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Quando Mourinho se sentia demasiado popular em Londres

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John Sibley/Reuters

Aconteceu em dezembro de 2006, na primeira passagem de Mourinho pelo Chelsea: o Expresso entrevistava o técnico português numa altura em que, pela primeira vez, a equipa londrina não seguia à frente no campeonato. Ainda assim, notavam os jornalistas, não estava mais humilde. “Não há dúvidas sobre a minha competência.” Republicação da entrevista no dia em que Mourinho voltou a ser despedido dos blues

Micael Pereira

Micael Pereira

Enviado a Londres

Jornalista

Foi ele que escolheu o campo. Em cima da hora, preferiu jogar em casa. Não a grande moradia fora da cidade que já mostrou aos portugueses nos ecrãs da SIC, mas a casa de Belgravia, bairro muito “posh” do coração de Londres, a pouca distância do rio Tamisa e do estádio do Chelsea. É num beco tranquilo que vive com Tami (Matilde) e os dois filhos, Tita (Matilde) e Zuca (José). Assim podem ir às compras e ao cinema a pé, ao contrário do que acontece em Cobham, onde preferem estar ao fim-de-semana. Dada a antecipação da entrevista (marcada para o dia seguinte), os jornalistas do Expresso acabaram por jantar na sala de José Mourinho. Carne estufada com cenoura e arroz, a que se seguiu um gelado de baunilha servido por uma simpática empregada brasileira. Na copa, o treinador do Chelsea assistia a uma transmissão da Sport TV em português. Depois, passou para o sofá.

Está em segundo lugar este ano, mas fala aos jornais como se fosse em primeiro. Como acha que vai reagir se perder o campeonato?
Anormalidade é eu ter ganho quatro campeonatos seguidos. Não é normal um clube fazê-lo, e muito menos um treinador. Se eu perder um campeonato, o quinto ou o sétimo, seja ele qual for, encaro-o com naturalidade. O que eu procuro fazer - para não me culpar a mim próprio quando isso acontecer - é tentar que os níveis de ambição não diminuam porque ganhei três ou quatro campeonatos. Gostava que acontecesse porque o adversário foi melhor, não porque não fui tão competente, tão determinado, tão líder como costumo ser. Mas estou tão convencido agora como estava há três ou quatro meses de que vamos ganhar o quinto campeonato.

O Chelsea tem mais adeptos hoje do que tinha há dois anos e meio, antes de ter chegado?
Tem. Eu não noto muita diferença, porque desde que cheguei a lotação está esgotada uma semana antes do jogo. Não há um único bilhete para um único jogo.

Vê o futebol da mesma forma que via antes de vir para Londres?
Uma equipa campeã em Inglaterra não é campeã em Espanha, e o campeão em Espanha não o é em Inglaterra. São coisas completamente diferentes. Temos de ser flexíveis e nos adaptar às características do futebol onde estamos. E Inglaterra tem mudado. Houve grandes treinadores que chegaram, antes de mim, e eu também tenho alguma responsabilidade na mudança de qualidade do jogo. O futebol inglês deixou de ser tão directo e tradicional como era.

Não acha que tem arriscado demasiado às vezes? Houve aquela acusação ao treinador do Barcelona, Rijkaard, de que ele tinha ido ao balneário do árbitro...
Não arrisquei nada. Fiz aquilo que sempre faço, que é acreditar nos meus e naquilo que os meus me dizem de uma forma cega e objectiva. E se um adjunto me diz “foi assim, eu vi”, não é nenhum Rijkaard deste mundo que me vai dizer o contrário. Simplesmente pus-me ao lado de um colaborador, como me porei sempre, sem olhar às consequências. Não é o exemplo perfeito.

Esse episódio abalou a sua imagem.
Um dos meus problemas é exactamente não me preocupar com a minha imagem. É uma das minhas características, que faz com que eu seja mais amado por uns e mais odiado por outros. É mais importante a minha equipa e os objectivos que perseguimos. São princípios dos quais não abdico.

E nunca pediu desculpa?
Pedir desculpa por uma convicção ou uma característica de personalidade, não sou capaz de o fazer. Uma das vantagens de ter atingido um determinado estatuto é que podemos chegar a um momento e dizer: pensem o que pensarem de mim, a minha qualidade é evidente. Não há dúvidas sobre a minha competência. Estou-me nas tintas para o que pensam e para o que dizem.

