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Júlio Adler: “98% dos surfistas estão sempre a perder”

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Júlio Adler, ex-surfista profissional (foi campeão carioca em 1990), é um dos mais respeitados jornalistas de surf. Vive no Brasil, mas todos os anos vem a Peniche assistir à etapa portuguesa do campeonato mundial de surf. Diz que há um antes e um depois de 2009 (ano em que o evento se realizou pela primeira vez em Portugal) e que, embora as pessoas não falem sobre isso, a verdade é que a maior parte dos surfistas que viaja para outros países para competir sofre derrota atrás de derrota. É o outro lado do surf, esse desporto “tão sedutor”. O Expresso está em Peniche a acompanhar a 10ª e penúltima etapa do campeonato mundial de surf

Helena Bento

Jornalista

Queria ser jogador de futebol, mas acabou a fazer surf numa prancha que lhe ofereceram. Não por interesse ou paixão, mas porque todos os seus amigos faziam e era uma forma de se integrar no grupo. Quis ser surfista profissional (e foi, é dele o título de campeão carioca de 1990), mas acabou a escrever sobre surf. Pelo meio escreveu “umas coisas” sobre música e vibrou com o rock britânico dos anos 80. Júlio Adler, um dos mais respeitados jornalistas de surf em Portugal e no Brasil, está em Peniche a acompanhar o campeonato mundial de surf, ritual que mantém há vários anos, e a trabalhar num projeto com o surfista português Tiago Pires, também conhecido por "Saca".

Começou a competir, mas depois desistiu e começou a escrever sobre surf. Como é que se deu esta passagem?
Quando passei de surfista amador para surfista profissional consegui ter alguns resultados bons e então continuei a insistir no surf. Em 1990, vim a Portugal para competir no WQS [prova de qualificação que dá acesso ao circuito principal de surf]. Naquela altura, não havia distinção entre prova de qualificação e circuito principal; todos os surfistas competiam juntos. É como se hoje um tipo como eu pudesse participar num campeonato ao lado do Gabriel Medina, do Mick Fanning ou do Adriano de Souza. Participei várias vezes nessas provas de qualificação e sonhava qualificar-me para o campeonato mundial de surf. Em 1996 já vim para a Europa com outra intenção, que era filmar os surfistas. Tinha decidido que não ia gastar mais dinheiro.

Foi uma decisão difícil?
Não. Doía muito perder. Normalmente as pessoas não falam nisto; toda a gente diz como a vida dos surfistas é boa e sedutora, porque viajam para o mundo inteiro, mas a verdade é que 98% deles sofrem derrota atrás de derrota. Estão sempre a perder. Mesmo entre estes atletas que competem no circuito principal há cinco que vão sair daqui com a sensação de ter feito alguma coisa. Os outros vão achar que perderam tempo e dinheiro e, provavelmente, vão questionar-se se realmente é isto que querem fazer para o resto da vida. A frustração é grande. Perde-se uma, duas, três vezes. À quarta pensa-se: "Mas será que eu quero mesmo continuar a humilhar-me publicamente"?

Mas não podemos generalizar, pois não?
Muitos deles não falam sobre isso, mas acontece muito. Entre os surfistas portugueses, por exemplo, há muitos que passam dois e três anos a serem constantemente eliminados no campeonato. A dada altura preferem já nem participar, porque acham que não há razão para isso. O Saca [Tiago Pires, surfista português] é um exemplo de persistência. Ele ficou sete anos a tentar entrar no top 44 na época dele. Sete anos é muita coisa. É preciso ser-se muito resiliente para aguentar uma situação assim. E aguenta-se até ao momento em que se fica demasiado amargurado ou cansado para conseguir continuar. Aí, desiste-se.

Mas o Tiago Pires continua, apesar de tudo. Porquê?
Ele tem um poder de resiliência muito grande. E tem que ter, porque assim que termina uma temporada os surfistas têm de começar logo a preparar a próxima. É preciso voltar a fazer tudo outra vez, quase do zero. Eles têm de recompor-se, recompor o físico e o espírito. Há uns que o conseguem e outros que não. Há uns que têm uma grande necessidade de afirmação e uma maior cobrança interior do que outros. Isso depende também do ambiente em que se cresceu. No caso do Tiago Pires, ele foi um pioneiro. Estava a fazer aquilo antes de toda a gente, não tinha ninguém à frente para lhe mostrar como era. Os únicos modelos que tinha eram os surfistas estrangeiros. Ninguém em Portugal tinha feito o que ele estava decidido a fazer, e ele não desistiu enquanto não o fez. E quando o conseguiu, ficou lá muito tempo, ao contrário de outros europeus. Não foi uma aventura. É muito difícil fazer o que ele e o Jeremy Flores [surfista francês] fazem.

Falemos de si. Em que circunstâncias é que começou a fazer surf?
Aconteceu completamente por acaso. Tal como todo o brasileiro, eu queria ser jogador de futebol, mas não tinha talento suficiente. Também fazia surf com os amigos, mas não era uma paixão; era mais um hobby e uma forma de me integrar no grupo. Depois, alguém me disse que eu tinha jeito para aquilo. Eu acreditei e comecei a competir e a ter bons resultados. A prancha que eu usava fora-me oferecida por um surfista que na altura namorava com a minha irmã. Lembro-me de ir a casa dele e ficar admirado com a quantidade de discos que ele tinha. Até me ofereceu alguns.

