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França-Alemanha: Eles acharam que eram petardos. Lá fora, explodiam bombas

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Jogadores no túnel, fãs no relvado, a morte na rua.

FRANCK FIFE

Foi durante este amigável que se sentiram as explosões. Do jogo ninguém se quer lembrar. Nem Griezmann, o futebolista francês cuja irmã estava no Bataclan quando se deu o massacre. Entre os mortos, junto do Stade de France, há um português, de 63 anos

Um França-Alemanha é um clássico do futebol e, até ontem, os dois países já tinham jogado 26 vezes, os franceses com 11 vitórias, os alemães com nove, e seis empates para cada um.

Vamos deixar as contas como estão. Porque seria estúpido atribuir um triunfo à França ou uma derrota à Alemanha, num jogo em que todos nós perdemos. Num jogo que nunca aconteceu, apesar de ter chegado ao fim, com um golo de Giroud e outro de Gignac. Um jogo em que se ouviram duas explosões, antes do intervalo, e que foram tomadas por petardos, aos quais os adeptos responderam com o cântico "às armas, que nós somos franceses", desconhecendo que, lá fora, havia gente ferida, em vias de morrer, ou morta.

Simon Kuper, cronista do Finantial Times, um inglês nascido no Uganda e que vive em Paris, estava lá e escreveu que só duas horas depois da hora e meia do jogo se apercebeu do que acontera.

Não havia rede, 3G, 4G, internet, e o público desceu ao relvado. Pela primeira vez Kuper pensou que, talvez, talvez, fosse boa ideia deixar França. A França do Charlie Hebdo, do Stade de France e do Bataclan.

No Bataclan estava a irmã de Antoine Griezmann, o francês que joga no Atlético de Madrid, que fora ouvir e ver os Eagles of Death Metal e o Josh Homme. Ele não sabia dela e só esperava que ela estivesse bem. Às 02h30 de Paris, Griezmann escreveu um tweet: "Graças a Deus, a minha irmã conseguiu sair." Antoine foi titular no França-Alemanha, mas disso já ninguém se quer lembrar. É irrelevante.

"Estamos todos chocados", disse Joachim Löw, seleccionador alemão. Oliver Bierhoff, diretor desportivo da Alemanha, contou que os futebolistas se agarraram aos telemóveis e ligaram para casa a sossegar mães, pais, mulheres, namoradas, filhos e filhas.

A vida tem destas coisas: horas antes, a equipa alemã tivera de ser evacuada do hotel onde estava, por causa de uma ameaça de bomba; horas depois, acabou por ficar retida no Stade de France por razões de segurança.

A bola é redonda, são onze contra onze, mas nem sempre ganham os alemães. Nem os franceses. Ou nós.

Cronologia de um atentado
Ocorreram três explosões perto do Stade de France: a primeira, às 21h17, a segunda, às 21h30, a terceira, às 21h57. Nas bancadas estava François Hollande, a quem lhe foi segredado o que estava a acontecer um pouco antes do intervalo. O presidente francês foi evacuado, discretamente, e o jogo continuou até ao apito final. Jogadores e adeptos só se aperceberam do que acontecera após os 90 minutos. Os futebolistas ficaram presos aos ecrãs nos túneis de acesso; os fãs, retidos no centro do relvado, enquanto a polícia tenta assegurar uma saída segura. Pelo menos uma dezena de pessoas foi ferida ou morta (há um português entre as vítimas) neste triplo atentado suicida protagonizado por jiadistas junto do estádio.