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Teresa Abraços: “Não é por deixar de competir que a paixão pelo surf acaba, antes pelo contrário”

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André Carvalho/D.R.

Teresa Abraços foi uma das primeiras mulheres a fazer surf em Portugal. Em 1996, um ano depois de ter sido criado o circuito de surf feminino, foi campeã nacional. Apesar de já não competir, o surf continua a fazer parte da sua vida

Helena Bento

Jornalista

Teresa Abraços, 48 anos, foi uma das pioneiras do surf feminino em Portugal. Integrou a seleção nacional e participou em vários campeonatos europeus e mundiais. Em 1996, foi campeã nacional de surf feminino. Afastou-se das competições há muitos anos, mas continua a dedicar a sua vida ao surf. Entre outras atividades, faz voluntariado na Associação Portuguesa de Surf Adaptado (SurfAddict), que foi fundada em 2009 por Nuno Vitorino, um antigo nadador paralímpico, e que tem como missão levar pessoas com deficiência à praia e ensiná-las a deslizar nas ondas, proporcionando-lhes um dia e uma experiência diferentes. Costuma dizer que "não é por deixar de competir que a paixão pelo surf acaba, antes pelo contrário", e que os troféus "ficam muito bem lá em casa, nas prateleiras", mas que há outras coisas que a preenchem muito mais do que isso.

Teresa começou a surfar há cerca de 30 anos. A história pode ser resumida assim: numa das idas à praia com os pais pegou no seu colchão insuflável e foi para o mar deslizar nas ondas. Depois, tentou pôr-se de pé no colchão e caiu e voltou a tentar pôr-se de pé e a cair novamente. Tinha decidido que não ia desistir enquanto não conseguisse aguentar-se lá em cima. Ao fim de algumas tentativas lá conseguiu, e com tanta agilidade que o nadador-salvador que estava a vigiar a praia (praia da Poça, no Estoril, e o nadador era o bisavô do jovem surfista Vasco Ribeiro) dirigiu-se aos seus pais dizendo-lhes que deviam oferecer uma prancha à filha, porque ela parecia ter jeito para surfar. Como na altura não havia lojas de surf em Portugal, Teresa teve de esperar por uma ida ao Brasil para comprar a sua primeira prancha. Assim que a teve nas mãos pôs o colchão de lado - e os treinos de ginástica artística, que praticava desde miúda - e nunca mais parou de surfar. "Foi quase o meu ato de rebeldia", diz.

Teresa é da altura em que o surf "estava muito associado ao consumo de drogas e ao ócio". Da altura em que a única revista de surf a que se tinha acesso era brasileira e chegava a Portugal com seis meses de atraso. E da altura em que ir para a praia com uma prancha debaixo do braço significava ser olhado de esguelha, sobretudo no inverno, em que não se via vivalma na praia e o "ambiente era hostil". Por isso, a sua decisão não foi bem aceite pela maioria das pessoas, mas ela não desistiu, nem quando foi para a faculdade estudar literatura alemã e inglesa. Recortava e colecionava "religiosamente" as raras fotografias de mulheres surfistas que essa tal revista brasileira publicava e ia para a praia, sozinha, imaginando-se uma delas, e "rezando a Deus para que alguém chegasse" e a acompanhasse naquela loucura.

Na altura, usava um fato que era tão duro que lhe prendia os movimentos na água. Lembra-se também de demorar várias horas para conseguir ir do Estoril até à praia do Guincho. Como era proibido levar pranchas no comboio, tinha de ir a pé até Cascais e lá apanhar uma camioneta para o Guincho, que passava de duas em duas horas. Quando finalmente chegava à praia a probabilidade de ter de voltar logo para trás era enorme, já que não havia forma de saber antecipadamente como iria estar o mar. Chegava também a fazer esse percurso de bicicleta, com uma mão no guiador e outra a segurar a prancha.

Quando Teresa começou a competir ainda não havia um circuito de surf feminino. As raparigas participavam nas mesmas competições que os rapazes e aquela que conseguisse aguentar-se mais tempo em prova sagrava-se campeã nacional. Apesar disso, o ambiente era "super descontraído". "Às vezes lá conseguia vencer um heat contra os rapazes e então era um escândalo", diz, rindo-se. Em 1995, foi criado finalmente um circuito feminino e no ano seguinte Teresa foi campeã nacional. Costumava disputar o título com outra surfista, Patrícia Lopes. Ora era primeira, ora era segunda, mas no fim era quase sempre a sua adversária que vencia os campeonatos. Apesar de rivais, eram muito diferentes uma da outra. Alguém dizia que Patrícia era a atleta, a competidora, sempre muito focada nas competições e nos resultados, e que Teresa era a apaixonada. Ela não desmente e diz que "sempre levou a competição mais na brincadeira". "Podia perder, mas desde que conseguisse apanhar umas ondas já ficava contente".

