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Sporting-Benfica. O tempo perguntou ao tempo quanto tempo Rui Vitória tem

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MARIO CRUZ

Demorou algum tempo - 120 minutos - mas o Sporting de Jesus voltou a derrotar o Benfica de Vitória, desta vez na Taça de Portugal: 2-1

Antes de irmos ao futebol, comecemos por uma lição de português (já costuma dizer o professor Manuel Sérgio que "quem só sabe de futebol nem futebol sabe"), daquelas que toda a gente sabe dos tempos da escola. Pergunta: o que é um "trava-línguas"? Resposta: é uma frase de difícil pronunciação que ajuda a favorecer a dicção e a expressão. Como esta, por exemplo: "O tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem. O tempo respondeu ao tempo que o tempo tem tanto tempo, quanto tempo o tempo tem".

E por que é que o trava-línguas é para aqui chamado? O Ciberdúvidas explica: "Está a (...) ser matéria adoptada em várias estâncias no capítulo da auto-estima. Pessoas que querem perder o medo de se expor, de errar, que têm acanhamento, timidez e vergonha de se comunicar estão aprendendo a se soltar com a utilização de trava-línguas. É fundamental para o desbloqueio da expressão, para ajudar os interessados em soltar a língua e aprender a falar bem nas relações pessoais e nas profissionais."

Por esta altura, o leitor repetirá: e o que é que isso interessa? Agora explico eu: a rábula "falas tu-falo eu-falamos nós" do horário das conferências de imprensa de antevisão do terceiro dérbi da época (o Benfica marcou para as 19h, o Sporting marcou para as 19h30, mas depois o Benfica tanto atrasou o início da conferência que Rui Vitória só começou a falar depois de Jorge Jesus) é um espelho do que é o Benfica desta época, liderado por Rui Vitória. Que é como quem diz uma equipa sem iniciativa, na expectativa, que segue sempre atrás de outra. De outra, qual? Do Sporting de Jorge Jesus, pois claro.

Apesar de ter entrado bem no jogo desta noite em Alvalade, imitando a eficácia do Sporting no jogo da Luz ao marcar logo aos 6' (grande variação do centro do jogo de Gaitán da direita para a esquerda que Pizzi amorteceu e Mitroglou finalizou), o Benfica pouco mais mostrou depois disso.

Dadas as limitações físicas de Jonas, Vitória aproveitou para deixar Mitroglou sozinho na frente, pôr Gaitán como "vagabundo", Talisca e Samaris no meio e Guedes e Pizzi nas alas, a equilibrar atrás sempre que necessário. O que se seguiu foi mais uma demonstração de um conjunto com poucas ideias em termos ofensivos, sempre na expectativa em termos defensivos. Tanto até que o árbitro Jorge Sousa teve de repreender Júlio César por demorar muito tempo num pontapé de baliza quando ainda nem tinham passado 20 minutos de jogo.

O Sporting, como tem sido habitual nos dérbis com Jorge Jesus, dominou, ainda que tenha demonstrado alguma dificuldade em criar desequilíbrios na frente. Montero (Teo ficou no banco) tentava pegar na bola entre a linha defensiva e a linha média do Benfica, mas o espaço era curto, pelo que o perigo surgia invariavelmente quando o (incansável) Slimani procurava a profundidade, especialmente na zona entre Luisão e Sílvio.

Foi exatamente por aí que surgiu o empate, já em cima do intervalo. Júlio César precipitou-se ao meter-se num duelo entre Slimani e Luisão e a bola acabou por sobrar para Adrien, que fez o 1-1 dentro da área.

O empate poderia indicar uma 2ª parte animada, mas o que se seguiu foi pouco emocionante, com exceção dos últimos minutos do jogo, altura em que o Sporting esteve mais perto do golo (pelo meio houve também uma simulação de penálti de Gaitán, que podia ter marcado, se quisesse; e outra de Slimani).

O dérbi foi para prolongamento, sempre com o Sporting por cima e o Benfica a mostrar poucochinho. O tempo já escasseava, mas, aos 112 minutos, Slimani (quem mais?) fez o 2-1 que já se antevia.

O que nos leva novamente ao trava-línguas. Entre as banalidades que costuma repetir invariavelmente nas conferências de imprensa ("seguimos o nosso caminho; se fosse fácil não era para nós"), Rui Vitória pediu tempo para impor as suas ideias numa equipa que já levava seis anos do modelo 4-4-2 de Jesus. O problema é que o Benfica desilude no campeonato e já está fora da Taça (e o Sporting de Jesus segue no caminho oposto). O tempo não tem assim tanto tempo e Vitória precisa de destravar a língua. Antes que Vieira responda que Vitória já não tem tempo.