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Ao menino Jesus, põe Tonel a mão por baixo

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José Sena Goulão/ Lusa

Sporting vence Belenenses (1-0) com golo de William após penálti cometido por Tonel

Dos dérbis espera-se sempre qualquer coisinha mais, porque entram em campo os que cá estão e os que cá estiveram, e recuperam-se histórias e históricos, números e estatísticas , do tempo da outra senhora e dos senhores que se lhe seguiram. Mas, convenhamos, tudo isto é estéril, quase inútil, porque os dérbis já não são dérbis - quando muito, há um dérbi, e, por mais que custe, não é o Sporting-Belenenses.

O Sporting-Belenenses é um jogo entre duas equipas que por acaso jogam na mesma cidade e por isso se dizem vizinhas e a rivalidade é íntima da proximidade, porque, de outra forma, não invejaríamos a galinha da porta ao lado, mas sim a que está a quarteirões de distância. O que sucede entre sportinguistas e adeptos do Belenenses (e benfiquistas e adeptos do Belenenses), é que quando os primeiros espreitam por cima da cerca para o quintal do lado, veem pouco ou nada que queiram para eles.

RAFAEL MARCHANTE/ Reuters

Sim, é incrível ver uma equipa portuguesa com nove jogadores portugueses e outros dois que seriam portugueses (Luís Leal, de São Tomé; Kuca, de Cabo Verde) , lá está, no tempo da outra senhora. E, sim, é incrível o reaparecimento do clube que muitos viram como quase defunto a jogar na Europa e com hipóteses (matemáticas) de passar à fase seguinte da Liga Europa. Mas a diferença é abissal e indo diretamente ao osso, onde dói, deixamos o seguinte registo: o Belenenses chegou a Alvalade com 22 golos sofridos, 14 deles contra dois grandes (Benfica e FC Porto) e um emblema de porte médio (SC Braga) que anda num lugar que já foi dele.

Porquê? Porque o plantel é curto e o futebol também é curto. O Belenenses de Sá Pinto é teimoso e tenaz, e corre como Sá Pinto corria; mas ao Belenenses falta-lhe os pezinhos que o treinador tinha. É meia equipa, meio corpo, que consegue defender quando se põe todo atrás da linha da bola, sem criativos no meio campo (Ricardo Dias, André Sousa, Ruben Pinto), e ataca raramente e sempre pelos três velocistas da frente (Luís Leal, que está com uns quilinhos a mais; Sturgeon e Kuca). Cada um joga com as armas que tem, obviamente, e Sá Pinto, que saíra da Luz, do Dragão e da Pedreira com três goleadas, decidiu deixar o talento (Carlos Martins ou Tiago Silva) no banco e apostar no músculo.

E a coisa resultou, porque o Sporting entrou bem mas foi amolecendo e deixando-se estar e tudo o que há a recordar da primeira parte tem o pé esquerdo de Bryan Ruiz, em dois lances. De resto, o dérbi-que-já-não-é-dérbi foi um bocejo, que é aquilo que o cérebro nos manda fazer para não adormecermos.

José Sena Goulão

Eu, por exemplo, fui despertado com uma mensagem que me pôs a pensar: "Este é o Sporting que deu baile ao Benfica?" Os jogadores são os mesmos, o treinador é o mesmo, portanto: "Sim, é o Sporting que deu baile ao Benfica".

Mas não era. Este Sporting é como aquele Benfica de Jesus, que tem oscilações exibicionais quando não arranca bem e na frente do marcador frente aos mais fracos [já vos disse que este não é um dérbi, não disse?]. E isto é mais verdade na ressaca de um jogo na UEFA que se jogou para ganhar, como se todas as energias e ideias se esgotassem à quinta-feira e fosse preciso um choque vitamínico à segunda-feira.

Quando essa dose extra não chega, mesmo com Gelson, Matheus e até Tanaka, é preciso confiar que alguém lá em cima meta a mão ao menino Jesus por baixo. E como Deus tem caminhos misteriosos, eis que Tonel, aquele que a Juve Leo dizia resolver tudo à cabeçada, pôs os cinco dedos na testa de Slimani e cortou a bola em falta. Foi penátli. E William resolveu.