Tornou-se amigo de Roman Abramovich ou mantêm uma relação meramente de patrão-funcionário?
A dimensão da palavra «amigo» é complexa. O que posso dizer é que gosto dele. Tenho uma relação que ultrapassa a ligação patrão/treinador. É uma relação aberta, frontal, muito objectiva e pragmática. Ele sabe o que é que eu quero, eu sei o que é que ele quer. Os meus problemas são os problemas dele, os meus objectivos são os objectivos dele.

Ele costuma fazer-lhe reparos?
Não. Encaramos as coisas com naturalidade. E sabemos que a cooperação é importante. Ele também sabe, pela minha personalidade, que se algum dia não estivesse contente no Chelsea ele iria ser o primeiro a saber que eu me quereria ir embora. Com esta abertura e frontalidade, a minha vida no Chelsea é tranquila.

O que é que o distingue de Pinto da Costa?
A vida profissional do senhor Pinto da Costa, pelo menos no meu tempo, era o Futebol Clube do Porto. Vivia 24 horas para o clube. O Abramovich é uma pessoa com uma vida para além do futebol.

Prefere alguém como Abramovich, que mantém uma maior distância?
Nós temos é de nos adaptar em função daquilo que é a liderança do clube. Com o tipo de relacionamento que há com um presidente do dia-a-dia, não há necessidade de reuniões periódicas, organizadas, documentadas. Senti-me bem no Porto e sinto-me bem como funciono agora.

Não é propriamente «diplomático» em público. E em privado? Acha-se boa pessoa?
Acho que sou boa pessoa. Há claramente um Mourinho que é treinador e um Mourinho que não é treinador.

Os fins justificam sempre os meios?
Não. Em absoluto. A maior prova disso é que na minha vida há prioridades. E as minhas prioridades não são o futebol. Há uma coisa que me irrita terminantemente: a calúnia. Por exemplo, em Portugal eu ia a Fátima muitas vezes. E comentava-se: lá vai ele a Fátima porque é antes de um grande jogo.

Isso é uma calúnia?
Então não é? Eu vou a Fátima pedir para ganhar um jogo? Eu ia e vou a Fátima porque gosto.

Fátima não merece essa desconsideração, é isso?
Para mim a única coisa que me preocupa no mundo, de facto, são os meus. Quero lá saber do futebol para alguma coisa. Agora eu ia a Fátima pedir para ganhar um jogo?... A minha vida não é o futebol.

Mas é católico.
Sou católico e sou crente.

Nunca pediu a Deus para ganhar um jogo?
Já pedi. Mas a minha prioridade de vida não é o futebol.

Mas dentro do futebol e voltando aos fins que justificam os meios: prefere perder um jogo justamente e ser correcto ou ganhar mesmo que tenha de torcer um pouco as coisas?
Sou um adepto da correcção. O que eu não gosto é de perder pela incorrecção. E também não gosto de ganhar por incorrecção. Se me disser: vais ganhar no último minuto com um golo marcado com a mão, eu não quero. Mas também não quero perder assim. Os fins não justificam os meios. Agora, enquanto líder de um grupo, vou dar-lhe um exemplo concreto: quando faço as minhas escolhas, faço-o a pensar na melhor maneira de atingir um resultado. Magoa-me, no final de uma época, dizer a um jogador «não te quero cá, vais-te embora». Mas tenho de o fazer. Pagam-me para isso.

Esteve para sair do Chelsea no final da época passada. Porquê?
Porque achava que o clube e o nosso trabalho são analisados de uma maneira injusta. De um lado há o potencial económico do Chelsea, mas do outro há o historial, o estatuto, o peso institucional de outros grandes clubes que jogam contra nós. Para o trabalho que se faz neste clube, meu e dos jogadores, há sempre um ponto de interrogação. Não nos dão o valor que sentimos que merecemos. Em determinados momentos, há um pouco de frustração e passa-nos pela cabeça dizer «já chega, quero outra coisa».

