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Fala-me, musa, do homem astuto que tanto deu ao basquetebol

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A cores ou a preto e branco, Kobe Bryant ficará imortalizado na história da NBA

Rob Carr/Getty

Esta é a história do homem que deu tudo ao basquetebol. Mas já não pode mais. A NBA diz adeus ao maior desde Michael Jordan

Mariana Cabral

Mariana Cabral

Texto

Jornalista

Carlos Esteves

Carlos Esteves

Infografia

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“Fala-me, Musa, do homem astuto que tanto vagueou, depois que de Troia destruiu a cidadela sagrada. Muitos foram os povos cujas cidades observou, cujos espíritos conheceu; e foram muitos no mar os sofrimentos por que passou para salvar a vida, para conseguir o retorno dos companheiros a suas casas. ”
Homero, “Odisseia” (tradução de Frederico Lourenço, Cotovia, 2014)

O que é que nos inspira? A pergunta assombra os espíritos criativos desde a Grécia Antiga, altura em que os autores como Homero (e, mais tarde, Virgílio, Dante e tantos outros) invocavam recorrentemente nas suas obras uma entidade mitológica como motivadora de toda a criação: mούσα. Em grego, a palavra não só significa musa, como, de forma mais literal, “poema”.

O que nos traz ao século XXI. A mitologia já não é o que era, mas ainda há quem acredite em musas como inspiradoras de uma vida. Como Kobe Bryant, que lançou, há uns meses, um documentário chamado “Musa” (“Muse”, no original transmitido pela Showtime) e escreveu, esta semana, um poema com o qual se despediu definitivamente dessa mesma musa: o basquetebol.

Dear Basketball,
From the moment
I started rolling my dad’s tube socks
And shooting imaginary
Game-winning shots
In the Great Western Forum
I knew one thing was real:
I fell in love with you.

A love so deep I gave you my all —
From my mind & body
To my spirit & soul.

Aos 37 anos, Kobe Bryant é o único dos jogadores que entraram na NBA no draft de 1996 que ainda se mantém em atividade. Alguns são empresários, treinadores ou professores. Kobe sempre foi basquetebolista. Mas este será o último dos 20 anos de carreira da estrela astuta dos Los Angeles Lakers, que se despede na altura certa: já não é o que era há 15, 10 ou 5 anos e sabe-o.

Bryant ainda tem 64 jogos para disputar esta época (na madrugada de domingo para segunda há Lakers-Hawks), antes de passar definitivamente do banco para a bancada

Bryant ainda tem 64 jogos para disputar esta época (na madrugada de domingo para segunda há Lakers-Hawks), antes de passar definitivamente do banco para a bancada

Mitchell Leff/Getty

Passou os últimos anos a sofrer recorrentemente com lesões e tem esta época a pior percentagem de acerto de lançamentos da carreira. Pior ainda estão os Lakers: até agora, a época conta-se com três vitórias e 15 derrotas. Ou seja, playoffs só na imaginação de cada um dos jogadores, em casa, a decidirem jogos com lançamentos com meias enroladas a fazerem de bolas.

As a six-year-old boy
Deeply in love with you
I never saw the end of the tunnel.
I only saw myself
Running out of one.

And so I ran.
I ran up and down every court
After every loose ball for you.
You asked for my hustle
I gave you my heart
Because it came with so much more.

Apesar de ter nascido em Filadélfia, foi em Itália que Bryant começou a levar o basquetebol a sério. É que o pai, Joe Bryant, era jogador profissional e trocou a NBA por Rieti para continuar a jogar. Com 6 anos, Kobe começava a querer ser como Joe: via vezes sem conta as gravações dos jogos que o avô lhe mandava e dormia vestido para que o pai não tivesse desculpa para não o levar para os treinos matinais.

Aos 13 anos, já fluente em italiano, voltou para os EUA com a família. O choque cultural e linguístico foi grande. “Era um patinho feio”, confessou mais tade. Naquela altura, Kobe só tinha uma amiga: a sua musa. “A única coisa constante que tinha na minha vida era o jogo. Era o meu refúgio. Não interessava se me dava bem ou mal com os miúdos, porque tinha sempre a minha bola. Dava-me muito conforto”.

