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O pecado de José e Eva

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Tudo estava bem... até Eva ter saído do banco

Mike Hewitt/Getty

Um homem, uma mulher e um grande problema: José Mourinho criticou Eva Carneiro e começou uma guerra no Chelsea - que acabou com dois momentos para esquecer: o despedimento de ambos. O Expresso apresenta nos próximos dias 10 acontecimentos desportivos de 2015 que mais vale esquecer em 2016

Qualquer adepto mais ou menos fervoroso sabe que um jogo de futebol não é propriamente um espaço onde predomine a elegância no palavreado. Ele é filhos de umas senhoras para aqui, alhos para ali e fornicações para acolá. Tudo muito comum e expectável, ainda que pouco dignificante, está claro.

Só que em Inglaterra há quem se incomode com isto (atenção aos mais sensíveis, é altura de desviarem o olhar porque não há asterisco que os proteja): “Ei! Ei! Ei! Ei! Filha da p***, pá! Vai pró c****** pá, vai mas é pró c******, pá!” Especialmente quando isto não se passa na bancada e sim no relvado, perante as câmaras, dirigido a uma médica que entrava em campo para fazer o que fazem todos os médicos que entram em campo: assistir um jogador.

Foi assim que começou a guerra José Mourinho-Eva Carneiro, a 8 de agosto, na 1ª jornada da Liga inglesa - aqueles bons tempos em que Mourinho ainda não tinha sido despedido e o Chelsea não estava em 16º da tabela, a um ponto da linha de água, com nove derrotas em 16 jogos.

Utilizando uma expressão tipicamente inglesa, long story short: a médica do Chelsea, Eva Carneiro (juntamente com o fisioterapeuta Jon Fearn), foi chamada pelo árbitro para assistir Hazard, que estava lesionado, e Mourinho desatou aos berros quando percebeu que ela tinha entrado em campo, porque isso significava que Hazard tinha de sair do terreno de jogo quando faltavam poucos minutos para o final e o resultado estava em 2-2, com o Chelsea com 10 jogadores devido à expulsão de Courtois no início da 2ª parte.

O que se seguiu, além da explosão (o outburst, diria mais) de Mourinho, foi o início de uma grande trapalhada para o Chelsea. É que Mourinho criticou publicamente Carneiro e Fearn - foram “impulsivos, ingénuos e não comprendem o jogo”, porque Hazard “só estava cansado”, disse ele - e afastou-os do banco na partida seguinte.

Ultraje!, gritou a Associação de Médicos de Futebol em Inglaterra (e, mais tarde, da FIFA; em Portugal, a única médica do sexo feminino na Liga, Isabel Crespo, então no Belenenses, disse ao Expresso que o afastamento “não fazia sentido nenhum”), com Eva Carneiro a aproveitar para agradecer, no Facebook, “o apoio” que tinha recebido perante a situação inusitada.

Mourinho não terá gostado da posição pública da médica e afastou-a definitivamente da equipa. A situação, que já era má, ficou insustentável e chegou às autoridades futebolísticas quando a associação britânica Women in Football apresentou queixa por “linguagem abusiva e sexista” contra o treinador, no final de setembro.

“Quando olhamos para os precedentes, vemos que a Federação já penalizou Mourinho por ter dito que havia uma campanha contra o Chelsea e Rio Ferdinand foi suspenso por escrever um tweet com a palavra ‘puta’. Portanto, em comparação... acho que a decisão é óbvia”, disse ao Expresso Anna Kessel, cofundadora da Women in Football, em setembro. O sexismo era evidente para Anna Kessel mas não o foi para a Federação, que arquivou a queixa (formulada com a ajuda de uma tradutora portuguesa, revelou então Anna Kessel ao Expresso).

Só que o alívio de Mourinho foi sol de pouca dura. Primeiro porque Eva Carneiro criticou de forma dura a Federação Inglesa. “Fiquei muito surpresa quando soube através da imprensa que a Federação estava a investigar o que se passou no dia 8 de agosto. A mim nunca me pediram nada sobre o caso. Creio que deve ter sido a única investigação neste país em que os testemunhos dos indivíduos envolvidos no caso não foram considerados relevantes. A escolha de ignorar algumas provas certamente influencia o resultado da investigação”, acusou num comunicado divulgado no início de outubro.

“Na época passada passei por uma situação semelhante num jogo em casa do West Ham, quando fui sujeita a linguagem abusiva por parte do público. Contudo, a Federação disse à imprensa que não tinha havido qualquer abuso verbal nos cânticos, apesar de aquele se ter ouvido claramente. Nunca fui chamada para dar o meu testemunho. São incidentes destes e a falta de apoio das autoridades que tornam tão difícil o aparecimento de mulheres no jogo”, concluiu.

Depois, a médica decidiu processar o Chelsea por “constructive dismissal” (expressão que designa uma situação tão intolerável para um trabalhador que não resta outra opção senão demitir-se) e, mais especificamente, Mourinho, por discriminação sexual.

Tanto a médica como o treinador têm de aparecer em tribunal (do trabalho) a 6 de janeiro de 2016, com Carneiro a pretender recuperar o emprego no Chelsea e receber uma indemnização de Mourinho. Acabe como acabar, ninguém sai bem visto nesta história. Com a agravante de Mourinho estar a atravessar atualmente a pior fase da carreira enquanto treinador, depois de ter sido (novamente) despedido do Chelsea. Ou seja, agora sim, é caso para palavreado menos elegante.