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Zidane é Cruijff ou Maradona?

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FALA COM ELA. Onde está Zidane há sempre uma bola de futebol por perto

JUAN MEDINA/REUTERS

Zidane foi apresentado como treinador do Real Madrid. Um galáctico a treinar galácticos, mas grandes jogadores nem sempre deram grandes treinadores. Ele não quer comparações

Passemos em revista a cerimónia de apresentação, megalómana e estranha, como convém no Real Madrid de Florentino Pérez. Zinedine Zidane foi mostrado aos jornalistas pelo presidente como um homem da casa, a solução para o problema Rafa Benítez, esquecendo-se ele que Benítez também era um treinador feito na casa e que, há semanas, lhe chamara “solucción” para todos os problemas do mundo.

Mas estas trapalhadas protocolares já fazem parte de Florentino, o homem que prefere a forma ao conteúdo, e só por isso se explica que no palco, com ele, tenha estado Zidane, os filhos de Zidane, a mulher de Zidane, como numa reunião de família. Não era; era um treinador que estava a tomar posse, e não era um homem qualquer – Zidane, convém não esquecer, fez parte dos primeiros galácticos.

Com isto, Florentino completou o círculo: um galáctico à frente de galácticos. Osmose. A ideia, à partida, é boa: ele sabe o que é o talento, porque poucos o tiveram como ele; sabe o que é ser um jogador rico, porque conviveu com eles e foi um deles; sabe o que é a pressão, porque viveu com ela na Juventus e no Real Madrid e na seleção francesa; e sabe o que é ganhar, porque ganhou tudo o que se podia ganhar.

Mas, vai daí, também Maradona, Zico, Guullit, Marco van Basten ou Matthaus sabiam isto tudo e nunca passaram do quase nada quando se transformaram em treinadores. Houve duas exceções: Franz Beckenbauer e Johan Cruijff.

É assim que se dividem as coisas: Zidane é Cruijff ou Maradona?

O HOMEM DO APITO. O Real abriu as portas do treino e os de Madrid viram Zidane a liderar

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epa

Florentino Pérez espera que ele não seja uma coisa nem outra. O presidente, que é amigo pessoal de Zidane e dos Zidane, olha para Zinedine como na Catalunha se olhou para Pep Guardiola – para o futuro.

“Eu teria aceitado a oferta para substituir o Ancelotti, mas o Real Madrid ainda não está a pensar em mim”, disse Zidane numa entrevista, em junho. O francês, quinto filho de um casal argelino emigrado em Marselha, esperava dar o pulo do Real Madrid Castilla (equipa B) para o Real Madrid.

Não aconteceu, porque Florentino preferiu Benítez a outro treinador qualquer. Achava que ao clube faltava disciplina, músculo e organização depois dos anos com Ancelotti, um democrata adorado por todos os jogadores. Benítez era o homem certo no lugar certo, embora o histórico dissesse precisamente o contrário. Zidane continuou na equipa B à espera da oportunidade que procurava desde 2009.

Ano zero

No ano em que Ronaldo entrou no Real Madrid, Florentino Pérez foi buscar Zinedine Zidane para conselheiro pessoal. Mais tarde, com José Mourinho, o francês foi promovido a diretor desportivo (saiu Valdano) mas um tête-à-tête como o Special One fê-lo baixar às camadas jovens do Real. Zidane estava mais interessado em aprender como se treinava do que proteger Mourinho da imprensa. O treinador deu-lhe guia de marcha – para adjuntos, chegavam-lhe Rui Faria, Silvino, José Morais e Aitor Karanka.

Foi com Ancelotti que Zidane regressou ao banco, com uma perninha nos miúdos e outra nos graúdos. O italiano abriu-lhe as portas, Zidane aproveitou a deixa e começou o seu caminho, com uma inspiração na cabeça: Pep Guardiola. Fez um estágio com Pep Guardiola no Bayern de Munique, outro com Marcelo Bielsa, mentor de Pep, no Marselha, e até ouviu elogios de Cruijff, o guru de Pep, quando a federação espanhola o proibiu de treinar por não ter a licença.

“É ridículo. Preferia ter um bom treinador sem as credenciais, do que um mau treinador com credenciais e que não percebe nada daquilo”, disse Cruijff. Mas Zidane não é Cruijff nem Guardiola. Zidane é Zidane, um tipo absolutamente introvertido e calado, às vezes revoltado, como mostram os 14 cartões vermelhos que levou durante a carreira. Para os mais esquecidos: Zidane não foi um central trauliteiro, mas um esteta.

SEMELHANÇAS. É careca, foi jogador do clube, treinou as camadas jovens do clube. Lembra-lhe alguma coisa? “Não me comparem com Guardiola”

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epa

Comunicar pouco, perder o controlo e a cabeça (lembrar o episódio com Materazzi, em 2006) são características contraproducentes num treinador e a revista “For For Two” questionou-se se este galáctico teria perfil para aguentar o barco. Ouviu, entre outros, Guy Lacombe, o homem que trabalhou com o francês quando este decidiu tornar-se treinador.

Lacombe confessou que Zidane aperfeiçoou-se, teve media training para se soltar, e lutou contra a timidez para se impor no balneário de jovens. “Para o bem comum, aprendi que tens de dizer coisas aos jogadores que eles não estão à espera de ouvir”, relevou Zidane numa entrevista.

O carisma funciona quando se entra numa sala, mas é com palavras que convencemos os que lideramos – e os jogadores esperam sempre mais dos treinadores que foram excecionais no tempo deles. Para se aproximar de Pep, Zidane tem de ser um bocadinho como ele e isso começa no relacionamento com os jornalistas. Pep dá as melhores conferências de imprensa e recusa entrevistas individuais; Zizou não deu uma conferência de imprensa enquanto treinador dos Real Madrid Castilla B e aceitou ser bem entrevistado para algumas publicações. Esse modus operandi teria de ser revisto um dia.

Hoje foi esse dia: a primeira conferência como técnico principal do Real Madrid. “Não devem fazer comparações comigo e com o Guardiola. Ele conseguiu coisas incríveis mas eu não faço comparações comigo e com ninguém – nunca o fiz quando era jogador.”

Nunca fizeste, Zidane, porque foste incomparável.