Kobe via então os “grandes” na televisão, como Michael Jordan, Magic Johnson e Shaquille O'Neal, mas não demoraria muito a juntar-se a eles. “Quero saber como posso ser o melhor do mundo. E, para aprender isso, tenho de estar com os melhores. Os miúdos vão para a faculdade para serem médicos ou advogados ou o que for e é aí que aprendem. O meu lugar para aprender é outro”.

Com 1,98m, Bryant saltava como poucos. Em 1997 ganhou o concurso de “slam dunks” da NBA

Com 1,98m, Bryant saltava como poucos. Em 1997 ganhou o concurso de “slam dunks” da NBA

MATT CAMPBELL

O lugar era, evidentemente, a NBA, onde Kobe entrou em 1996, com 18 anos, acabado de sair do liceu. A equipa? Os Lakers, claro. Mas o início não foi fácil. O puto passou grande parte da época no banco e quando jogou (era então o mais novo de sempre a fazê-lo, com 18 anos e 72 dias), desiludiu nos momentos decisivos. Como nos primeiros playoffs que disputou, contra os Utah Jazz. Lançou quatro airballs, os lançamentos mais humilhantes do basquetebol (que nem sequer tocam na tabela ou no cesto), e os Lakers perderam.

O que poderia deitar abaixo um rookie de 18 anos praticamente sem minutos de jogo, fê-lo mais forte. “Queria mostrar que era melhor do que eles pensavam e levar os Lakers às vitórias”. Porque a vontade indomável de ganhar sempre foi a maior qualidade (e o pior defeito, mas lá chegaremos) de Kobe. “Depois daquele jogo voltámos de avião para Los Angeles e cheguei a casa às 3h da manhã. Peguei numa bola e fui para o liceu em frente à minha casa. Fiquei lá o dia todo a lançar, alheado do mundo”. Mais tarde, Shaquille O' Neal reconheceria a audácia do colega: “Era o único tipo com coragem suficiente para arriscar num jogo daqueles”.

I played through the sweat and hurt
Not because challenge called me
But because YOU called me.
I did everything for YOU
Because that’s what you do
When someone makes you feel as
Alive as you’ve made me feel.

A evolução do puto corajoso foi constante nos anos seguintes, mas passou para outro nível em 1999, quando Phil Jackson assumiu a liderança da equipa. A partir daí, Kobe e Shaquille passaram a formar uma dupla que ficaria para a história. Pelos títulos (2000, 2001 e 2002) e pela inimizade. É que Kobe nunca teve um feitio fácil, porque exigia sempre muito de tudo e todos, e Shaquille já era estrela antes de Kobe sequer pensar que ia entrar na NBA. Mais: Shaquille ganhou os prémios MVP (jogador mais valioso) das finais nos anos dos títulos e Kobe sentia que Phil Jackson (que disse um dia que Kobe era um jogador “uncoachable”, ou seja, impossível de treinar) só queria saber de Shaquille.

A vida de Bryant piorou drasticamente no verão de 2003, quando foi acusado de violação por parte de uma funcionária de 19 anos de um hotel onde estava alojado antes de ser operado a um joelho. Kobe, casado desde 2001 com Vanessa Laine, admitiu a relação sexual, mas negou que tivesse sido forçada. A queixa ficou resolvida fora dos tribunais, com um acordo monetário entre ambos e uma (espécie de) desculpa pública de Bryant. “Apesar de acreditar que o encontro foi consensual, reconheço agora que ela não o viu assim. Depois de meses de leituras, de ouvir o advogado dela e o próprio testemunho que deu, percebo que ela sentiu que não consentiu”.

O caso, amplamente discutido na comunicação social norte-americana, manchou a reputação do jogador que era então admirado por todos e fê-lo perder patrocínios de milhões. “Isso era o mínimo das minha preocupações. Tinha muito medo de ir para a prisão. Eram 25 anos a perpétua, meu. Estava aterrorizado”, confessou este ano à GQ americana.

