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杰克逊到中国 (Sim, o Jackson foi para a China)

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A China quer ser grande e começa a gastar à grande no futebol. Neste mercado de inverno, quatro das cinco contratações mais caras envolveram clubes chineses

“Thank you for the selfie, President Xi” 感谢能与您自拍,习主席

Xi Jinping aproveitou um buraco na agenda oficial na visita a Inglaterra para visitar as instalações do Manchester City. Ele sabia que o seu anfitrião iria tratar de tudo, mostrar-lhe as vistas e sobretudo dar-lhe a conhecer os craques da equipa. David Cameron não desapontou Xi Jinping e ambos juntaram-se a Kun Agüero numa selfie insólita e espontânea. Bom, aparentemente espontânea.

Dois meses depois, a China Media Capital e a Citic Capital pagaram 400 milhões de dólares por 13% da City Football Group – e a City Football Group, claro, é dona do Manchester City. E do New York City Football Club. A partir de então, a República Popular da China também passou a deter parte do Manchester City e do NYC FC, e deu outro passo rumo à dominação planetária do futebol.

Dito desta forma, o plano parece maquiavélico e refundido mas não podia ser mais claro. “O meu maior desejo para o futebol chinês é que os nossos clubes se possam transformar nos melhores do mundo”, revelou Xi Jinping.

Para a China, o futebol é mais do que um desporto; é política. Geopolítica. É estender e legitimar o poder e a influência através do pontapé na bola, tal como os árabes têm feito até aqui (Paris Saint-Germain por exemplo). O plano é simples: dentro de 24 anos, a China quer ser a casa de um Mundial e ganhar esse Mundial. É preciso investir para lá chegar.

Tony Rallis, um agente de jogadores FIFA australiano, deu uma entrevista na qual revelou o que lá viu quando lá esteve em trabalho: “Perceberam que precisam de um esforço enorme e concertado para formar jogadores capazes de ganhar um Mundial. Não é como contratar treinadores ou fazer crescer o campeonato. Vejam os jogadores que foram para lá no ano passado: Robinho, Demba Ba, Cahill, Paulinho, Asamoah Gyan. Está a crescer muito mais rápido do que muita gente tem reparado.”

Não é preciso ir tão atrás; basta ir até esta segunda-feira, dia de fecho do mercado de inverno. No top cinco das transferências mais caras, quatro envolvem clubes chineses: Jackson foi recambiado do Atlético de Madrid para o Evergrande, por €42 milhões, Ramires saiu do Chelsea para o JS Suning por €28 milhões; Elkeson foi vendido do Evergrande, da China, para o SIPG, da China, por €18,5 milhões. E não esqueçamos que Gervinho trocou a Roma pelo China Fortun, por €18 milhões. Guarín (ex-FC Porto) saiu do Inter para o Shenhua (€13 milhões) e Montero foi do Sporting para o Teda por €5 milhões.

O total dos gastos representa um pulo gigantesco em apenas um ano: €115,9 milhões gastos em janeiro de 2015, €201 milhões em janeiro de 206. Mas é assim que a China quer combater a ideia de uma liga corrompida por apostas ilegais - com estrelas ou quase estrelas internacionais que deem visibilidade e notoriedade à Super Liga, cujos direitos de transmissão foram comprados pela Li Ruibang por 1300 milhões de dólares (1190 milhões de euros), num contrato de cinco anos.

Mas há mais. Lá fora. Além do Manchester City, os chineses estão no Espanhol de Barcelona (a Rastar tem 56% do clube), no Atlético de Madrid (a Dalian Wanda detém 20%), no Sochaux (todo ele da Ledus) e no Slavia de Praga (a CEFC têm 60%). E, há dias, em Portugal, a Ledman anunciou um acordo de patrocínio e parceria com a II Liga que incluía a presença de jogadores e treinadores chineses a troco de dinheiro. Se não sabes como, importa o know how.

[Texto foi publicado no Expresso Diário de 2 de fevereiro de 2016]