Mas começou logo a ganhar em Inglaterra.
Se calhar o nosso problema foi começarmos a ganhar cedo de mais. A fasquia fica colocada bem alta e é por ela que nos temos de guiar. Fomos campeões no primeiro ano, fomos campeões no segundo e não há volta a dar: ou somos campeões outra vez ou o nosso trabalho será analisado de uma forma negativa.

O jornal «A Bola» avaliou o número de vezes que tem saído na imprensa inglesa e concluiu que está empatado com Tony Blair. Tinha ideia?
Tenho ideia de que o que mais queria para a minha vida, quando saísse do meu trabalho e chegasse à rua, era ser uma pessoa igual às outras - e não sou.

Sente-se muito popular?
Sinto-me demasiado popular em Londres.

Costuma andar a pé na rua?
Há coisas de que não posso abdicar.

E é muito abordado?
Sou abordado e incomodado. A maior parte das vezes com simpatia.

Como compara Londres com o Porto?
No Porto era uma estrela, mas se fosse a Lisboa era insultado. Aqui nem pensar. A coisa mais corriqueira do mundo é alguém vir na rua e apresentar-se como um superadepto do Arsenal ou do West Ham e falar comigo com uma correcção e uma estima fantásticas. Em Portugal somos muito mais emocionais. Não conseguimos separar o cidadão do trabalho.

E as mulheres não o assediam muito?
Não. Nem muito nem pouco.

Tem fama de ser muito admirado pelo público feminino. Não costuma ter «feed back» desse lado?
Não. A maneira como se me dirigem é igual: mulheres, homens, crianças. Fotografia, autógrafo. Há uma coisa que os meus filhos me disseram e que me ficou marcada. Fomos uma vez à EuroDisney e disseram-me: «Contigo nunca mais».

Já conhece bem Londres?
Conheço. Moro no centro da cidade.

Faz vida de bairro?
Faço. A escola dos miúdos é aqui perto.

Consegue ir às compras?
Sim, sendo incomodado. É evidente que tentamos ter o nosso espaço. Temos um local fora de Londres onde vamos de fim-de-semana e onde estamos mais tranquilos. Mas não posso abdicar de ir ao cinema ou de ir buscar os meus filhos à escola e de vir a brincar com eles na rua, de trotinete ou de «skate».

Vai buscá-los a pé?
Quando o tempo o permite, vou.

E jantares românticos com a mulher?
Consigo tê-los, mas sou capaz de estar com o garfo na boca ou a meio de uma conversa importante que queremos ter a dois e de repente não é a dois - é a três. Alguém interrompe e pede para tirar uma fotografia, para o filho ou para o neto. A minha mulher, como educadora dos nossos filhos, tem um trabalho árduo, que é prepará-los para a vida que têm. A culpa é minha - devido à dimensão que eu atingi na minha profissão - mas é a vida que temos.

Os seus filhos já têm muitos amigos ingleses?
Sim. E já falam fluentemente inglês. Ela, além de falar, escreve. É completamente bilingue. Tem dez anos e está no quinto ano. Ele está na primeira classe.

No início, quando veio para Londres, a sua vida social circulava muito à volta dos seus técnicos adjuntos portugueses.
Com os meus adjuntos estou cada vez menos. Eles moram todos praticamente juntos, longe de mim. Já têm as suas famílias. Estão muito mais independentes e perfeitamente adaptados. Estou contente com isso. Nós continuamos, obviamente, a ter a mesma boa relação que tínhamos com eles, mas vivemos cá do outro lado da cidade e os miúdos fazem amigos na escola e isso é muito importante. Amanhã à tarde tenho um jogo marcado - quatro contra quatro.

Que jogo é esse?
Eu fico numa baliza, o segurança dos meus filhos noutra baliza, e jogam o meu filho e mais cinco amigos que vêm da escola de propósito. Sexta-feira à tarde é o dia de jogarmos.

Jogam onde?
Aqui na rua.

Acha necessário os seus filhos andarem com segurança privada?
Achamos que sim. Fomos aconselhados a isso não só cá como também em Portugal. Não gostamos que seja uma coisa muito visível e palpável, mas dá-nos tranquilidade.

E eles sentem-se confortáveis?
Sim, porque não é uma coisa muito presente. Sabemos o que está a ser feito, mas não com muita proximidade.

