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Jesus: Óóóóóó, o cérebro voltou, o cérebro voltou, o cérebro voltou

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TIAGO PETINGA / EPA

O Sporting foi ao Benfica e humilhou o rival com três golos, todos eles na primeira parte. Perdem Vitória e Vieira, ganham Jesus e Bruno de Carvalho

Este dérbi não começou hoje, mas naquele dia quatro de junho quando se percebeu que Jesus ia para o Sporting e deixara o Benfica para trás com um bicampeonato na mão. A partir daí seguiu-se isto: o sorteio, a Supertaça, a história do cérebro, o empurrão a Jonas, as SMS's, o mês de junho que ficou por pagar a Jesus e o processo a Jesus por saltar do barco, o Inácio e o streaming da BTV e a ameaça de processo a Inácio por pirataria, o Pedro Guerra e o António Simões, o football leaks, o Pedro Guerra contra o Bruno de Carvalho, o Bruno de Carvalho e a caixa dos árbitros, os árbitros que dizem que, sim, que a caixa existia, o Verdade Leonina, o football leaks que desaparece e o Bruno que pede a descida de divisão, o Benfica que quer processar o Sporting por danos reputacionais, o Marco Ferreira que diz ao AS que Vítor Pereira lhe ligava a pedir para tratar com jeitinho o Benfica, e o Bruno a pedir outra vez a descida de divisão do Benfica. E, antes de pedir desculpa por me ter esquecido de algo ou de alguém, o que é provável, porque é difícil datar um dérbi disputado durante quase cinco meses, remato com o Rui Vitória que garante que jogará contra 11 jogadores mas não garante que esses 11 joguem como equipa, e o Jesus que responde que jogará contra uma equipa que foi dele durante seis anos.

E do verão ao outono, se houve algo a mudar além do tempo, foi Rui Vitória, que se achou mais confiante e quis desafiar Jesus para um mind game no qual nunca se devia ter metido. Porque a regra número um do manual de instruções diz que deves medir bem o adversário com quem te metes - e Rui Vitória escolheu mal o rival. E o timing.

O que ficou à mostra deste dérbi desnivelado e histórico (nunca o Benfica tinha saído ao intervalo a perder por 3-0 em casa) é que Jesus tinha razão em tudo, menos numa coisa: que os jogadores do Benfica não sentiriam a pressão porque tinham sido treinados por ele. Sentiram. E o resto foi limpinho, limpinho, peanuts.

O Sporting foi aquilo que o Benfica era, sobretudo nos últimos dois anos de Jesus. Defendeu bem, porque não se desuniu, e não abriu buracos entre a defesa e o meio-campo e o meio-campo e o ataque, jogou no fora-de-jogo, apertou quem levava a bola, quando devia, deixou que quem levava a bola a levasse, quando não devia. E procurou os lugares que são de ninguém, aquelas ditas entrelinhas do jargão futebolístico, que não são mais do que clareiras. William, João Mário, Adrien, Naldo e Paulo Oliveira formaram malhas fininhas por onde nem uma petinga podia passar e atacou quando sentiu sangue: Téo, Slimani e Bryan Ruiz, dois reforços e um 'veterano' de Alvalade, aproveitaram as clareiras e as falhas de marcação do Benfica (a/c de Luisão e Jardel).

Sabem aquela coisa que se chama de transição defensiva, vulgo, defender? O Benfica não soube (o que é estranho) ou não sabe (o que é grave), porque se expôs sempre que procurava o ataque. E de cada vez que atacava era previsível na forma como o fazia: pelo lado, a aproveitar a correria de Guedes ou Gaitán na linha a cruzar para ninguém; ou, então, um coelho sacado da cartola de Jonas, que deixou o chapéu em casa. Sem truques de magia dos ilusionistas, o Benfica desmanchou-se e perdeu-se em picardias e discussões estéreis e inúteis enquanto o tempo passou e foi passando até ao apito final. É a inevitabilidade da vida.

Bom, e agora? Agora é esperar para ver o que acontece a Rui Vitória, que jogou três jogões e perdeu-os todos (Supertaça, com o Sporting; FC Porto e Sporting, para a Liga), e Luís Filipe Vieira, que jogou uma cartada política e perdeu-a, também, para Bruno de Carvalho, que se sentou atrás de Jesus na noite em que ele disse à Luz que a estrutura não é nada se nela não estiver um cérebro.