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Chegou o patrão do Benfica. Ponham-se a pau

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Renato Sanches, o menino de 9 anos que o Benfica comprou por €750, já é titular e tem nova cláusula de rescisão: €80 milhões

Carlos Rodrigues

Quando se pergunta a um tradutor o que quer dizer determinada palavra, a resposta é invariavelmente a mesma: depende do contexto. Porque uma palavra por si só é uma coisa, mas, em determinado contexto, passa a ser outra. É como olhar, por exemplo, para €750. Podem significar demasiado, especialmente se associados a um menino de 9 anos que ainda nem sabe fazer contas de dividir. Mas o contexto muda tudo e o contexto é este: nove anos depois de ter comprado um menino de 9 anos por €750 ao Águias da Musgueira, o Benfica tem em mãos um médio centro que dificilmente irá perder o lugar nos próximos tempos, apesar de ter apenas 18 anos, porque não tem outro ‘8’ assim.

Quem o garante é o próprio, a quem o conhece bem. “Quando o Renato começou a treinar com os seniores, cruzámo-nos no Seixal e perguntei-lhe para quando a estreia. A resposta mostra bem o que é a personalidade dele: ‘Mister, isso não sei, mas sei que quando entrar já não saio. Eles que se ponham a pau’”, conta ao Expresso Renato Paiva, treinador de juvenis do Benfica, entre gargalhadas.

O “Bulo”? Não. O “patrão”

Renato Sanches não é o único jovem a entusiasmar o futebol português nos últimos tempos (no Benfica também há Guedes e Semedo, no Sporting apareceram Gelson e Matheus e no Porto já havia Neves), mas está a somar cada vez mais elogios — incluindo de Simeone, treinador do Atlético de Madrid — por uma característica singular que o distingue dos demais: a postura extremamente confiante, sem medo de assumir (ou falhar). “O que me parece mais impressionante é que ele era exatamente igual quando chegou, só que em miniatura”, conta João Tralhão, atualmente técnico dos juniores do Benfica, mas, em 2007, treinador da equipa de escolinhas que recebeu Sanches.

“Já ouvi dizer que é uma força da natureza, mas já era assim em miúdo. Era baixinho mas tinha uma força impressionante e era hipercompetitivo. Às vezes ouvíamos os pais na bancada a queixarem-se: ‘Aquele Renato é um bruto’”, recorda Tralhão. “Era um rapaz muito irreverente, que trouxe coisas diferentes até aos colegas, porque não era tão certinho. Por exemplo, quando estávamos à mesa, ele às vezes mandava os colegas irem buscar a comida dele, na brincadeira. E alguns iam [risos]. Sei que a alcunha de infância dele era ‘Bulo’, mas no Benfica nós chamávamos-lhe ‘patrão’.”

A irreverência da sua personalidade, baseada no futebol de rua, sempre lhe permitiu destacar-se em campo, assim como fora dele, garante Renato Paiva. “Quando chegou aos juvenis, em 2012/13, tinha 15 anos, mas já estava habituado a jogar com os mais velhos. Disse-me logo, com descaro: ‘Mister, vou jogar aqui, não tenha dúvidas’”, diz o técnico que foi campeão com Sanches a titular, nessa mesma época. “Ainda no início desse ano, num jogo em que ele era suplente, colei na parede os papéis com os esquemas táticos e pedi atenção, porque íamos fazer cantos curtos. A equipa vai aquecer e quando volto vejo o Renato a falar para eles e às tantas diz: ‘esqueçam isso dos cantos curtos e metam a bola lá para dentro para marcarmos’. Antes de darmos o grito, todos abraçados, perguntei-lhe se queria ser jogador ou treinador. Disse-lhe que se limitasse a jogar, porque treinadores já havia. Ficou com uma cabeça...”

Com 9 anos, apesar de ainda ter idade para jogar nas escolinhas, Sanches já era avançado dos infantis do Águias da Musgueira, equipa 
de uma zona desfavorecida onde o jovem morava (atualmente Alta de Lisboa). Observado pela prospeção do Benfica, foi chamado para um treino à experiência no campo dos Pupilos do Exército. Impressionou (“trouxe irreverência, característica do futebol de rua, e mostrou logo a qualidade que tinha”, diz João Tralhão, então treinador) e foi contratado a troco de uma única soma que o Benfica pagou imediatamente: €750

Com 9 anos, apesar de ainda ter idade para jogar nas escolinhas, Sanches já era avançado dos infantis do Águias da Musgueira, equipa 
de uma zona desfavorecida onde o jovem morava (atualmente Alta de Lisboa). Observado pela prospeção do Benfica, foi chamado para um treino à experiência no campo dos Pupilos do Exército. Impressionou (“trouxe irreverência, característica do futebol de rua, e mostrou logo a qualidade que tinha”, diz João Tralhão, então treinador) e foi contratado a troco de uma única soma que o Benfica pagou imediatamente: €750

O à-vontade de Sanches é o que lhe permite atrever-se da mesma forma insolente com o Astana ou com o Tondela, mas tudo o que é excessivo também prejudica, admite Paiva. “Torna-o mais emocional do que racional. Quem viu o jogo contra o Atlético pensa que ele já tem experiência na Champions, mas ainda lhe falta alguma leitura tática, como se viu no primeiro golo. Mas é isso que o Rui [Vitória] irá certamente limar”, diz.

O scout José Pedro Teixeira aponta as mesmas lacunas ao novo talento da Luz. “Precisa melhorar a leitura defensiva e ser aperfeiçoado no processo ofensivo por um treinador que não veja nele apenas um jogador forte e rápido nos duelos físicos”, explica. “As características físicas, que são excelentes, também podem ser a ponte para o insucesso, se ele pensar que é só isso que o jogo lhe pede, como aconteceu por vezes. Entusiasmou o estádio, mas começou a ter que recuperar as suas próprias bolas perdidas, em vez das dos colegas. Que ninguém espere dele a maturação de um Xavi, mas é um médio com valor para jogar no topo.”

Paiva acredita no mesmo, porque Sanches sempre teve vontade de crescer. “Agora é o rosto mais visível da formação e envolveu o trabalho coletivo de muita gente, mas a verdade é que o mais importante é o miúdo. Há muitos que queremos ajudar e não deixam. Portanto, quem fez o Renato não foi este ou aquele, foi ele próprio.” Nove anos e €750 depois, o Benfica agradece: com um novo contrato, assinado ontem, até 2021, com uma cláusula de rescisão de €80 milhões.