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Vieirinha: “O Sérgio tem a mentalidade ganhadora que o Porto precisa”

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O Wolfsburg esteve em Lagos e a altura não podia ser melhor para falar com Vieirinha. Não só porque foi considerado o melhor lateral direito da liga alemã na época passada, mas porque domingo há Vitória de Guimarães-Porto (20h30, SportTV1) e o internacional português cresceu em Guimarães e estreou-se no Porto, com Rui Barros no banco, em 2006/07. E mais: foi colega de Sérgio Conceição no PAOK, em 2008/09 e 2009/10

Filipe Farinha/Stills

O que é isto de um estágio a meio da época? Parece esquisito.
Para mim também é esquisito, porque corre-se muito [risos].

Realmente na corridinha no treino ias na cauda do pelotão.
Atenção, mas isso foi a recuperação do jogo contra o Portimonense, joguei os 90 minutos. Mas somos obrigados a parar - e a correr - nesta altura do ano, devido às temperaturas na Alemanha. Fazemos uma pausa e acaba por ser bom vir para estágio para não perdermos o ritmo competitivo, porque estamos sem competição desde 22 de dezembro.

Então é pré época outra vez?
É quase. Não tão forte como a de verão, mas...

Tenho ideia que a Bundesliga é dos campeonatos onde é preciso o jogador ser mais inteligente. Concordas?
Não... Tens de ser inteligente, claro, mas também tens de ser forte - as duas coisas. Ao mais alto nível é sempre assim.

Se olhares para a Premier League, por exemplo, vês malta com menos atributos técnicos, por exemplo.
Parece, parece. Hoje em dia os campeonatos e as equipas equiparam-se muito, apesar de haver uma ou outra equipa que se destaca mais no próprio país. Mas de resto vejo tudo muito equilibrado, especialmente na Alemanha, onde é preciso mesmo estares em máximos físicos e mentais, porque é um campeonato muito desgastante.

Nas que se destacam há o Bayern de Munique. Sofre-se muito em campo com eles?
Nota-se diferença, claro, mas também não é um bicho papão. Mas sabemos que para conseguirmos ter uma oportunidade de ganhar ao Bayern, temos de fazer um jogo perfeito. E fazer um jogo perfeito não é nada fácil, em termos ofensivos, defensivos e de transições. Ou eles estão num dia não, ou nós temos de estar num dia em que tudo sai bem. A diferença é que o Bayern está ao mais alto nível há muitos anos, portanto nós tentamos chegar ao nível deles e mantermo-nos lá, porque o mais difícil é manter de ano para ano.

[entretanto passa o treinador Dieter Hecking, sem dizer nada] Que tal o mister?
É um gajo porreiro.

Com aquela cara de durão?
É alemão.

Não é um tipo com ar de ir dar um abraço aos jogadores.
Olha que se for preciso ele dá. Mas é um treinador que espera sempre o máximo de ti. E tudo o que não seja o máximo para ele é pouco. Os alemão são muito profissionais, organizados, focados naquilo que querem. E se as coisas não correrem como o desejado, não é que passemos mal, mas ele demonstra o descontentamento e aperta connosco.

Qual é que foi o treinador que gostaste mais de ter?
Não queres perguntar o que menos gostei? É mais fácil.

Quem?
O Felix Magath [ex-treinador do Wolfsburg]. Não conseguia entender a filosofia dele, que era só corrida - o contrário daquilo que dizias sobre a inteligência na Bundesliga. Com ele tinhas de ser um monstro em termos físicos e não precisavas de pensar muito. Só precisavas de pensar em correr. O resto ele achava que caía do céu. Tive muita dificuldade em trabalhar com um treinador assim.

Consideras-te um jogador mais inteligente hoje?
Claro.

Antes eras extremo, os extremos normalmente não têm de pensar tanto...
[interrompe] Estás a chamar os extremos burros? [risos] Penso que o faz mais diferença é a maturidade. Tenho 29 anos e há uns cinco, seis anos pensava de forma diferente do que penso agora. Nunca pensaria que ia acabar a lateral direito. No ano passado fui considerado o melhor lateral direito da Bundesliga e se me dissessem isso há uns anos eu não acreditava. Lá está, é uma diferença não creio que de inteligência mas de experiência por estar num campeonato como a Bundesliga, por jogar com a seleção, por ir à Liga dos Campeões e à Liga Europa... Isso ajuda muito um jogador a evoluir, não é uma coisa intelectual mas em termos de ver o que o jogo precisa em determinada altura, o que devo fazer em determinada situação.

Já estás com um entendimento suficiente para seres mister...
[interrompe] Não, não, não.

