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Julen Lopetegui: a coerência tem limite

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O treinador está de saída do FC Porto. Uma oportunidade para se reinventar?

Para chegar aqui fui ao lugar onde todos vamos: ao Google. A primeira frase que escrevi foi "Lopetegui muda" e cliquei no motor de busca: 1.920 resultados em 0,45 segundos. Achei o número interessante mas precisava de um termo de comparação para não ser injusto. E lá fui eu teclar "J-e-s-u-s [espaço] m-u-d-a" e carreguei no enter: 110 mil correspondências em 0,39 segundos. "Jesus muda a minha vida", "Jesus muda minha história", "Jesus muda de cabeleiro e há provas", "Jesus muda sete jogadores para o Besiktas". Jesus Cristo encontra Jorge Jesus. Credibilidade deste arranque? Zero, diria Jesus. O Jorge.

Mas foi também no Google que descobri esta entrevista antiga de Lopetegui a uma publicação espanhola de empresariado. Lá, na página 23, o entrepreneur Lopetegui, o sócio de um restaurante de carnes, diz o seguinte: "Los momentos malos siempre traen oportunidades de reinventarse". É mais ou menos como o ditado chinês mal traduzido em que a crise também é uma oportunidade. Chavões de auto-ajuda, portanto.

Naquela singela frase, Lopetegui resumiu tudo o que não fez no FC Porto - reinventar-se nos maus momentos. Aliás, fez precisamente o contrário, e inventou nos bons momentos; ou nos momentos que não devia.

Lembro-me, assim de chofre, da derrota por 3-1 no Dragão com o Sporting para a Taça no ano passado, quando decidiu baralhar tudo e pôr Adriàn López e Jackson Martinez à frente. Num jogo de tensão, de matar ou ser morto, o treinador espanhol trocou os arrumos da casa e os jogadores deixaram de saber onde se sentavam. E, como este momento, houve outros, alguns deles incompreensíveis, como as constantes mudanças de futebolistas.

Em outubro de 2014, por exemplo, Lopetegui tinha experimentado 12 onzes em 12 encontros, numa altura em que a desculpa do desconhecimento do plantel já soava a esfarrapada e ele introduzia um conceito revolucionário: a rotação em pleno Outono.

Este ano, voltou a fazer o mesmo, com decisões estranhas, quase esquizofrénicas, especialmente com André André, Maicon e Imbula, que circularam entre a titularidade, o banco e a bancada sem razões aparentes. Lopetegui esquecia-se que o cultivo e o pousio seguiam regras milenares,e que há razões para algumas coisas serem como são. Tal como ninguém reinventará a roda, também ninguém reinventará a pólvora.

E a isto somam-se as crónicas alterações táticas, num meio-campo que ora joga com um trinco, ora com dois, em que esses dois por vezes se atrapalham e se anulam, deixando a equipa vazia de ideias - e de futebol.

E quando assim é - quando não há uma ideia a que todos se agarrem e na qual se revejam - instala-se a confusão, a insegurança e a desconfiança. Nasce a semente do ódio. "Porque é que eu não jogo e joga o outro?" A mensagem deixa de passar de um lado para o outro porque há ruído na comunicação.

Lopetegui decidiu sempre pela cabeça dele, contra tudo e contra todos, e insistiu nos mesmos erros, preso à sua verdade. Ora isto faz dele o quê? Um homem coerente. Só que a coerência também tem limite.

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