Dizia no outro dia que não jogava golfe, referindo-se ao «hobby» de Alex Ferguson (treinador do Manchester United, um dos principais rivais do Chelsea). Se não joga golfe, o que é que faz, então, em alternativa?
A família vem em primeiro lugar, o futebol em segundo e o que vem depois é para onde a minha família me arrasta. Sou arrastado no pouco tempo que tenho livre para aquilo que eles gostam de fazer. Mas vou contente.

Tem visto muitos musicais?
Já fui arrastado. Fui ver o «Rei Leão», porque os miúdos me arrastaram, e fui ver o «Mamma Mia», porque a minha mulher me arrastou.

E no cinema, tem ido às estreias?
Só fui uma vez. Fui à de The Incredibles.

Passou no tapete vermelho?
Passei. Mas já não passo mais. Isso não é para mim.

Sentiu-se deslocado?
Não é a minha vida. Há pessoas que pagam para ser famosas, eu pagava para não ser famoso.

Tem vizinhos famosos. Dá-se com eles?
Não me dou muito.

Eles não se metem consigo?
Não. Para mim há duas classes de famosos: os que são porque têm mérito e os que pagam para ser. Normalmente, os que têm mérito são uns gajos muito simples, com quem se pode jantar e conversar. Não têm vaidade absolutamente nenhuma. Estive várias vezes com o Brian Adams, que é uma superestrela, e parece que estava a jantar com um tipo qualquer. Encontro-me com o Robin Williams e com o pai dele no hotel em que fazemos estágios e estamos ali a conversar como se ele fosse um tipo absolutamente normal. Se transportarmos isso para o lado português acaba por ser a mesma coisa. No outro dia eu e a minha mulher estivemos a jantar com a Mariza, o Rui Veloso, o Carlos do Carmo, o João Gil. Não os conhecia, foi a primeira vez que estive com eles.

Convidaram-no para jantar?
Sim. São uns tipos porreiros e simpáticos. Ao fim de meia hora, dá para sentir uma empatia grande. Mas a vida, normalmente, afasta-me um bocado disso.

Os paparazzi não vos chateiam?
Temos pactos com eles: à porta de casa não, não quero que saibam onde moro; com os meus filhos de uniforme escolar não, não quero que saibam em que escola andam. Já a passear com a minha mulher na rua, se eu não quiser aparecer não vou.

Ainda tem quatro anos de contrato pela frente. Falou abertamente que gostava de vir a ser seleccionador nacional. É um projecto para essa altura?
Não. Para mais tarde.

E regressar um dia ao campeonato português?
Não posso dizer nunca, mas duvido.

Não tem contas a acertar com o Benfica?
É um sentimento estranho. Olho para a minha etapa no Porto e acho que aproveitei ao máximo aquilo que o clube tinha para me dar e o Porto aproveitou ao máximo aquilo que eu tinha para lhe dar. Não pode haver sentimentos negativos.

A sua relação com Pinto da Costa normalizou-se? A última vez que tinha falado com ele tinha sido na final com o Mónaco, em 2004.
E continua a ser a última.

A ferida já está sarada?
Não faço ideia. O que estou a tentar explicar é que, do ponto de vista meramente profissional, o meu último dia no Porto foi um dia de sonho para mim e para o clube. É o dia em que fomos campeões europeus. Com o Benfica, o sentimento é completamente oposto. Aquele Benfica não estava preparado para me ter a mim como treinador. Se eu tenho chegado ao Benfica de hoje, com o presidente e a credibilidade que tem hoje, com o saneamento económico que teve.

Acha que teria possibilidades de fazer no Benfica o que fez no Porto?
Penso que sim.

Diz que não liga à imagem, mas tem uma colecção de novos sobretudos.
Tenho dois, um mais quente que outro.

Porque é que trocou o Armani pelo Ermenegildo Zegna?
Deixei o Armani porque o Zegna paga mais (risos).

Agora o sobretudo até vem com o seu nome na gola.
Da mesma maneira que um jogador está no campo e tem de ter umas botas que lhe assentem perfeitamente, tenho de me sentir bem. Não gosto de sentir frio e também não gosto de sentir calor.