Resposta rápida.
Acho que não tenho perfil para isso. Não me vejo em frente a 25 pessoas a dar indicações e a corrigi-los. Eu amo o futebol, sem o futebol não saberia o que fazer, mas ser treinador não me passa pela cabeça agora. Não tenho nada planeado.

A vossa época na Bundesliga não está grande coisa (7º), mas na Liga dos Campeões estão nos oitavos de final e calhou-vos uma equipa que todos queriam, o Gent.
É a melhor equipa é... ninguém sabe. Para o Valência [que estava no grupo do Gent e não se qualificou] também devia ser a melhor equipa e olha. Neste momento não há equipas fáceis, a verdade é essa. Mas não sei se viste a festa que eles fizeram quando viram que lhes calhou o Wolfsburg. Em termos de cabeças de série viram-nos como o mais fraco também. Por isso agora vamos ver. É um fator de motivação.

Custou-te muito passar para lateral direito?
[respira fundo e ri-se] Custou. Especialmente porque cheguei à conclusão que andei enganado em 15 anos de carreira. E fico frustrado por chegar a essa conclusão.

É uma evolução, o Fábio Coentrão também passou para lateral.
Sim, mas ele já foi bem mais cedo. Eu sou lateral direito aos 29 anos, o que quer dizer que andei a carreira toda enganado. Mas não foi difícil porque, como estávamos a dizer, jogar na Bundesliga ajuda muito o jogador a ser mais completo, porque o jogador mais ofensivo também tem de ser defensivo e cumprir certas movimentações, e vice-versa. Ou seja, não foi assim tão difícil, mas fácil também não foi. Mas penso que agora já estou bastante adaptado.

Renovaste há pouco tempo. Tens contrato até quando?
2018, com possibilidade de mais um ano.

Quando se renova o contrato faz-se o quê? Sais para comprar um Ferrari?
Não. Vou para casa e descanso [risos]. Não sou muito materialista. Claro que a minha vida mudou muito desde que saí de Guimarães, com 17 anos, mas o que me ajudou foi o meu casamento e o nascimento da minha filha. Vês a vida com outros olhos. Não é por renovar contrato que vou comprar um Ferrari ou uma casa não sei onde. Quer dizer, uma casa até não é mal pensado... [risos]

A Volkswagen é o grande patrocinador do Wolfsburg. Vocês sentiram o escândalo que houve?
Nem por isso. Claro que comentámos o assunto entre nós e foi tema de conversa na cidade inteira, mas eles têm mentalidade para assumir o erro, arcar com as consequências e dar a volta por cima.

Vive-se bem em Wolfsburg?
É uma cidade muito pequena e trabalhadora, de fábrica. Às quatro da tarde está tudo fechado, não há muito para fazer. Mas também nunca fui muito de saídas, gosto é de estar com a minha família. Claro que foi difícil no início porque vinha de uma cidade, Salónica, na Grécia, que era o oposto disto, sempre tudo aberto 24 horas por dia.

Isso é perigoso.
Não. Só se não tiveres cabeça. Por que se não não havia clubes em Madrid, em Lisboa, em Londres... Não interessa o sítio: se não tiveres cabeça, perdes-te.

Tens tipos malucos na tua equipa? Bem, o Bendtner, não?
Pronto, não é preciso dizer mais nada. Já respondeste ao que havia para responder [risos].

E tu?
Eu sou sossegado, responsável...

Veterano?
Veterano ainda não.

No Euro 2016, quase.
Gostaria de lá estar, vamos ver. Vamos jogar para ganhar.

O selecionador tem tido uma abordagem bastante ambiciosa.
É claro. Temos de ter noção da nossa qualidade e daquilo que podemos fazer. Vendo os resultados que tivemos na qualificação, claro que vamos ter a ambição de chegar à final e ganhar.

Tens seguido o futebol português?
Sigo o Guimarães, que é o meu clube, mas é difícil porque temos muitos jogos e jogos de Champions. E quando estou em casa tento passar mais tempo com a minha família, brincar com a minha filha... A televisão já não muda de canal, está sempre no Disney. Mas tento ler os jornais e ver as notícias.

O Sérgio Conceição é uma possibilidade para treinador do Porto.
Acho que não era nada mau, penso que o Porto só tinha a ganhar com o Sérgio. Acho que ele tem as características e a mentalidade que o Porto precisa. Tem uma mentalidade ganhadora e conhece bem os cantos à casa, por isso acho que seria uma boa opção. Ele sempre foi um gajo porreiro no balneário, amigo do amigo, sempre disposto a ajudar. Só tenho coisas boas a dizer dele.

E tu estreaste-te pelo Porto numa altura semelhante à de agora, com o Rui Barros no banco a fazer a transição.
É verdade, ganhámos a Supertaça com o Rui Barros. Marquei um golo e depois não joguei mais o ano todo. Mas tranquilo.