"Uma prancha de surf, mais do que uma máquina fotográfica, é uma arma excelente"

Enquanto fala, Teresa vai folheando o álbum de fotografias que pousou em cima da mesa assim que nos sentámos a conversar no bar do hotel, em Peniche. Fá-lo devagar, muito devagar, como se visse cada fotografia pela primeira vez. São Tomé e Príncipe, Senegal, Venezuela, Gana, Moçambique. Teresa trabalha na TAP desde que terminou a faculdade e em 2009 começou a organizar viagens com o objetivo de levar o surf a locais onde ele não é conhecido, apoiadas pela companhia aérea. "A ideia é divulgar esse destino não só do ponto de vista turístico, como também do ponto de vista do surf", explica. No início, viajava acompanhada por um cameraman, um fotógrafo e dois surfistas profissionais. Ultimamente tem ido só com o marido, também ele apaixonado por surf.

A primeira viagem foi a Santana, em São Tomé e Príncipe, e é lá que tem voltado todos os anos. Deixou-se encantar pela "beleza, segurança e simpatia do povo". "As pessoas são muito comunicativas e dóceis. Consegue-se estabelecer ali uma relação muito próxima com a comunidade". Apesar de noutros países não ter conseguido comunicar logo com as pessoas assim de uma forma tão espontânea, como o Senegal e Costa do Marfim, onde, por exemplo, "os mais pequenos só aprendem a falar francês assim que começam a ir à escola", Teresa diz que nunca teve dificuldade em interagir com as populações locais, porque uma prancha de surf, mais do que uma máquina fotográfica nas mãos de um turista, "é uma arma excelente" para conseguir chegar às pessoas. Os mais pequenos aproximam-se, querem tocar na prancha, perceber para que serve e como se usa, e depois vão surgindo outras pessoas, mais velhas. Teresa explica, empresta a prancha ou então mostra como é que se faz. Às vezes ajuda os mais pequenos a subir e fá-los deslizar lentamente pela água para se irem habituando à sensação. Tem sido sempre assim. "O surf é uma arma tão potente que eu sinto que consigo comunicar com as pessoas até através de sorrisos", diz.

Campeonato nacional de surf em Santana

Uma das fotografias do álbum mostra uma tábua de madeira lascada. Teresa explica que foi tirada durante a sua primeira visita a Santana, e que aquela fora umas das tábuas usadas pelos miúdos que, ao vê-la surfar, quiseram imitá-la dentro de água. Foi o caso de Jejé, que apanhou as primeiras ondas com uma das ripas de madeira de que era feita a sua casa e agora é um "grande talento". Foi ele que venceu o último campeonato nacional de surf que Teresa e outros dois surfistas portugueses a viver na região têm organizado ali. Jejé é apaixonado por surf. Acompanha o campeonato mundial pela internet e sabe o nome de todos os surfistas do circuito mundial. Uma vez, quis mostrar a Teresa que estava cada vez mais parecido com o surfista Mick Fanning. "Teresa, Teresa, olha a paulada à Mick Fanning", gritava-lhe, enquanto tentava imitar o australiano.

Teresa explica que o objetivo das suas visitas àquela região de São Tome e Príncipe foi, desde o início, conseguir "proporcionar um modo de vida através do surf" e fazer com que aqueles miúdos, que crescem quase sempre desamparados e sozinhos, e com "perspetivas de emprego praticamente nulas", desenvolvam projetos e negócios através do surf. Seja abrir uma escola de surf, seja alugar pranchas ou dar aulas a turistas. "Basicamente, deixou de fazer sentido para mim ir numa surf trip só para apanhar as minhas ondas. Sinto que tenho de fazer mais qualquer coisa", diz.

"Há cada vez mais surfistas em São Tomé e o nível deles já é bastante bom"

Outra fotografia tirada em Santana mostra um grupo de jovens alinhados vestindo calções coloridos e agarrados a pranchas. Com o apoio de algumas empresas e da Plataforma Essência, de que é embaixadora, Teresa tem levado material para as escolas da região, desde cadernos e canetas, para incentivar os mais novos a ir à escola e mostrar que "as aulas são importantes", a material de surf, como pranchas e calções. Diz que não gosta de simplesmente dar as coisas e que por isso inventa sempre uns jogos para premiar os rapazes de forma simbólica. "Eles vivem numa zona em que a natureza lhes dá tudo. Se têm fome, trepam por um coqueiro ou apanham fruta. Não têm de se esforçar muito para sobreviver, apesar das muitas carência que têm ao nível da saúde. Sempre fiz questão de lhes incutir certos valores e hábitos que acho que são úteis para o dia a dia e que podem até vir a ajudá-los a ter um emprego dito normal", explica.

Teresa diz que muitas coisas mudaram desde a sua primeira viagem a São Tomé e Príncipe. "Há cada vez mais surfistas e o nível deles já é bastante bom". Continua a folhear o álbum e detém-se numa fotografia que mostra um miúdo agarrado a ela. Os dois estão sentados numa prancha azul à beira-mar. O rapaz é Erlander, sobrinho de Jejé, e a fotografia capta o momento em que pela primeira vez, e ao fim de muitos anos, Erlander saiu de trás dos coqueiros onde se escondia com medo do mar e deixou-se levar por Teresa até à água. "Comecei a puxá-lo muito devagar enquanto fazia brincadeiras na areia ou com uma bola, e aos poucos ele foi cedendo". Teresa diz que este é um dos outros lados do surf que quer continuar a explorar. "Há surfistas que só competiram e arrumaram a prancha e outros que só foram freesurfers. Eu gosto de sentir que estou a viver os vários lados do surf, e tudo o que houver para viver no surf, e com o surf, eu vou tentar".

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