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Dez pontos para compreender o rápido (e estranho) sucesso da bola oval

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stevan wermuth/ reuters

Este fim de semana terminou o longo Campeonato do Mundo de râguebi. Porque será que este Mundial levou tanta gente aos estádios de Inglaterra e País de Gales e bateu recordes de audiência televisiva e receitas publicitárias em todo o mundo? Estes dez pontos ajudam a perceber o fenómeno.

Paulo Anunciação

Paulo Anunciação

em Londres

Correspondente em Londres

Pontos, pontos, pontos

Por vezes há empates, mas são raros. Nos jogos de râguebi, em geral, marcam-se muitos pontos, e a pontuação alta atribuída ao ensaio (cinco pontos, que podem ser sete em caso de conversão) significa que atrasos grandes no marcador podem ser recuperados em pouco tempo. Nos 44 jogos disputados até hoje neste Mundial não se registou qualquer empate. E apenas um jogo terminou com uma equipa sem marcar qualquer ponto (os Estados Unidos perderam 64-0 frente à África do Sul). Nos quatro jogos dos oitavos de final marcaram-se, em média, 62 pontos por partida. No râguebi não é possível fazer antijogo, jogar à defesa — ou “estacionar o autocarro”, na linguagem sempre colorida de José Mourinho.

Respeito

Os jogadores de râguebi respeitam-se uns aos outros. Em Inglaterra costuma dizer-se que o râguebi é “um jogo de hooligans praticado por gentlemen” (enquanto o futebol é “um jogo de gentlemen praticado por hooligans”) — uma frase que ficou famosa depois do filme “Invictus”, sobre Nelson Mandela e a vitória da África do Sul no Mundial de 1995. No final do jogo, os jogadores cumprimentam-se mutuamente, e os vencedores aplaudem os vencidos quando estes abandonam o campo. O sangue durante o jogo dá lugar aos apertos de mãos no final. E a rodadas de cerveja depois do banho. Ninguém se desculpa com o árbitro, a chuva, o calendário ou as lesões. Se a equipa perdeu, foi simplesmente porque o adversário foi melhor.

Tiradúvidas

Os árbitros do Mundial de Râguebi são ajudados por dois auxiliares (juízes de linha) no campo de jogo, mas podem recorrer a um quarto árbitro (em geral, sentado dentro de uma carrinha no exterior do estádio). Este TMO, ou television match official (videoárbitro), utiliza imagens televisivas e outros meios tecnológicos para ajudar o árbitro nas suas decisões relacionadas com a marcação de um ensaio, toque de meta ou pontapé aos postes. O TMO não é um sistema perfeito. Alguns árbitros ainda têm relutância em usá-lo, porque provoca interrupções do jogo durante largos períodos de tempo. Mas o recurso ao videoárbitro ao longo deste Mundial contribuiu — e muito — para a justeza e correção das decisões dos juízes.

Barba rija

No futebol, muitos jogadores passam os 90 minutos a tentar sacar uma falta, a simular um penálti, a enganar o árbitro ou a fingir que estão lesionados. No râguebi é ao contrário: os jogadores passam os 80 minutos do jogo a fingir que não estão lesionados... A atitude típica do jogador de râguebi é a de continuar a jogar, mesmo com um olho, um lábio ou as orelhas deitados abaixo. Querem sempre jogar até ao fim, mesmo se alguém lhes disparasse uma bala na barriga. Em 1986, o capitão da Nova Zelândia, Buck Shelford, foi espezinhado durante um ruck num jogo contra a França. Ficou com quatro dentes partidos e o escroto rasgado e com um testículo à solta. Em vez de ir ao hospital, Shelford pediu ao médico do jogo para o coser logo ali, para que pudesse regressar rapidamente ao campo (acabaria por ser substituído, mais tarde, por causa de uma concussão; mas viu o jogo até ao fim, na bancada).

Desporto para todos

O râguebi é um desporto verdadeiramente abrangente, para gente de todos os tamanhos: gordos ou magros, altos ou baixos, velozes ou menos velozes, espertos ou nem por isso. Em que outra modalidade um gigante de 125 quilos tem as mesmíssimas oportunidades de jogar do que um sprinter de 57?

Arbitragens pedagógicas

Os árbitros nos jogos do Mundial estão equipados com um microfone e uma câmara de vídeo. Durante a transmissão televisiva, os espectadores podem assim ouvir o que o árbitro diz (e por vezes o que os jogadores dizem ao árbitro). No râguebi, os árbitros explicam as suas decisões, de forma clara, aos jogadores (e aos espectadores, graças ao microfone). A transmissão televisiva também inclui imagens captadas pela câmara do árbitro, em geral durante as formações ordenadas. Ao contrário do que acontece no futebol, as decisões dos árbitros raramente são contestadas. Os árbitros não são insultados por jogadores, espectadores ou treinadores. Os jogadores ouvem o que ele diz e fazem o que ele ordena, sem pressões ou insultos. Sabem que um pequeno protesto pode dar origem a uma falta, que será marcada dez metros mais à frente se não recuarem de imediato. Uma ação mais duvidosa pode ser punida com um cartão amarelo e uma suspensão temporária de dez minutos. Apesar de ser uma modalidade que envolve contacto físico constante — e placagens muitas vezes brutais —, as brigas e sururus são raros.

