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SportingLeaks, Bruno de Carvalho (e um artigo do Expresso) chegam ao NYTimes

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O diário norte-americano publicou um artigo sobre o “Football Leaks”, o site que desde setembro tem vindo a publicar documentos confidenciais sobre os clubes de futebol, referindo em particular casos portugueses. Um dos fundadores falou com o jornal

Luís M. Faria

Jornalista

Os negócios do futebol português chegaram ao “New York Times”. O diário norte-americano publicou na terça-feira um artigo sobre o “Football Leaks” (FL), um site inspirado no Wikileaks que desde setembro tem vindo a publicar documentos confidenciais com origem em clubes de futebol. Embora o FL também se ocupe de outros países – os arranjos comerciais de Neymar, futebolista do Barcelona, mereceram a sua atenção, e a França, o Luxemburgo e o Reino Unido também são atingidos – tem estado focado sobretudo em Portugal. Os fundadores do site parecem ser portugueses. Um deles, que falou ao “Times” sob o pseudónimo de “John”, explica que só o alojaram na Rússia porque lá é mais fácil permanecer anónimo.

Mesmo assim, não deve ser muito difícil descobrir quem são. Ao contrário do Wikileaks, o FL não recorreu a nenhuma tecnologia sofisticada de encriptação, usando plataformas conhecidas como o LiveJournal e o Yandex, de onde é fácil retirar páginas. Logo que surgiram as primeiras revelações da FL, sobre o contrato de Jorge Jesus com o Sporting (cinco milhões por ano, mais prémios vultuosos por cada taça), o clube queixou-se às autoridades. Em outubro, o presidente Bruno de Carvalho sugeria que o Benfica teria a ver com o assunto, e confiava que a PJ devia estar prestes a apanhar os autores. Mas isso ainda não aconteceu, e os posts continuaram.

O FL assume a missão clássica do ‘whistleblower’, expondo as facetas obscuras do negócio do futebol. Uma dessas facetas é a chamada Third-Party Ownership (TPO), que se verifica quando os direitos de transferência de um jogador são parcialmente detidos por entidades externas aos clubes. Essa prática foi banida pela FIFA este ano, e Portugal era um país onde ela acontecia com especial intensidade. Dada a escassez de recursos financeiros para os clubes competirem a nível internacional, muitas vezes a única solução tem sido recorrer a fundos externos que invistam em jogadores, a troco de uma percentagem do preço numa eventual venda futura. No fundo, trata-se de uma aposta na valorização de ativos humanos.

Influência indevida nas transferências

O problema é que esse tipo de arranjo dá aos investidores um peso indevido em decisões que devem pertencer exclusivamente aos clubes. Um bom exemplo é o contrato entre o Sporting e um fundo de investimentos proeminente na área, o Doyen Sports, relativo ao jogador argentino Marcos Rojo, adquirido em 2012 por 5,4 milhões de euros, dos quais a Doyen pagou 75 %. Quando Rojo foi vendido ao Manchester United por 20 milhões em 2014, o Sporting recusou passar à Doyen a percentagem de 75% contratualmente prevista, argumentando que o fundo havia forçado a transferência. Recorde-se que, para contrariar a negativa do clube em vendê-lo, o jogador chegou a recusar-se a treinar e mesmo a jogar, dizendo que isso podia agravar uma lesão.

A Doyen levou o caso ao Tribunal Arbitral do Desporto, sediado em Lausanne, onde continua pendente. Segundo juristas internacionais, a lei suíça, que é aplicável, reconhece a liberdade contrariar exceto em situações extremas de desequilíbrio entre as partes ou de manifesta imoralidade das cláusulas contratuais. Além disso, o contrato dizia expressamente que as decisões de natureza desportiva cabiam ao clube e a mais ninguém. O Sporting alega que o CEO de Doyen, o português Nélio Lucas, lhe enviou mensagens ameaçando que o Rojo ia “criar problemas” se não o autorizassem a partir.

Essa é apenas um de numerosos casos expostos pelo Football Leaks. Um outro, ao qual o “Times” dá destaque no seu artigo, é o do clube holandês Twente. Segundo o porta-voz da associação holandesa de futebol, vários contratos assinados pelo clube eram diferentes daquilo que ele comunicava oficialmente. Estão em causa, especificamente, as combinações secretas feitas com a Doyen Sports. O presidente do Twente já se demitiu, e é possível que o clube, além das multas que vai ter de pagar, fique impedido de participar em determinadas competições durante algum tempo.

Em Portugal, o grosso das revelações do Football Leaks tem-se referido ao Sporting [o jornal norte-americano faz referência a uma entrevista de Bruno Carvalho do Expresso, mas o link que associa ao texto não corresponde e refere-se, antes, às denúncias feitas pelo presidente leonino no programa “Prolongamento” da TVI24], embora também haja documentos sobre o Benfica e o FC Porto. De futuro devem aparecer mais. Como resumiu um artigo recente do “El País”, o site ameaça a estabilidade do futebol. Ao fim e ao cabo, o segredo é a alma do negócio, esse ou qualquer outro.