A carreira de Kobe só voltou a atingir o auge em 2008, quando foi MVP da época, e em 2009 e 2010, quando foi MVP das finais, ao liderar sozinho (bem, Pau Gasol deu uma ajudinha) os Lakers de volta aos títulos. Nascia então uma nova lenda, comparável a Michael Jordan, contra quem chegou a jogar oito vezes.

You gave a six-year-old boy his Laker dream
And I’ll always love you for it.
But I can’t love you obsessively for much longer.
This season is all I have left to give.
My heart can take the pounding
My mind can handle the grind
But my body knows it’s time to say goodbye.

Só que o corpo não aguenta tudo. Bryant não o sabia, mas o jogo de 13 de abril de 2013, contra os Golden State, marcaria o início do fim da sua carreira. Numa jogada aparentemente inofensiva, sofreu uma falta, escorregou e foi ao chão. Tinha acabado de rasgar o tendão de Aquiles no calcanhar esquerdo - a mesma lesão que tinha terminado a carreira de Shaquille.

Só que Kobe é Kobe e Kobe é resiliência. Aquele minuto (tão bem retratado em “Muse”) resumiu-lhe a carreira: mesmo com o calcanhar desfeito, levantou-se, pegou na bola e acertou os dois lançamentos livres marcados pelo árbitro. Depois, coxeou até ao balneário e chorou.

And that’s OK.
I’m ready to let you go.
I want you to know now
So we both can savor every moment we have left together.
The good and the bad.
We have given each other
All that we have.

Podia ter sido o fim, mas não foi. Os meses de fisioterapia, em que passava horas a levantar berlindes com os dedos do pé esquerdo, permitiram-lhe recuperar a forma física e voltar na época seguinte. A 14 de dezembro do ano passado, deixava a última grande marca na história do basquetebol, ao ultrapassar o terceiro melhor marcador da NBA, Michael Jordan, que tinha 32292 pontos.

Depois, uma lesão no ombro voltou a deixá-lo fora de campo por nove meses. Regressou esta época, sem brilho. Começou a colecionar airballs e a pena de quem o viu nos tempos áureos. E, por isso, esta semana, confirmou a saída que estava anunciada desde 2013.

Bryant sabe que vai passar os restantes jogos da época a dizer adeus a adeptos e colegas. É a despedida de um grande

Bryant sabe que vai passar os restantes jogos da época a dizer adeus a adeptos e colegas. É a despedida de um grande

Rob Carr/Getty

Não conseguiu ultrapassar o recorde de títulos de Jordan (ficou com 5 e Jordan com 6) e já tem LeBron James à perna em algumas das suas marcas, o mesmo rapaz a quem um dia ofereceu uns ténis. “No liceu eu usava o cabelo num penteado afro só porque o Kobe o usava. Queria ser exatamente como ele, meu. É verdade que sempre disse que a minha inspiração vinha de Jordan, mas ele sempre foi tão fora deste mundo que nunca pensei que alguém pudesse ser como ele. Mas o Kobe era alguém que eu achava que também podia ser. E queria ser melhor por causa dele”, disse LeBron quando questionado sobre a retirada de Bryant, num discurso emotivo que durou quase cinco minutos.

O último jogo de Kobe Bryant (cujos preços de ingresso já triplicaram desde o anúncio da retirada) está marcado para 13 de abril de 2016, no Staples Center, contra os Utah Jazz. Sim, os mesmos Jazz contra quem Bryant lançou quatro airballs em 1997. Algo que é possível que volte a acontecer em 2016. Mas a musa de Kobe perdoar-lhe-á. Porque vai perder um dos melhores artistas que já teve.

And we both know, no matter what I do next
I’ll always be that kid
With the rolled up socks
Garbage can in the corner
:05 seconds on the clock
Ball in my hands.
5 … 4 … 3 … 2 … 1

Love you always,
Kobe