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Os três dias em que Portalegre foi o centro do mundo

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Mitsubishi / Jorge Cunha

Vieram jornalistas da Austrália, do Japão, da Rússia e de outras partes do mundo para assistir à prova de todo-o-terreno Baja Portalegre 500. Este ano foi a primeira vez que um híbrido, com motores a gasolina e elétricos, disputou a prova

Fará já no próximo ano três décadas em que, por alturas do final de outubro, o Alto Alentejo atrai as atenções do desporto automóvel. É o momento em que uma das zonas mais interiores do país brilha a nível internacional, devido à única prova portuguesa de Todo-o-Terreno (TT) com verdadeira projeção mundial, a Baja Portalegre 500. Da Austrália ao Japão, passando pela Rússia, a cidade de Portalegre recebeu, de 22 a 24 de outubro, especialistas do TT. Perdendo a sua pacatez tradicional nestes três dias, a urbe alentejana viveu um ritmo frenético, com hotéis esgotados num raio de mais de 20 quilómetros, estradas cortadas ou condicionadas e a maioria dos efetivos locais da GNR mobilizados para permitirem que 303 equipas de carros, motos, “quads” e buggys disputassem a 29ª edição da prova que pontua para a Taça do Mundo de Todo-o-Terreno. Além disso, esta prova é sempre decisiva para o título do campeonato nacional da modalidade.

Este ano, feitas bem as contas, “foram 314 as equipas inscritas, mas nem todas acabam por passar as verificações administrativas e técnicas para entrarem em prova”, explica João Picado, colaborador do Automóvel Clube de Portugal (ACP), que organiza a competição. Dentro do pavilhão maior do NERPOR – o recinto de feiras localizado na estrada que vai de Portalegre para Elvas – João Picado dava apoio aos jornalistas que enviavam informações sobre o decurso das várias etapas da Baja, enquanto ia consultando os grandes ecrãs de televisão em que surgiam as últimas classificações.

“A parte mais importante da prova são sempre as competições entre as equipas de carros mais sofisticadas, que dispõem dos pilotos mais conhecidos e trazem consigo mecânicos altamente especializados”, adiantou João Picado. “Este ano, participaram 89 equipas de carros”, esclarece.

Desde 1987, ano em que José Mégre lançou o Baja Portalegre 500, entraram em competição nas terras do Alto Alentejo os nomes mais famosos do TT a nível mundial, desde Colin McRae, que vendeu aa edição de 2004 com um Nissan, até Peterhansel vencedor em 2008, com um Mitsubishi.

Misubishi / Jorge Cunha

Uma Baja para todos

Mas João Jordão, secretário geral da ACP Motorsport - que promove a prova, realiza as inscrições, trata da logística e assegura o funcionamento do Baja Portalegre 500 -, considera que “esta prova tem um encanto que vai muito além da importância mediática das grandes equipas que disputam as provas de carros, e que tem a ver com a possibilidade de quase qualquer pessoa conseguir increver-se para participar nela”.

“Além da competição entre pilotos consagrados como Ricardo Porém, Miguel Barbosa, João Ramos, Nuno Matos e Hélder Oliveira, na 29ª edição não posso deixar de referir um nome que não dirá muito ao público em geral, mas que para o ACP simboliza a importância deste Baja 500, que é Ricardo Antunes, inscrito com o número 451 na formação das motos, que concorre com uma antiga Zündapp, uma das motos que foi mais popular em Portugal durante décadas”, comenta João Jordão. “Este espírito da ‘prova raínha’ do TT em Portugal deve ser mantido, porque é o que torna esta Baja tão importante”, refere.

Longe do auge dos anos em que chegaram a concorrer mais de 500 equipas, esta Baja 500 atrai a população das principais cidades e vilas próximas de Portalegre, que se mobilizam, durante os três dias da competição, antes do raiar do sol. “As pessoas enchem as principais zonas espetáculo onde podem ser vistas as equipas a passarem, e isso mostra o interesse que têm por esta competição” comenta João Jordão, admitindo que “o ACP continuará a promover esta Baja independentemente dos apoios que possa ter”.

ACP admite prejuízo

Esta posição do ACP é decisiva para a concretização da Baja Portalegre. Olhando para os números da 29ª Edição (ainda provisórios), enquanto as inscrições dos concorrentes rondaram os 180 mil euros, os diversos encargos – entre os quais cerca de 50 mil euros para pagar à GNR os meios humanos destacados para acompanhar as várias etapas da Baja – elevam o seu custo total para quase 500 mil euros. “Sem termos ainda números muito rigorosos, a Baja Portalegre 500 de 2015 deverá dar um prejuízo à organização da ordem dos 100 mil euros”, calcula João Jordão.

É certo que a Baja de 2015 em pouco se compara à estrutura inicial dos anos de lançamento para prova, de 1987 a 1990. Hoje, tudo é levado a um nível muito profissional. Até a equipa médica é contratualizada. Atualmente o acompanhamento médico é garantido por uma equipa liderada pelo ortopedista Pedro Barradas que terão vários meios à disposição para fazerem face a eventuais emergências que surjam. Há 30 anos tudo dependia da “carolice” de alguns médicos que acompanhavam a prova.

