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A ascensão meteórica de Ítalo Ferreira

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WSL/POULLENOT

Ítalo Ferreira tem 20 anos e garantiu no domingo o título de "rookie" do ano, ao conseguir passar à quarta ronda do Moche Rip Curl Pro Portugal. Ele e outros brasileiros que competem no circuito mundial de surf dão rosto à chamada "Brazilian Storm", termo que designa a nova geração de surfistas que se têm afirmado nos melhores lugares do ranking mundial. O Expresso está em Peniche a acompanhar a 10ª e penúltima etapa do circuito mundial de surf

Helena Bento

Jornalista

Em menos de um ano, Ítalo Ferreira passou de surfista pouco conhecido a melhor estreante no circuito mundial de surf. Com 20 anos apenas e uma carreira ainda muito curta (começou a surfar aos 13 anos porque via os primos fazê-lo e quis experimentar), o surfista brasileiro, nascido na cidade de Baía Formosa (Rio Grande do Norte), garantiu no domingo o título de "rookie" do ano, ao chegar à quarta ronda da etapa portuguesa do campeonato mundial de surf que decorre em Peniche.

Ítalo Ferreira estreou-se este ano no circuito mundial de surf e já é oitavo da tabela, à frente do francês Jeremy Flores e apenas uma posição atrás de Kelly Slater, 11 vezes campeão mundial. Reconhece que "aconteceu tudo muito rápido" e que "a responsabilidade é grande", mas que não sente pressão por causa disso. "É bem difícil competir com os surfistas que você via na televisão quando era criança, mas eu não fico intimidado. Só quero entrar lá e fazer sempre o meu melhor", disse o brasileiro em entrevista ao Expresso, antes da vitória que lhe garantiu o título.

Ítalo Ferreira faz parte da chamada "Brazilian Storm" ("Tempestade Brasileira"), termo que designa a nova geração de surfistas brasileiros que têm vindo a furar o circuito da elite mundial do surf e alcançar com rapidez notável as melhores posições do ranking. Dos 20 surfistas mais bem classificados, seis deles são brasileiros: Adriano de Souza, que é segundo na tabela, atrás do australiano Mick Fanning, Gabriel Medina (5º lugar e atual detentor do título de campeão mundial), Filipe Toledo (6º), Ítalo Ferreira (8º), Wiggolly Dantas (13º) e Jadson André (20º, um lugar à frente do também brasileiro Miguel Pupo).

Caio Barretto Briso, jornalista do "Globo" e especialista em surf, diz que a "Brazilian Storm" "não é apenas fruto da coincidência do surgimento de uma mão cheia de jovens talentosos ao mesmo tempo", e que há outros fatores que ajudam a explicar este "salto de qualidade". "Esses surfistas têm uma fome de competição que é um negócio de maluco. Passam boa parte do ano treinando nos picos mais radicais do mundo. São disciplinados como nunca se viu por aqui para treinar e também cuidar da parte física. Observem: são uns touros, fortes demais", refere o jornalista num artigo publicado no site brasileiro "R7 Esportes", acrescentando que alguns usam até "técnicas de resistência do exército americano nos seus treinos".

No mesmo artigo é citado um surfista brasileiro do Paraná que defende que a principal diferença entre estes jovens surfistas e os "pioneiros" é que eles abandonaram o "lado romântico do surf" e levam a competição muito mais a sério. "Os brasileiros tinham fama no circuito de não falar o inglês, de estarem sempre a reclamar das decisões dos juízes e levar a coisa na corda bamba, no amadorismo, no surf não como desporto e profissão, mas sim como estilo de vida. Esses meninos quebraram esse paradigma. São atletas. São competitivos. Colocaram na cabeça que, apesar do prazer romântico proporcionado pelo surf, é preciso vencer, ser bem-sucedido e ponto final. Odeiam perder".

Ítalo Ferreira vem de uma cidade onde "todos os anos surgem surfistas muito talentosos" que não podem prosseguir carreira porque não conseguem encontrar um patrocinador que suporte os custos das viagens para participar nos campeonatos. "Se houvesse mais apoios, acredito que saíram muitos surfistas profissionais de lá. Assim, a maior parte acaba desistindo ou se desviando", diz Ítalo, que se sente um sortudo por ter sido apoiado desde o início por uma marca e um treinador que nunca duvidou dele. "Um atleta precisa de ter um grande suporte para conseguir um bom desempenho e bons resultados".

E esse suporte inclui também o apoio da família. Ítalo conta que os pais sempre o apoiaram e, apesar de não estarem presentes nas competições, estão sempre "a enviar mensagens positivas". E se no início não percebiam praticamente nada de surf nem dominavam a gíria dos surfistas, agora são os primeiros a avaliar o seu desempenho. "Agora até é engraçado. Quando eu saio da água, depois de fazer uma bateria, a minha mãe começa logo a perguntar-me porque é que eu não fiz isto e aquilo". E Ítalo, que "não gosta de misturar família com trabalho" porque acha que "atrapalha", acaba sempre a relembrá-la de que o seu treinador está ali e que ela não precisa de lhe dizer o que deve ou não fazer.

Ítalo Ferreira e Jadson André, que também compete no circuito mundial de surf (é 20º no ranking), vêm da mesma cidade (são praticamente vizinhos) e são grandes amigos. Cresceram juntos, surfam juntos e viajam juntos para os campeonatos. Ultimamente tem sido Ítalo a vencer os "duelos" e a eventual rivalidade entre os dois começa a ser falada. Ítalo reconhece que às vezes, quando termina um campeonato, o clima entre os dois não fica "legal", mas que ambos são profissionais e sabem que quando entram na água é para cumprir objetivos.

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