A estética não entra aí?
Entra da mesma maneira de que se eu for ali à rua. Não vou calçar umas meias amarelas com umas calças cor-de-rosa. Há um mínimo de cuidado.

E o cabelo? Recebeu ofertas de estilistas para lhe fazer um corte?
Vou ao cabeleireiro da minha mulher, que é um tipo porreiro. Quando ela vai, eu vou buscá-la e ele guarda uns minutinhos para mim e dá-me um toquezinho. Mas não ligo nada a isso. No Verão apeteceu-me ficar careca. Havia pessoas que diziam «ai que horrível», havia outras que diziam «ai que fantástico». Para mim é igual. Agora vai crescer e depois logo se vê.

É um homem rico.
O que é isso?

Não se considera rico?
Ganho muito dinheiro. Mais do que pensei que podia ganhar. Não tenho problemas financeiros, vivo como vivia há alguns anos. A minha vida não mudou.

Tem feito investimentos fora do futebol?
Os meus investimentos são a nível imobiliário. Tenho comprado casas e terrenos. Acho que a vida que tenho não me permite qualquer tipo de negócio paralelo.

Mas podia ter um gestor.
Não quero. Não acredito em gestores. Acredito mais na minha sensibilidade.

Tirando a questão do conforto que tem conseguido proporcionar à sua família, houve algum luxo que se tenha dado a si próprio?
Não. Costumo dizer isto com cuidado: quando, antes de nós sermos quem somos no futebol, a nossa vida foi difícil, o primeiro impulso é termos aquilo que nunca conseguimos ter. Quando a nossa infância e adolescência foi boa, não sentimos isso. A minha vida hoje não é muito diferente da vida que eu tinha antes de ser quem sou no futebol.

Que carro é que tem?
Só tenho um carro meu, que comprei há uma data de anos e que não vendo, porque a minha filha adora-o, diz que quer ficar com ele quando fizer 18 anos. É um Volvo Cabrio antigo. Os outros carros são os que os patrocinadores me dão. Em Portugal tenho um Lexus, aqui tenho um Audi.

Diz que gosta de viver sob pressão. Isso normalmente traz algum sofrimento. As pessoas sob pressão tendem a ser ansiosas.
Não sofro no futebol. É evidente que, quando a bola bate no poste e não entra, há alterações no batimento cardíaco que têm a ver com a própria natureza do jogo. Agora o sofrimento de desespero ou de ansiedade, não tenho.

Parece a quem está de fora que nunca está satisfeito com o que tem. Uma vitória é apenas um passo para a vitória que vem a seguir?
As vitórias acontecem num momento e fazem parte da história. E é o fim da nossa carreira ou a seguir há mais.

Tem medo de se sentir feliz?
Quero é mais. Uma coisa que chateia a minha mulher é eu acabar um jogo e ela pensar que por umas horas não há futebol, mas eu já estou a pensar no próximo.

Logo na hora?
Se chego a casa às seis da tarde, como faço depois de um jogo, brinco com os miúdos um bocado, vou jantar fora com a minha mulher e sou capaz de regressar a casa e ir preparar o treino para daí a dois dias ou formar a equipa que vai jogar.

Mesmo depois de uma vitória retumbante?
Sim, pode acontecer. Fiz um acordo com a minha mulher e consegui cumpri-lo: quando a época acaba, há um período em que eu trabalho, para depois haver um período em que ninguém me vai telefonar nem eu vou telefonar a ninguém. Porque, no fundo, o futebol é continuidade. Se calhar um dia vou pôr uma meia-dúzia de meses sabáticos.

Depois de 2010, imagino.
Sim. Vou fazer qualquer coisa que nunca me permiti fazer. Não sei o que são férias de Inverno, ir com os filhos para a neve. Não sei o que é passar um Natal e um fim de ano em família. Há coisas que eu e a minha família não sabemos o que é. Mas sou uma pessoa que se pode dizer feliz. Não é uma derrota ou um campeonato perdido que vai fazer com que eu deixe de ser um homem feliz.

Vai passar este Natal em Londres?
Pela primeira vez desde que estou cá, vou passá-lo a Portugal. A minha família vai mais cedo e vem mais tarde. Eu vou a 23 e venho a 25. Tenho jogos.