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Benfica: misteriosos são os caminhos do mister

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José Sena Goulão/Lusa

Rui Vitória insiste que o Benfica está no caminho e que desse caminho não se desvia no futuro. Só que há dois caminhos no clube: o da Liga, que anda torto, e o da Champions, que vai a direito. Esta noite, 2-1 ao Galatasaray e o apuramento à mão de semear.

Pode um melhor jogador da equipa ser o pior jogador para a equipa? Pode se se chamar Jonas e se só conseguir jogar com companhia ao lado. E se há um avançado que é um monstro e precisa de amigos, isso obriga toda uma equipa a organizar-se para tê-lo lá dentro. Isto não tem mal nenhum, acontece e já aconteceu antes, e o Jonas não é caso único, como o António Tadeia disse na RTP, quando lembrou que o Paulo Bento tinha de pôr nove tipos ao jeito do Liedson, para que o brasileiro não andasse lá à frente sozinho.

E é aí que se vê a arte do treinador. Com Jesus, Jonas estava ao lado de Lima e a coisa funcionava, porque o Benfica de J.J. jogava de uma forma que este não joga: curtinho e juntinho, como se fosse cosido numa linha invisível, com um médio a fazer de trinco (Samaris), outro a levar a bola (Pizzi ou Talisca), e muito (mas mesmo muito) mais jogo interior e de tabelas.

E, depois, o Benfica de J.J. tinha Maxi (que o Benfica nunca mais terá) e Salvio (que o Benfica terá, resta saber em que condições). Obviamente, a ausência destes dois serve de atenuante para este Benfica de Rui Vitória, que, para o bem e para o mal, é diferente.

O que Rui Vitória faz para arranjar espaço é pôr a equipa estendida como um cobertor, a tentar ocupar cada espaçozinho do relvado: os laterais na linha, os extremos na linha, os dois médios na mesma linha e os avançados idem. Diz ele que este é o seu caminho, sendo que o caminho deste Benfica se faz pelos lados, à esquerda e à direita, e pouco pelo centrão.

A teoria é simples: se o adversário tiver de andar sempre ó tio, ó tio a tentar estar onde o futebolista do Benfica está (basicamente, em todo o lado), a probabilidade de se abrir um buraco é maior. Até aqui, tudo bem, não fosse o problema da previsibilidade e da dependência no talento individual de Gaitán e de Guedes, e no trabalho de sapa de Talisca e André Almeida, que pouco mais fazem do que dar cobertura a quem sobe. Já reparou que esta é a melhor época de Gaitán e uma das piores do Benfica na Liga? Pois.

E é agora que o leitor me chama à pedra e me responde à letra:
- Então mas o Benfica não acabou de ganhar ao Galatasaray?

É verdade, sim senhor, mas também há duas explicações para isto e a primeira é esta:

O Galatasaray - como é que eu posso ser simpático? - defende mal. Defende bem pior do que o Benfica e, sobretudo, defende muito pior do que aquilo que o treinador turco disse da defesa do Benfica.

Os turcos dão espaço, não pressionam, gostam de ir ao homem, buscam o contacto e a picardia, fazem faltas perto da grande área (pondo-se a jeito) e defendem lá atrás (o que dá cantos).

Num livre, aconteceu um dos golos do Benfica, por Jonas, a sua estreia na Champions com esta camisola. Num canto, saiu o segundo do Benfica, por Luisão, que pediu respeito ao público.

A segunda explicação para o triunfo do Benfica chama-se Gaitán e Guedes. E chama-se Jardel e Luisão. E chama-se Talisca. Os extremos ganharam a maior parte dos duelos individuais à frente, porque são bons e andam aos pares, e Jardel não deve ter perdido um lance com os turcos; Luisão fez um golo e uma assistência. E Talisca? Bom, o brasileiro aproveitou não ter uma sombra para lhe fazer sombra e subiu e rematou, fraco ou ao lado, sim, mas o suficiente para esticar um pouco o jogo. É o que dá quando não jogam dois trincos, mas um "seis" e um "oito".

E, já agora, a vitória também tem os dois nomes de Júlio César, que fez um par de defesas quando os turcos decidiram que queiram mais do que o empate. E, já agora, de certezinha que não tem o apelido de Raúl, que é Jiménez, o mexicano falha golos incríveis.

A moral da história é a moral da bola: a moral de uma equipa constrói-se em cima das vitórias e o Benfica lidera, isolado, com nove pontos, um grupo da Champions onde está o Atlético de Madrid. O apuramento para os oiitavos de final está a um ou dois pontos de distância.

Misteriosos são os caminhos do mister.