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História de um volte-face: como o ciclismo do Sporting foi parar ao FCP

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O jornal do Sporting dedicou duas páginas, um editorial e uma chamada de primeira página ao regresso do ciclismo ao clube 29 anos depois

O Sporting não desiste, para já, de voltar à estrada. Mas primeiro ainda vai ver se há condições para tal depois do divórcio litigioso com a equipa W52 - que entretanto já escolheu um parceiro de camisolas igualmente listadas... mas verticais e azuis e brancas. A história de como tudo aconteceu - e dos valores envolvidos

O fim do acordo pré-estabelecido entre o Sporting e a equipa de ciclismo W52 Quintanilha, que entretanto se associou ao FC Porto, não fez cair o interesse dos leões pelo regresso à competição. Quem o diz é Vicente de Moura, que em declarações ao Expresso na tarde desta segunda-feira refere que depois do rompimento do pré-acordo estabelecido entre o clube e a empresa nortenha, os leões mantêm a intenção de voltar às provas de estrada e com uma equipa para disputar os primeiros lugares.

“Vamos ter de nos sentar à mesa outra vez e ver se há condições de montar, com pessoas confiáveis, um projeto que garanta a ética e a verdade desportiva”, acentua.

Mas o que aconteceu entre quinta-feira e este domingo que levou a que um acordo de parceria entre uma das equipas mais fortes do pelotão português e um clube centenário - há 29 anos arredado da competição velocipédica - tivesse voltado atrás e dado lugar a um outro casamento, agora entre o FC Porto e a mesma namorada?

O acordo com o Sporting

O melhor será voltar um pouco atrás, até à manhã da passada quinta-feira, quando o jornal “Sporting” noticiou o regresso do clube à prática do ciclismo. “O Sporting Clube de Portugal irá participar na próxima época desportiva de ciclismo profissional, um regresso a uma modalidade com grandes pergaminhos e tradição no clube que corresponde ainda a um grande anseio dos sócios e adeptos”, podia ler-se em nota publicada no site oficial dos leões, através de um acordo estabelecido com a W52, formação onde alinha Gustavo Veloso, vencedor das últimas duas Voltas a Portugal.

Nesse mesmo dia, em declarações à Lusa, o diretor da W52 Maximino Pereira explicava que o acordo de parceria assinado com o Sporting tinha a validade de dois anos, que a sede da formação se manteria em Sobrado, Valongo, que a W52 se manteria como primeiro patrocinador e que o verde e branco pintariam as camisolas usadas por Veloso e outros sete corredores.

No comando das operações mantinham-se Maximino Pereira como diretor da equipa e Nuno Ribeiro na condição de diretor desportivo. Este último, nesse mesmo dia, em declarações à Sporting TV, confirmou a existência de um acordo final. E nas declarações prestadas ao jornal dos leões, Ribeiro, antigo campeão da Volta a Portugal (2003) dizia tratar-se de “um projeto que será muito importante para a modalidade. Temos de defender a camisola do Sporting e entrar em todas as provas com o objetivo de ganhar. Será uma notícia que vai causar grande impacto. Na Volta a Portugal, também pelo facto de sermos a equipa que ganhou o ano passado, seremos o alvo a abater mas queremos vencer”, frisou.

O acordo com o FC Porto

Tudo parecia estar bem até à manhã deste domingo (embora a realidade não fosse essa, como se perceberá mais adiante). Através da Associação Vintagepódio - Clube de Ciclismo, a W52 anunciou que a proposta final para se associar ao Sporting para a próxima temporada velocipédica não pôde ser fechada. “No que se refere às negociações com o Sporting (…), decorreram através de um intermediário, tendo ficado o possível acordo pendente de uma proposta final que nunca chegou a ser concretizada”, lê-se no comunicado da Vintagepódio. que inscreve a W52.

A nota é assinada por Nuno Ribeiro, que confirma que a W52 “tem mantido negociações com vários clubes, incluindo o Sporting”, “com vista a firmar uma parceria para a equipa profissional de ciclismo para o ano de 2016". Ainda sem dar conta do o acordo com o FC Porto, a nota “ressalva a forma como foi recebido pelo seu presidente do Sporting, Bruno de Carvalho, e pelo vice-presidente para as atividades amadoras, Vicente de Moura”.