Expresso acompanhado por veterano

Fernando Pádua, médico em Portalegre, esteve ligado ao arranque da Baja e acompanhou esta prova durante os primeiros anos. “Quando soube que José Megre queria fazer uma competição de TT no Alto Alentejo, escrevi-lhe a dizer que gostaria de lhe mostrar uns percursos ideais para isso aqui na região, e ele respondeu-me interessado”, recordou Fernando Pádua ao Expresso. Seguiram-se vários anos de acompanhamento médico da Baja Portalegre, relativamente aos quais diz que “as situações mais complicadas ocorreram com motos, mas muitas vezes, apesar de terem sofrido acidente, os concorrentes não pensavam em mais nada senão continuarem a prova”. “Alguns, até com rodas partidas, insistiam em prosseguir”, recorda o médico.

“Para as equipas estrangeiras, com maiores orçamentos e geralmente pertencentes a grandes construtores automóveis, a Baja tem servido para testar soluções tecnológicas que depois são incorporadas nos carros que disputam os maiores ralis de TT, como o Dakar”, comenta Fernando Pádua. Uma das situações mais “pitorescas” que o médico recorda na história da Baja passou-se com uma equipa da Volkswagen, que então estava a testar o jipe Tuareg. “O catalão Paco Crous deparou-se com um problema nos carros e ninguém da sua equipa de logística lhe arranjava uma solução. Foi então que perguntou onde haveria em Portalegre lojas que vendessem secadores portáveis de 12 volts. Explicou que queria comprar uns quantos para fixar dentro dos carros, pois seria a única forma de evitar que os vidros dos seus carros estivessem sempre embaciados”, recorda o médico.

A pensar já no próximo ano

Orlando Romana, responsável do ACP, é igualmente um dos “históricos” da Baja Portalegre, pois trata da sua organização deste a 2ª edição, em 1988. “Temos de começar a olhar para a prova de 2016, que será 30ª edição, sendo importante que as autarquias da região apoiem a sua realização, porque a projeção internacional da Baja Portalegre coloca esta zona do Alto Alentejo no mapa mundial do TT”. Tudo começou com José Megre, notabilizado no sector do TT pela sua participação no Dakar, de 1982 a 1984, como piloto da UMM. Megre, juntamente com o seu amigo e navegador, Pedro Vilas Boas, levou quatro anos a lançar o projeto da Baja de Portalegre, então designado Rali Maratona de Portalegre – Finicisa.

Volvidos 30 anos, para quantificar o impacto económico da Baja de 2015 na zona de Portalegre João Jordão aguarda que o Instituto Politécnico local faça um estudo detalhado do dinheiro que a prova deixa na restauração, nas unidades hoteleiras e em todos os meios envolvidos. “Admitimos de nestes três dias ficam cerca de 5 milhões de euros na zona, mas esperamos as conclusões do estudo para termos um valor mais preciso”, refere o responsável do ACP Motorsport.

O primeiro híbrido no TT

Na edição de 2015, a grande novidade tecnológica da Baja Portalegre veio da Mistubishi, que, pela primeira vez numa prova europeia, concorreu com um veículo híbrido, o Outlander PHEV, que combina um motor a gasolina com motores elétricos. Em prova com o número 651, o Mitsubishi PHEV – que é um “plug-in”, ou seja, as suas baterias são recarregáveis com uma ficha elétrica – foi pilotado pelo veterano japonês Hiroshi Masuoka, tendo como co-piloto o francês Pascal Maimom.

Mitsubishi / Jorge Cunha

Masuoka é um veterano dos ralis, ganhou dois Dakar – e participou vinte vezes neste rali de longo percurso –, mas não teve sorte na Baja Portalegre porque o carro parou numa prova realizada sábado de manhã. O Outlander PHEV chegou ao recinto do NERPOR rebocado e os mecânicos eletricistas andaram muito tempo à volta do carro. Tudo indica que o problema estava numa pequena caixa, semelhante às tradicionais caixas de fusíveis, que foi trocada na tarde de sábado e o carro voltou a andar, tendo hoje, domingo, 25 de outubro, feito provas de demonstração à imprensa especializada.

Aliás, vieram da Austrália, de vários países da União Europeia (sobretudo, de Espanha) e da Rússia, representantes de órgãos de comunicação especializados para avaliar o comportamento do Outlander PHEV numa prova “dura” como a Baja de Portalegre, com terrenos arenosos, lamas, pedras e subidas muito pronunciadas.

Misubishi / Jorge Cunha

Uma Baja inovadora

Entre a equipa de jornalistas espanhóis comentava-se que a Baja Portalegre era verdadeiramente inovadora na admissão de carros híbridos, para a qual ainda não existe regulamentação internacional. Os elementos da Mitsubishi em Portugal consideram que o Outlander PHEV é um carro que está aa dar os primeiros passos no TT, sendo um dos veículos em competição mais próximo com o modelo que é comercializado para circulação em estrada.

