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Tyson Fury: O nome diz tudo

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APERTEM O CINTO. Esta vai ser uma longa viagem, parece dizer Fury

Lee Smith / Reuters

Quem é pugilista cigano que chocou o mundo ao bater Klitschko para se tornar no campeão do mundo de pesos-pesados

Logo nas primeiras linhas que li sobre Tyson Fury fiquei com a impressão que estava com o rascunho do guião para o “Snatch - Porcos & Diamantes” na mão. É óbvio, por razões físicas, que, nesta versão do filme, Tyson Fury não é Mickey O'Neil (Brad Pitt), e está mais próximo de Gorgeous George (Adam Fogerty), o primeiro tipo a quem a personagem de Pitt dá uma esfrega num ringue de boxe rudimentar, no acampamento de ciganos.

Tal como Mickey O'Neil, Tyson é cigano, tem sangue irlandês, ganha a vida com os punhos e é um tipo duro, que nasceu numa família de durões que o adula e adora. Mas Tyson não vive numa roulotte, embora diga que não teria problema algum em fazê-lo, como o seu pai e ídolo, John Fury, fez no tempo dele. Aliás, agora que penso nisto, este artigo sobre Tyson deveria ter começado com John, o verdadeiro Mickey O'Neil, sem a pinta e o charme de Brad Pitt, mas com os nós dos dedos inchados dos socos que deu.

No dia em que Tyson Fury nasceu, três meses antes do tempo e com 450 gramas, John pô-lo na palma da mão e disse: “Este vai ser campeão do mundo de pesos pesados.” John deu-lhe o nome Tyson porque, em 1988, Mike Tyson era Mike Tyson; e, porque John era um pugilista amador, que começara a fazer uns cobres em lutas clandestinas, sem luvas, enquanto vendia carpetes e alcatroava estradas com o irmão, Peter, também ele dado à arte nobre. John e Peter eram cristãos mas não davam a outra cara e subiram na vida com o orgulho e contra o preconceito. “Mas ainda bem que os nossos filhos não foram por esse caminho. Antigamente, andávamos ao soco. Hoje, podem disparar sobre ti ou esfaquear-te”, disse John ao “Guardian”.

Tyson Fury nunca andou à zaragata fora dos ringues, até porque lhe seria difícil encontrar alguém à sua altura. Ele tem 2,06 metros e hoje pesa 117 quilos. É gigantesco. O pai reconhece que vê-lo crescer foi uma aventura que pareceu não ter fim, pois o filho não parava de somar centímetros e gramas ao corpo.

Estava destinado a ser pugilista e Tyson não quis contrariar a sua natureza e expôs-se ao boxe desde muito cedo – aos 14 anos partiu as costelas ao pai num treino. Mais tarde, foi medalha de bronze nos Mundiais de Juniores de 2006, em Marrocos, na mesma altura em que terá conhecido a mulher, Paris, com quem passou a lua de mel em Portugal. Na cabeça dele, estava o oráculo do pai: ser campeão do mundo.

Fury, que “nunca fugiu de um combate”, foi fazendo o seu caminho em Inglaterra, derrotando alguns norte-americanos e o inglês David Chisora, para fazer jus ao apelido que transporta. Com o nome estabelecido, Tyson começou por rondar Wladimir Klitschko, a irritá-lo, a dizer-se preparado para enfrentar o homem que não perdia desde abril de 2004. E, quando enfim conseguiu o que queria, um lugar no mesmo ringue que Klitschko, venceu-o.

Rolf Vennenbernd / Reuters

Porquê? Porque é mais novo, claro, e porque pela primeira vez o ucraniano encontrou alguém maior, com mais alcance e com a mesma paciência. O combate foi chato e tático, de toca-e-foge, a léguas do interesse que os dias que o antecederam fariam supor. Basta lembrar que Tyson se vestiu de Batman e bradou “coisas estúpidas”, palavras dele, nos habituais mind games que antecedem os combates. “Wladimir”, confessou ele, após 'roubar-lhe' os cintos de campeão WBA, IBF e WBO, “és um grande campeão e obrigado por me dares esta hipótese.”

Nos dias que se seguiram, porém, o assunto não morreu. Isto porque na cláusula de Klitschko estava incluído um rematch e é preciso apimentar a coisa. E Tyson voltou à carga, e revelou que Klitschko fez de tudo para entrar na sua cabeça, até usou palmilhas na pesagem para parecer mais alto. “E tive a dica para não tocar na água que me foram dando, porque podia estar envenenada. Aliás, depois do combate, só bebi água quando cheguei a casa, não fosse a garrafa ter alguma droga que me tramasse no controlo antidoping. Toda a gente os conhece, são batoteiros.”

Tyson garante que não é, porque não se esquece das suas raízes. Diz que se entregou à família e a Deus, e que o único livro que tem à cabeceira é a Bíblia do Rei Jaime. “E se Ele está comigo, quem poderá estar contra? Ninguém”. É um tipo frugal, que usa as mesmas meias brancas Slazenger e não gasta o dinheiro que ganha em trivialidades. É cigano, sim, mas não é o cigano que está na televisão, naqueles “programas que ridicularizam” e retratam “os viajantes como porcos.” Como o “Snatch”.