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“Navegar é preciso”: um livro que “transpira” surf, mesmo quando o surf não está lá

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André Carvalho é fotógrafo e autor de um livro de viagens em que o que liga uma fotografia à outra é o facto de terem sido tiradas em locais com surf e boas ondas a pelo menos duas horas de distância. Não tem ambição de fazer dinheiro com o livro. Só quer dar a entender às pessoas que a cultura do surf “é muito mais do que ir para a praia e apanhar umas ondas e fazer umas manobras”. O Expresso está em Peniche a acompanhar a 10ª e penúltima etapa do campeonato mundial de surf

Helena Bento

Jornalista

André Carvalho nunca quis ser fotógrafo porque era precisamente isso que esperavam dele. Filho do premiado fotojornalista Luiz Carvalho (“Primeiro de Janeiro”, “Tal & Qual”, Expresso), acompanhou muitas vezes o pai em viagens de trabalho. Foi com ele que aprendeu que cada fotografia deve contar uma história e que as melhores histórias nem sempre estão ao virar da esquina. Esta manhã, por exemplo, teve de arregaçar as calças, tirar as sapatilhas e correr meia centena de metros ao longo de uma ravina para apanhar o Kelly Slater de frente enquanto este surfava numa praia em Peniche. “Ele começou a surfar para o lado esquerdo e os fotógrafos, que estavam do lado direito, não conseguiam passar por causa da ravina”. Mas ele conseguiu. E quando conseguiu, ficou com o surfista norte-americano, 11 vezes campeão do mundo, sozinho numa baía, a surfar à sua frente.

André, 39 anos, estudou design gráfico no IADE (Instituto de Arte, Design e Empresa), em Lisboa. Apaixonado por fotografia desde miúdo (dos amigos ele era o único que andava sempre a saraquitar de máquina ao ombro), começou por fotografar snowboard e publicar algumas das suas fotografias nas duas revistas da modalidade que existiam então em Portugal. Depois, e como sempre fizera surf, decidiu começar a fotografar praias e surfistas, e durante algum tempo colaborou com várias revistas de surf, portuguesas e internacionais. Em 2006, fundou com um amigo um atelier de design gráfico e, além de outros projetos, foi o responsável gráfico da revista “SURFPortugal”, entre 2011 e 2013, onde era também fotógrafo residente. Com o desaparecimento de várias publicações e outras a optarem “por caminhos menos fixes”, André pensou que talvez tivesse chegado à altura de cumprir esse seu velho sonho de fazer um livro. Quando, no ano passado, soube que ia ser pai, não teve mais dúvidas. Se havia um momento ideal para isso, então esse momento tinha chegado. “Eu sabia que depois de nascer o meu filho ia ter menos tempo para me dedicar ao livro”, explica.

Cabo Verde

Cabo Verde

André Carvalho

“Navegar é preciso” (o título vem de um poema de Fernando Pessoa), cujo lançamento oficial aconteceu há cerca de uma semana, reúne uma série de fotografias que André tirou durante as suas viagens aos vários cantos do mundo. Na maior parte delas não se veem pranchas ou ondas ou um detalhe qualquer, por pequeno ou insignificante que seja, que remeta para o universo do surf. Vemos pessoas, isso sim. E prédios e cidades e carros e casas no meio de nenhures. E mais pessoas. Marraquexe. Bogotá. Barcelona. Luanda. Cabo Verde. Gana. Califórnia. André diz que “Navegar é preciso” não é um livro de surf, é um “livro da vida, inspirado no surf”, nos locais que ele visitou e nas pessoas que conheceu. É “um livro de instantes que transpira surf, mesmo quando o surf não está lá (...) de fotografias que fixam um último olhar, furtivo e imaculado, sobre um mundo que é o nosso, mesmo quando já nos abandonou ou nem sequer existe como o imaginamos”, escreve Pedro Adão e Silva, jornalista e também ele apaixonado por surf, na introdução do livro. Aí, o surf é também descrito como um desporto dos tempos modernos e, ao mesmo tempo, “um apelo constante a um essencialismo romântico que nos liga aos elementos e nos coloca em contacto com as coisas primeiras”.

André explica que há um elemento que liga todas estas fotografias, que liga o Gana a Barcelona e Barcelona a Bogotá, e que é o facto de terem sido tiradas em locais onde há surf e boas ondas a pelo menos duas horas de distância. “Navegar é preciso” não é um livro sobre surf, mas ele está sempre lá, nesses retratos de rostos e de lugares improváveis, e nesse branco-nada da página que os separa. André diz que a forma como começou a fazer surf, há cerca de 30 anos (quando não havia escolas de surf e ia-se para a praia de autocarro ou à boleia e voltava-se à boleia ou de autocarro, ele e mais uns quantos amigos, depois de pedincharem uns trocos para comer a um desconhecido que por ali andasse porque um grupo de miúdos espertalhões lhes tinha roubado o almoço), moldou a forma como viaja hoje. “Quando vou para fora não gosto de ir a sítios turísticos. Gosto de me meter nos bairros mais marados. Gosto de falar com as pessoas. Gosto da autenticidade dos países, e não daquilo que tentam vender ao turista comum”.

Barcelona

Barcelona

André Carvalho

“Navegar é preciso” foi publicado pela Prime Books, mas foi André que ficou responsável por todas as fases do processo de edição do livro, desde o design e edição de fotografia à pré-produção, marketing e vendas. “Neste país, é essa a única maneira de se conseguir fazer alguma coisa”. Não vale a pena estar à espera da ajuda das grandes marcas e empresas fora do universo do surf, porque “na verdade essas nunca ajudam”, diz André, que não recuou nem um bocadinho, apesar de todas as respostas negativas que recebeu. “Fui mais casmurro do que eles todos”.

São Francisco

São Francisco

André Carvalho

Tarefa terminada e com o livro prestes a ir para livrarias, André reconhece que o mais difícil são mesmo as vendas, porque o risco de ter prejuízo está sempre presente. Não é que queira vir a fazer dinheiro com o livro, porque isso nunca foi uma ambição. Na verdade, a única coisa que quer é dar a entender às pessoas que a cultura do surf “é muito mais do que ir para a praia e apanhar umas ondas e fazer umas manobras”. A cultura do surf “é tudo”. “São as viagens, os amigos, a partilha e as vivências que ele nos dá”.

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