Para acompanhar a reportagem da Baja Portalegre, a Mitsubishi cedeu ao Expresso a nova pickup L200 de caixa aberta, com seletor de diferenciais comandado por um botão rotativo localizado atrás do manipulo das mudanças. Ao contrário do Outlander PHEV, a tecnologia turbo-diesel e a tração integral da L200 mostrou-se fiável, mesmo com pneus com rodado de estrada.

Com as indicações no terreno dadas pelo médico Fernando Pádua, a L200 chegou a zonas de visualização da prova de acesso mais difícil, isoladas e consideravelmente distantes dos pontos de controlo vigilados pelos comissários da prova, recorrendo em algumas subidas e descidas o bloqueio de diferenciais, com o controlo eletrónico de tração desligado – o que, aliás, tinha sido sugerido pelo jornalista veterano em provas de TT, Rui Cardoso (atualmente o mais antigo participante na histórica prova das “24 Horas de Fronteira”). Diga-se, em abono da verdade, que o desempenho da L200 foi irrepreensível – e, note-se, apesar de ter rodado de estrada.

Assentar arraiais em Fadagosa

Para os espetadores que desconhecem os caminhos rurais da zona de Portalegre, os locais preferidos para acompanhar esta prova são as “zonas espetáculo” com charcas e linhas de água. Uma das mais populares é a de Fadagosa de Nisa. É aí que boa parte da “plateia” alentejana “assenta arraiais”. Para lá chegar é preciso estacionar a uma distância considerável do principal troço de água, ou então arranjar lugar muito cedo, nunca depois das oito da manhã.

Um dos comentários feitos pelos responsáveis da Mitsubishi que vieram do Japão foi precisamente para manifestarem o espanto em relação ao elevado número de pessoas que encontraram de madrugada em Portalegre a transportar alguidares pesados para dentro dos seus carros. Foi-lhes explicado pela equipa portuguesa da marca que esses alguidares iam cheios de carnes temperadas para serem grelhados ao ar livre enquanto assistiam, um dia inteiro, às provas da Baja Portalegre. Faça sol, ou faça chuva.

Nevoeiro das febras

Foi precisamente isso que aconteceu em Fadagosa de Nisa. Num dia chuvoso, o local, bem perto de um percurso de TT sinuoso, “desenhado” em torno de charcas rodeadas por altas encostas graníticas, tinha uma névoa intensa, que não era formada pelo nevoeiro, mas pela condensação do fumo libertado por dezenas de assadores onde se grelhavam febras.

Pessoas de todas a idades, que “instalaram” no chão enlameado pequenos bancos com assentos de tela, junto ao topo das altas encostas rochosas, passavam ali o dia de chapéu de chuva aberto a ver passar as equipas em prova “lá em baixo”. Esta “festa”, hoje tipicamente enraizada na população do Alto Alentejo, é conhecida pelos adeptos do TT em vários continentes, devido à grande participação internacional que a Baja Portalegre continua a ter.

Festa começou pelas motos

No primeiro dia da Baja Portalegre, a festa foi feita pelas motos. O “herói” foi Mário Patrão, que ficou em primeiro lugar entre as 144 motos que concorreram. Nas “geringonças” que ficaram conhecidas por moto-quadros, mas que na Baja são inscritas na categoria de “quads”, o espetáculo foi dado por Roberto Borrego, que é recordista de vitórias nestas provas. Entre os 35 buggys inscritos (juntamente aos designados UTV), o melhor desempenho coube a Jorge Monteiro e Ana Cristina Monteiro. Depois dos prólogos, foi feito um sector seletivo no percurso de mais de 80 quilómetros entre Ponte de Sor e Portalegre.

Mas a grande euforia da “plateia” alentejana foi com o desempenho dos pilotos portugueses dos carros, bólides potentes que não paravam de roncar. O melhor em prova foi o piloto de Leiria, Ricardo Porém, que, com o seu Toyota Hilux, venceu esta Baja Portalegre 500. Já em 2014 o jovem Porém tinha ganho. Porém liderou no prólogo e depois ainda fez os melhores tempos nos sectores seletivos. Em segundo lugar nos 500 quilómetros da prova ficou Miguel Barbosa, com o Mitsubishi Racing Lancer, que teve alguns problemas de tração mas, ainda assim, conquistou o seu sétimo título de campeão nacional, batendo os concorrentes que mais temia e que eram Nuno Matos e Hélder Oliveira (ambos podiam disputar o título nacional). João Ramos com uma Toyota Hilux ficou em terceiro, apesar de ter-se mantido em segundo lugar durante algum tempo (tudo por causa de um furo, que depois o obrigou a acelerar bastante para poder terminar em terceiro). Depois desta Baja Portalegre 500, o Alentejo aguarda a próxima festa TT, que são as “24 Horas TT Vila de Fronteira”, marcadas para 26 a 29 de novembro.