No dia em que Casareto se encontrou com Bruno de Carvalho, num jogo contra o Penafiel, ambos concordaram que o assunto tinha de ser resolvido, que o Sporting iria recomprar parte do passe de Carrillo. Só que o Carrillo de então, inconsequente e pouco disponível para defender, não era o Carrillo de Marco Silva e Jorge Jesus. E, por isso, o Sporting até chegou a pô-lo numa lista para emprestar ou vender, deixando correr o marfim a seu favor. Quando Casareto pediu ao Sporting que revisse o salário do jogador por causa do aumento da carga fiscal, o clube disse não.

Em vez disso, apresentou uma proposta de três anos pelo mesmo ordenado, €300 mil anuais líquidos, que Carrillo não aceitou. Passaram-se meses sem que o agente, o futebolista e a direção do clube voltassem a falar, e quando o fizeram, em abril de 2015, o Sporting propôs €1 milhão brutos; o empresário contrapôs, dizendo que tinha quem pagasse €1,5 milhões líquidos. E depois veio a Taça de Portugal, que o Sporting ganhou, e depois a Supertaça, que o Sporting também ganhou.

Carrillo foi importante nos dois jogos, e chegaram propostas a Casareto. O peruano começava a ficar bem cotado, e Bruno de Carvalho convocou uma reunião com Casareto para acordarem a renovação. Neste ponto, as versões divergem: uma delas garante que o Sporting apresentou um ordenado de €1,3 milhões líquidos, 80% através de uma offshore em Malta e os restantes 20% (5% dos direitos de imagem e 15% do contrato de trabalho) a serem pagos em Portugal; a outra diz que a ideia partiu do próprio Casareto. “Foi dada a Carrillo uma folha em branco para lá pôr o salário que queria”, assegura fonte de Alvalade.

As negociações ficaram congeladas, o Sporting foi eliminado da Champions pelo CSKA, o fecho do mercado estava ao virar da esquina, e lá fora sabia-se o que se passava em Portugal. Um emblema francês acenou com €10 milhões a Casareto, e Bruno de Carvalho ter-lhe-á respondido que não, que não era suficiente; e foi então que o agente sul-americano informou o Sporting de que o Leicester pagaria €12 milhões. Um bom preço, faltava perceber como se faria o pagamento, porque o passe de Carrillo era detido em grande parte por Pini Zahavi. E Zahavi não queria ficar a arder.

Quem é de quem?

O Expresso teve acesso a documentos relativos às negociações entre o Sporting e o Leicester, que decorreram entre os últimos dias de agosto e os dois primeiros de setembro. As condições pedidas pelos leões implicavam um pagamento de €15 milhões, 25% de uma futura transferência e uma cláusula antirrivais (Benfica, FC Porto e Braga). O Leicester respondeu com €12 milhões, 17,5% de uma futura transferência e a impossibilidade de ter uma cláusula antirrivais ao abrigo das leis britânicas. No meio desta troca de informações entre Sporting e Leicester, o clube inglês pergunta ao congénere português quem é a Leiston (empresa de Pini Zahavi).

“É uma entidade com quem tivemos negócios no passado mas que presentemente não tem direito a qualquer percentagem dos direitos económicos do jogador”, lê-se no texto da resposta. Mas Zahavi tinha direito a 45%, e o próprio Sporting reconhecera isso mesmo, 15 dias antes, num e-mail enviado à Leiston: “A Sporting SAD está disponível para aceitar a cláusula de 45% dos direitos económicos.”

Falhado o voo para Inglaterra, André Carrillo ficou em terra. E desterrado. Jorge Jesus ainda tentou fazer-lhe a cabeça durante um almoço, disse-lhe que devia ficar, que faria dele um futebolista melhor, mas o processo causara mal-estar de parte a parte. Em outubro, o Sporting instaura um processo disciplinar a Carrillo e envia-lhe uma nota de culpa de 200 páginas. Para o Sporting, era clarinho como água que o agente e o futebolista estavam a agir de má-fé com o clube de Alvalade; o próprio Jesus revelou a Bruno de Carvalho que, ainda no Benfica, Luís Filipe Vieira lhe confidenciara que o peruano iria parar à Luz a custo zero. O Expresso sabe que Carrillo já teria sido contactado pelo Benfica no tempo de Godinho Lopes e que, em outubro, Paulo Gonçalves e Vieira terão abordado o futebolista para perceber as suas condições.

Mas, até ver a Luz, houve acordos que morreram na praia, jatos privados, fundos de investimento, agentes, clubes turcos, italianos e espanhóis — e os três grandes de cá.

Houve um momento em que André Carrillo e Marat Izmailov coincidiram no Sporting. Formavam um par estranho — um miúdo peruano extrovertido e um russo tímido e envelhecido pelas lesões —, mas ficaram amigos para a vida. E no dia em que Carrillo viu a vida andar para trás, lembrou-se de Izmailov e do agente dele, Paulo Barbosa, o português que falava russo como os russos. Carrillo chegou a uma encruzilhada, sem saber para que lado se virar, e virou-se para Barbosa. Foi ao apartamento do empresário, na Estrela, e ambos falaram sobre o futuro, num momento de fragilidade em que o peruano sentiu que Casareto não lhe contava tudo. Casareto já conhecia Barbosa através de um intermediário que trabalhava com o português, portanto não estranhou quando este lhe trouxe novidades da Turquia. Do Fenerbahçe. A solução falhou, mas Barbosa não perdeu Carrillo de vista, nem mesmo quando o extremo se viu metido num negócio em Valência, com dedo de Zahavi e Jorge Mendes, ou com a Juventus, via Doyen, com direito a lugar num jato privado em Roma.

Mas, por uma razão ou por outra, nenhuma das opções agradou a toda a gente, até que o Atlético de Madrid bateu à porta. Carrillo, que deixou Lisboa e se refugiou em Madrid durante 27 dias, efetuou exames médicos, mas a suspensão da FIFA (a impedir contratações durante um ano) ainda não fora levantada e o plantel já tinha extracomunitários a mais. Carrillo nunca chegou a assinar e saiu de Madrid, sozinho, para se encontrar com Vieira em Lisboa. Na quarta-feira, 27 de janeiro, foram ambos fotografados à saída do prédio onde fica o escritório de Paulo Barbosa, e levantou-se a lebre que pôs o FC Porto no encalço. Na quinta-feira, as negociações intensificaram-se, e na madrugada de 29 de janeiro, Alexandre Pinto da Costa, filho do presidente, ligou à entourage de Carrillo. Eram três da manhã, mas já era tarde. Na manhã de sexta-feira, Pinto da Costa pôs tudo a nu: “Disseram-me que o Carrillo já assinou com o Benfica.” Não tinha assinado. Mas estava quase.