Haka. A dança da guerra do povo Maori — recriada pelos jogadores da Nova Zelândia antes 
de cada jogo — é um espetáculo único

Haka. A dança da guerra do povo Maori — recriada pelos jogadores da Nova Zelândia antes 
de cada jogo — é um espetáculo único

reuters

Haka

O espetáculo é certamente singular: 23 homens adultos e musculados, vestidos de negro, fazem caretas e berram de olhos arregalados e de língua de fora. Dão palmadas no peito. Batem com os pés na relva, com estrondo. Entoam um cântico agressivo numa língua exótica. A dança da guerra do povo Maori — recriada pelos jogadores da seleção da Nova Zelândia antes de cada jogo — é um espetáculo único que intimida os adversários. Mas nem sempre funciona. A Nova Zelândia conquistou apenas dois títulos mundiais — a Austrália e a África do Sul fizeram o mesmo.

Milionário há só um

Os salários dos jogadores de râguebi de topo estão a milhas de distância das remunerações de atletas de muitas outras modalidades. O interesse pelo râguebi entre nações é enorme, mas o mesmo não acontece com os campeonatos a nível de clubes. A liga nacional mais rica, por exemplo — o campeonato francês Top 14 –, tem receitas televisivas de apenas 74 milhões de euros por ano, uma ninharia quando comparada com os direitos televisivos do futebol. Não surpreende, portanto, que a maioria dos jogadores de râguebi mais bem pagos atue no Top 14. Um deles é o médio de abertura da Nova Zelândia Dan Carter, que em dezembro assinou um contrato de três anos com o Racing Metro. Carter, de 33 anos, vai jogar no clube francês após o Mundial e receberá um salário anual de 1,1 milhões de euros. Outras estrelas do Mundial, como o australiano Matt Giteau (Toulon, 900 mil euros), o inglês Sam Burgess (Bath, 645 mil euros) ou o sul-africano Bryan Habana (Toulon, 611 mil euros), por exemplo, ganham muito menos. Carter é atualmente o único jogador de râguebi que recebe mais de um milhão de euros. Todos estes valores estão a milhas do planeta futebol. O neozelandês Winston Reid, por exemplo — um futebolista que integra a defesa do modesto West Ham, da Premier League inglesa —, ganha três vezes mais do que o compatriota Dan Carter, o melhor jogador de râguebi do mundo. O râguebi é um jogo de equipa onde o coletivo é sempre o mais importante, sem espaço para grandes estrelas individuais.

Segurança

Os jogos de râguebi não têm o aparato policial que é frequente encontrar no futebol. Não são precisas filas de cadeiras vazias e de stewards a separar os grupos de espectadores. Não há segregação nas bancadas nem venda de bilhetes em separado para cada grupo. Adeptos de uma e da outra equipa sentam-se lado a lado. Bebem cerveja juntos, trocam piadas antes, durante e depois do jogo. Rivalizam apenas nos cânticos. Todos convivem sem problemas, mesmo nos jogos mais importantes. Ao contrário do que acontece no futebol, pode-se levar as crianças e toda a família para os jogos sem qualquer tipo de receio — sem medo que um tipo de cabeça rapada e tatuagens nos braços comece uma briga na bancada.

Orgulho nacional

Os jogadores sentem realmente a camisola da seleção. Quando as equipas estão alinhadas para os hinos nacionais, os jogadores cantam-nos com um fervor genuíno, de peito aberto e punhos cerrados, quase em transe, abraçados uns aos outros, muitas vezes de lágrimas nos olhos. Durante o Mundial de 2007, em França, as imagens dos jogadores portugueses a cantar ‘A Portuguesa’ comoveram o país. A equipa dos Lobos perdeu os quatro encontros da fase de grupos (sofreu um 108-13 frente à Nova Zelândia), mas jogou sempre da mesma forma aguerrida e valente como cantou o hino. Cantavam como se cada jogo fosse uma Aljubarrota em que as suas vidas e o destino do país estivessem em causa. Os vídeos da seleção de râguebi a cantar o hino, curiosamente, têm centenas de milhares de hits no YouTube. Um, em particular, é muito popular: o vídeo “Os Lobos vs. As Princesas” mostra a seleção portuguesa de râguebi a cantar o hino num jogo do Mundial de 2007 e depois a seleção de futebol a fazer o mesmo no Mundial de 2006. Num lado, a paixão. No outro, 11 milionários meio apáticos, alguns calados, outros sem saber a letra...