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Nuno Jonet: “Quando os surfistas acharem que estou xexé, eu paro. Até lá, vou continuar”

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Nuno Jonet é um dos comentadores do campeonato de surf em Peniche. Já esteve em todos os locais onde passa o circuito mundial de surf, à exceção das ilhas Fiji, e já lhe aconteceu quase tudo: provas em plena tempestade, com a praia virada do avesso, choques elétricos, curtos-circuitos e ter de tirar pessoas da água por causa de tubarões. Tem 63 anos e só vai deixar de ser comentador quando os surfistas acharem que está “xexé” e que já não diz “coisa com coisa”. O Expresso está em Peniche a acompanhar a 10ª e penúltima etapa do campeonato mundial de surf

Helena Bento

Jornalista

Nuno Jonet estava à entrada de um dos mais conhecidos restaurantes da ilha de Luanda, o Barracuda, onde ele e outros "artesãos hippies" se costumavam juntar para vender artesanato, quando viu chegar uma Land Rover que trazia umas "canoas esquisitas" em cima. Lembrava-se de ter visto uns tipos na televisão a fazer surf com aquilo, mas achava que só havia uma ou duas ondas que serviam para surfar. Da carrinha saíram três tipos. Um deles era Randy Rarick, que viria a fundar a primeira associação de surfistas profissionais, a IPS (Internacional Professional Surfers), que estava a fazer uma viagem pela costa ocidental africana para mapear as zonas de surf. Nuno aproximou-se, meteu conversa, soube que eles eram americanos, comprou-lhes uma prancha e eles ensinaram-no a surfar. O encontro foi breve, mas iria mudar a sua vida para sempre.

Em 1975, dois anos após esse encontro, Nuno deixou Angola e foi viver para Portugal com a mulher e o filho de três meses. Nascido numa família "muito tradicional", saíra de casa dos pais muito cedo, aí pelos 17 anos, e ganhava a vida a fazer colares, pulseiras, anéis, socas em madeira, missangas e outras peças em arame. Em Portugal, continuou a fazer artesanato e a surfar, "numa altura em que apenas cinco ou seis pessoas faziam surf no país", e o único contacto que tinham com estrangeiros era com os surfistas que normalmente vinham de Inglaterra e faziam a costa de França, norte de Espanha e Portugal, indo depois passar o inverno a Marrocos e prometendo-lhes que na volta trariam as suas pranchas para lhes vender, porque já não iriam precisar delas. "Ficávamos ansiosamente à espera que eles voltassem e cumprissem a sua palavra", diz Nuno. Na altura não havia "surf shops" e até eram eles que tinham de fazer parafina para esfregar nas pranchas.

Surf: "de uma coisa de malucos passou a uma coisa que tinha alguma piada"

Como o surf era pouco conhecido na altura (teriam de passar muitos anos até se tornar "um desígnio nacional e uma arma de marketing turístico"), e praticado apenas por uma "subcultura rebelde" e contestatária, muito ao espírito da época, Nuno e outros surfistas sentiram necessidade de se organizarem. Primeiro como uma secção da Federação Portuguesa de Desportos Subaquáticos e depois como federação independente. Organizaram vários campeonatos de surf, entre eles o primeiro campeonato nacional, em 1997, em Ribeira d'ilhas, na Ericeira, e duas edições do Torneio das Quatro Nações. "O surf foi-se organizando aos poucos e de uma coisa de malucos passou a uma coisa que tinha alguma piada", explica. "Depois, apareceram aqueles surfistas da Linha, que andavam bronzeados até durante o inverno, e começaram a fazer uma certa moda".

Foi por volta dessa altura que começou a fazer fatos para surfistas num atelier que tinha em casa, um palacete antigo que pertencia à sua avó. Costumava receber ali muitos amigos estrangeiros, ligados ao surf, que estavam de passagem pelo país. Às vezes também apareciam uns tipos que faziam parapente e asa delta a pedir-lhe para consertar arneses e "outros malucos com ideias alucinadas". "Já todos sabiam que o sapateiro das coisas radicais era eu". No início de 1980, foi convidado para ir à Austrália aprender a fazer fatos de borracha e passou a década seguinte a fazer fatos isotérmicos para surfistas. Desistiu quando percebeu que produzir em quantidades industriais não era a sua "vocação". "O que eu gostava era de trabalhar com as mãos e fazer os fatos um a um, por medida, e não em pilhas. Via-me como um artesão". Como já tinha experiência em vídeo e fotografia, e já fizera muitas "surf trips", começou a trabalhar para vários órgãos de comunicação social.

"Ils sont fous, ces Romains!"

A primeira vez que Nuno comentou um torneio foi em França, em 1981 (ou 1982, já não se lembra ao certo), e aconteceu completamente por acaso. Depois de ter sido eliminado da competição, pediram-lhe para passar para o lugar de juiz. Era um procedimento comum na altura. Os surfistas mais velhos, e mais experientes, quando eram eliminados acabavam muitas vezes a fazer de juízes, porque havia poucas pessoas qualificadas para isso.