É nessa tarde de domingo que tudo se esclarece. Quase simultaneamente, o FC Porto dá conta do casamento firmado com a W52 (“numa conjugação de esforços com o senhor Adriano Quintanilha e com o Nuno Ribeiro, o diretor desportivo, conseguimos entre os três um entendimento perfeito e rápido, mas com os pés bem assentes no chão”, afirma Pinto da Costa em declarações ao site do clube e ao Porto Canal).

Quase simultaneamente, os leões referem, também numa nota oficial divulgada no site oficial, a suspensão do acordo com a W52, depois de a equipa de ciclismo não ter esclarecido as dúvidas dos leões quanto a “procedimentos relacionados com análise e controlo antidoping”.

FC Porto paga 180 mil euros/época

O acordo entre o FC Porto e a W52 envolve um pagamento de 180 mil euros por parte dos portistas, segundo apurou o Expresso. A parceria dos leões com a equipa do Sobrado não envolvia qualquer gasto por parte do Sporting, garante Vicente de Moura ao Expresso, sem esconder que “diversos sponsors” do clube estavam dispostos a participar no financiamento da nova formação. “180 mil euros?”, questionámos. “Não, credo!, muito abaixo disso”, afiança o vice-presidente leonino com o pelouro das modalidades, sem querer precisar mais o montante envolvido neste negócio. Ao que apurámos, os leões conseguiriam garantir junto dos seus patrocinadores 120 mil euros para ajudar a pagar cada época.

Na nota em que o Sporting explica o divórcio, o clube refere especificamente que “sportinguistas seguidores da modalidade” avisaram os responsáveis leoninos “de diversos factos e situações que suscitaram e suscitam as maiores e mais sustentadas dúvidas sobre procedimentos relacionados com análise e controlo antidoping por parte dos promotores do projeto”. Ao Expresso, Vicente de Moura limita-se a confirmar que mal se soube da ligação entre a W52 e os leões, na manhã dessa quinta-feira “diversos sócios do clube e órgãos sociais de várias entidades me alertaram para o perigo que corríamos”. Que sócios e que entidades? – quisemos saber. “Fontes credíveis e que me merecem a maior confiança”, responde sem mais detalhes.

À hora de almoço dessa quinta-feira, o antigo presidente do Comité Olímpico falou com Bruno de Carvalho e ficou assente que o processo seria parado e entregue aos assessores jurídicos de Alvalade, os quais não conseguiram obter respostas às dúvidas colocadas junto da W52. Foi por isso, diz Vicente de Moura, que não seguiu para a sede da equipa nortenha o documento oficial que o Sporting ficou de enviar dando carta-branca à W52 para usar o nome e emblema do clube para o processo burocrático ficasse regularizado.

E quanto ao ciclismo no Sporting? A ver...

E agora? “Agora vamos ver”, responde Vicente de Moura, aliviado pelo facto desta parceria não ter andado para a frente. “Até pelo meu passado como dirigente olímpico, em que sempre pugnei pela ética e verdade desportiva, o meu nome não poderia ficar ligado a um projeto com imensos riscos”. E quanto ao futuro, continua a Sporting interessado em fazer regressar o ciclismo às modalidades praticadas pelos leões?

Confessando nada perceber de ciclismo, o dirigente mantém-se disponível pqara nova tentativa. ”Mas aqui falo por mim. Pelos outros não sei. Teremos de sentar-nos à mesa e ver se há condições para atacar noutras frentes. Quem nos garante que os sponsors que tínhamos conseguido juntar à nossa causa continuarão interessados em manter-se nesta aventura? E os sócios, o que pensam também de tudo isto?”, questiona.

Uma coisa garante Vicente de Moura. “A regressarmos ao ciclismo, e há por aí boas equipas sem patrono, será com pessoas de absoluta confiança e dispostas a lutar pelos primeiros lugares e dar a cara pelo bom nome do Sporting e de uma tradição, de que nos orgulhamos, de luta pela verdade no desporto”, conclui.

Até à hora de publicação, o Expresso não conseguiu contactar com Nuno Ribeiro. Em declarações prestadas ao site oficial do FC Porto, confirma o seu portismo e diz estar muito satisfeito: “A nível pessoal, era um sonho que tinha enquanto atleta, visto que sou portista. Enquanto diretor, é bom fazer parte disto e é um marco para o ciclismo, que o FC Porto já não tinha há alguns anos”, confessa.”.

E a finalizar: “Vamos tentar vencer o maior número de provas possível, mas o principal objetivo será a revalidação da Volta a Portugal. A maior parte dos ciclistas vai manter-se, o que vai mudar é a cor dos equipamentos”.