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Kobe Bryant: um poema (e 50 afundanços) para o adeus

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Tido como um dos maiores jogadores de sempre, jogou durante vinte anos na mesma equipa e nunca quis outra. Uma das lendas do nosso tempo vai deixar o que o tornou mito: a NBA

Luís M. Faria

Jornalista

Uma relação de duas décadas não é fácil de terminar, mesmo no desporto profissional, uma área onde o fim da juventude implica normalmente… o fim. O basquetebolista Kobe Bryant durou mais que muitos e teve mais êxito do que grande parte dos colegas. No ano passado, tornou-se o terceiro maior marcador de sempre da NBA, ultrapassando o lendário Michael Jordan. Dezassete vezes All-Star, com cinco campeonatos no palmarés, é o jogador da liga que fez mais temporadas ao serviço do mesmo clube: os LA Lakers. Sempre disse que jamais mudaria para outro e cumpriu. Este fim de semana, anunciou que se vai retirar da NBA no fim da presente temporada.

O anúncio não foi feito num programa de televisão ou nos jornais, ou sequer durante uma aparição pública. Bryant escreveu um poema e publicou-o no Player's Tribune, um site criado há uns anos para os jogadores falarem diretamente aos seus fãs. O texto é dirigido formalmente ao próprio basquetebol, cuja descoberta na infância o jogador recorda, concluindo que já não consegue "continuar a amá-lo obsessivamente. Esta temporada é tudo o que tenho para dar. O meu coração pode aguentar os golpes. A minha mente pode lidar com o esforço mas o meu corpo sabe que é tempo de dizer adeus. E tudo bem".

"Estou pronto para te deixar ir", continua. "Quero que saibas agora. Para ambos podermos saborear cada momento que nos resta. O bom e o mau. Demos um ao outro todo o que temos". Uma cópia do poema foi entregue às pessoas que assistiram ao jogo de domingo no estádio dos Lakers, que a equipa perdeu.

MICHAEL NELSON / EPA

A generalidade dos comentadores parece aprovar a decisão, embora alguns digam que o jogo nunca mais será igual. Mas a situação era clara. Os Lakers há muito que tinham perdido o domínio na modalidade e um dos seus principais problemas era justamente Bryant, cuja proeminência impedia uma geração jovem de se desenvolver plenamente - até porque a equipa era construída à volta dele.

A natureza da sua relação com a equipa era quase única. Filho de outro jogador da NBA que a certa altura teve de emigrar para Itália para poder continuar a sua carreira antes de regressar aos EUA com a família, Bryant sabia três línguas e nunca quis fazer mais nada senão jogar. Passou diretamente do liceu para NBA em 1995, aos 17 anos. Foi logo para os Lakers, e nunca saiu. A equipa deve-lhe uma época de ouro, na primeira década do século XXI. Nem o seu temperamento tido como problemático, que se manifestou numa famosa rivalidade com o seu colega de equipa Shaquille O'Neal e em acusações de violação (ele e a sua acusadora chegaram a acordo fora do tribunal, ele admitiu que podia ter interpretado mal o alegado consentimento dela), o impediu de continuar a ser estimado pelos fãs.

A fidelidade aos Lakers manteve-se mesmo durante os últimos anos, quando lesões o obrigaram a terminar mais cedo a temporada. E o próprio Bryant garantia que mesmo nas dores que ele sofria havia beleza. "É importante atravessar essa progressão, porque acho que é onde aprendemos realmente sobre nós próprios".

Nos últimos anos, porém, dava a entender que o seu estado de espírito tinha mudado, e talvez estivesse prestes a retirar-se. Durante quase toda a carreira, os pensamentos acabavam sempre por ir ter ao basquetebol, mas agora isso já não acontecia sempre. Só às vezes. "Isso foi a primeira indicação de que este jogo não é algo sobre o qual eu possa continuar a obcecar-me por muito mais tempo." Dito isso, admite que seria uma honra tentar obter a sua terceira medalha de ouro nos Jogos Olímpicos do Rio em 2016.

PAUL BUCK / EPA