A dada altura, começaram a entrar muitos "free surfers" (surfistas que não participam regularmente em campeonatos) na zona de prova por causa da corrente, e alguém pediu a Nuno que usasse o microfone para os tirar dali. Falou em francês, inglês e espanhol, e não resultou. Depois, experimentou em português, e os surfistas, que afinal eram brasileiros, obedeceram imediatamente. O diretor de prova assistiu àquilo e depois perguntou-lhe se queria continuar ali ao microfone a "dizer umas larachas", porque a sua voz "era muito radiofónica e passava muito bem". Além disso, falava várias línguas e isso podia vir a tornar a prova mais internacional. Nuno aceitou e voltou nos anos seguintes como comentador. Falava um francês meio aleijado que aprendia nos livros do Astérix. A brincar, diz que até ficava "frustradíssimo" porque nunca tinha oportunidade para gritar ao microfone: "Ils sont fous, ces Romains!"

Segundo encontro com Randy Rarick

Depois daquele primeiro encontro em Angola, Nuno esteve dez anos sem ver Randy Rarick. Encontrou-o em 1983, enquanto anunciava uma prova, e Randy convidou-o para ser comentador da "Triple Crown", no Havai, um dos mais importantes campeonatos de surf a nível mundial, de que era organizador. Nuno aceitou e passou os últimos 30 anos a viajar pelo mundo.

Já esteve em todos os locais onde passa o circuito mundial de surf, à exceção das ilhas Fiji, e já lhe aconteceu quase tudo: provas com uma tempestade dos diabos e a praia virada do avesso, choques elétricos, curtos-circuitos e ter de tirar pessoas da água por causa de tubarões. Agora faz a etapa portuguesa do circuito mundial de surf, que se realiza desde 2009 em Peniche.

É ele que ouvimos dar informações aos surfistas pelo microfone - pontuações, prioridade de onda e tempo que falta para terminar o "heat" - e ao público - explica que manobras valem mais e menos pontos, faz avisos, alertas e publicidade, à mistura com algum entretenimento "para manter o ambiente de festa". "Quando as pessoas estão bem-dispostas corre tudo melhor. Nuno é também comentador de surf na Sport TV e acompanha o campeonato nacional para manter-se em contacto com os mais novos.

Para um comentador ser bem-sucedido é necessário que tenha uma dicção e um tom que façam com que "a voz consiga viajar para longe", diz Nuno. Não tanto em Peniche, porque os surfistas estão muito perto da praia (é também por isso que o espetáculo é tão apreciado aqui), mas mais noutros locais, em que eles estão lá bem longe e é preciso "projetar o som para fora, muitas vezes contra ventos e tempestades". Nuno diz que a forma como anuncia as pontuações ("é quase como informação de aeroporto, para que os números cheguem separados uns dos outros e seja mais fácil entender logo à primeira"), que "para algumas pessoas até pode soar ridícula", também ajuda a que o seu trabalho seja bem feito. Sempre teve o cuidado de indicar a pontuação na língua do surfista a quem se dirigia, e não tem dúvidas de que isso foi importante, "sobretudo para aqueles surfistas com menos educação".

"É preciso ser positivo, proativo e, se possível, engraçado, mas não necessariamente um Herman José"

Apesar de achar que se distingue da maior parte dos comentadores, até pela "experiência e bagagem cultural" que tem, reconhece que nem tudo é um mar de rosas e que há algumas dificuldades, como ter de estar muito atento ao trabalho dos juízes para não dar informações erradas aos surfistas. "Tenho de seguir o campeonato como se fosse juiz e surfista. Sou o elo de ligação entre eles e não posso falhar. Tenho de saber exatamente tudo o que está a acontecer ali". E aos 63 anos, a capacidade de concentração já não é a mesma. "Já não é fácil para mim fazer dias com mais de oito horas. Os números começam a saltar no ecrã. Canso-me mais rápido e preciso de mais tempo para recuperar", diz.

Já entreter as pessoas na praia não tem muito que saber. "É preciso ser positivo, proativo e, se possível, engraçado, mas não necessariamente um Herman José". E o público também acaba por ajudar, sobretudo o português, que além de ser conhecido por "pôr o aplausómetro ao rubro", é "muito generoso e respeitador". "Aqui, se eu peço às pessoas para não chatearem os surfistas, elas respeitam. Em França, já não se consegue isso, e no Brasil muito menos. As pessoas são muito exigentes lá fora, querem sempre arrancar um pedaço", diz.

A profissão de comentador de praia, como a conhecemos, pode vir a desaparecer. Nuno explica que os surfistas vão passar a receber informações através de um aparelho colocado no pulso, que irá indicar-lhes as principais pontuações e o tempo que falta para terminar o "heat". O sistema estará já a ser testado em Portugal. A função de comentador não desaparece, mas as informações dadas serão "muito menos matemáticas e detalhadas". "Para o surfista dentro de água não existe excesso de informação, mas quem está na praia também precisa de tempo para conversar. Não precisa de estar a ser constantemente massacrado pelo comentador". Nuno vê esta mudança com bons olhos e não receia que venha a prejudicar o seu trabalho. "Quando os surfistas acharem que eu estou xexé e já não digo coisa com coisa, ou que me engano muito a dar as notas, aí eu paro. Até lá, vou continuar".

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