Quais? Lembra-se de algum?
Lembro-me de trazer um disco de Led Zeppelin, o "Blood on the Tracks", do Bob Dylan, "Comes a Time", do Neil Young. Na altura também gostava muito dos New Order, The Clash e de tudo o que era punk. Naquela época havia uma enorme carência de música no Brasil. As coisas não chegavam até nós. Ouvíamos na rádio e gravávamos em cassetes, ou então tínhamos algum amigo que ia viajar e que depois nos trazia os discos. No mundo do surf havia um enorme tráfego de informação por causa dos surfistas que viajavam para a Austrália e para o Havai e depois voltavam com as novidades. Foi assim que comecei a interessar-me por música e a escrever umas coisas sobre bandas e artistas na imprensa de surf, como na revista "Fluir" e "Hardcore".

Lembra-se da sua primeira vinda a Portugal, em 1990?
Vim para competir nessa prova de qualificação que referi atrás. Eu e mais três amigos. Chegámos a Portugal depois de termos participado numa prova em França e outra em Espanha. Cada um trazia dez pranchas na carrinha para vender e pagar a viagem. A dada altura, já as vendíamos por qualquer preço, porque não queríamos voltar com bagagem para o Brasil. Íamos participando em provas e o dinheiro que ganhávamos servia para pagar a viagem seguinte. Era quase como sair para a rua e pedir boleia. Partilhávamos carro, quarto e comida. Nesse ano, o mar deu ondas muito boas na Ericeira. No início estava mau, mas quando o mar subiu... Acho que foi um dos melhores mares da história de todos os eventos de surf que se realizaram em Portugal. Voltei de novo em 1993, 1996, 1997 e 1998. A partir daí, fui voltando quase todos os anos, porque a minha mulher é descendente de portugueses e adora Portugal.

Mas já tinha ouvido falar muito sobre Portugal?
Nós ouvíamos falar, mas não sabíamos nada. Nessa época Portugal era uma brincadeira, ninguém levava a sério. Só agora é que o brasileiro comum começou a despertar para o país. Há dez anos, se alguém no Brasil dissesse que vinha para cá, perguntavam-lhe logo: "Portugal? Mas então quando é que você vai para a Europa?" Quando eu vim, nesse primeiro ano, Portugal era muito primitivo comparativamente a outros países. As estradas eram horríveis, não eram como são agora; vocês tinham dois ou três canais de televisão e as pessoas eram fechadíssimas. Os brasileiros achavam que a comida portugesa era bacalhau e vinho do Porto e mais nada. Quando digo primitivo, não estou a dizer que comiam com as mãos, simplesmente eram primitivos em relação aos países que nós estávamos habituados a conhecer na Europa.

Já entrevistou muitos dos surfistas que cá estão. Quais é que conhece bem?
Eu sou muito ruim de entrevista, tanto para dar como para fazer. Não me sinto à vontade para entrevistar os surfistas. Gosto de conversar. Se acontecer sentar-me com eles à mesa, então faço muitas perguntas e converso. Mas marcar hora para entrevista, isso não fiz muitas vezes. Só quando o trabalho assim o exige, como acontecia quando eu trabalhava em televisão. Acompanho-os de perto há muito tempo, já conversei com quase todos, mas não temos afinidade.

Sei que começou a aprender inglês para conseguir entender o que se escrevia sobre surf em publicações internacionais. Porquê?
Eu sempre acompanhei o surf de competição muito de perto e ficava irritado quando lia o que os brasileiros escreviam sobre o campeonato. Achava demasiado raso, demasiado pobre. Ficava louco. Por isso, obriguei-me a aprender inglês para conseguir ler o que se escrevia sobre surf lá fora e comparar ao que era escrito no Brasil. Além daquela narrativa básica, há muitas outras coisas que tem interesse saber. Por exemplo, um tipo vence uma prova. Ok, tudo bem, teve um desempenho fascinante, mas o que é que aconteceu àquele tipo antes de ganhar? Será que lhe aconteceu alguma coisa antes do campeonato? Durante o campeonato? Alguém o provocou? O desafiou? É importante conhecer as histórias por detrás da história. Eu sempre gostei de ler os cronistas brasileiros. Acho que a crónica é uma coisa muito portuguesa, não do país, mas da língua portuguesa. De vez em quando leio as crónicas daquele escritor português, o Miguel Esteves Cardoso. Ele escreve aquelas crónicas curtas e eu sempre gostei disso. Porque a crónica é mesmo isso, é sobre detalhes, coisas corriqueiras. É sobre a nossa conversa aqui, sobre os teus óculos, sobre o livro que está em cima da mesa, sobre o jeito como você fica com mão no queixo enquanto conversamos. Eu achava que o campeonato de surf merecia isso e foi o que eu sempre tentei fazer. Sou colunista há 20 anos, ou seja, há 20 anos que tenho de arranjar uma desculpa para escrever todos os meses. Por outro lado, há tipos que escrevem crónicas todos os dias ou duas ou três por vezes por semana. Isso fascina-me, mas também me assombra.

Esteve presente na primeira passagem do circuito mundial por Peniche, em 2009, e nas passagens seguintes. Nota que o evento é hoje muito diferente do que era antes?
Atualmente o surf tem muita relevância para o povo português. Há notícias sobre surf em todos os jornais, mesmo que não haja surfistas portugueses a competir. Isso para mim é muito surpreendente. Não quer dizer que o surf fosse marginal quando eu comecei a vir cá, mas era bem diferente do que é agora. 2009 foi um marco. Há um antes e um depois de 2009. O campeonato é pelo menos três ou quatro vezes maior agora. É maior a estrutura física e é maior a repercussão que tem. Portugal vive um momento muito exuberante no surf e acho que os portugueses, graças a uma crise e a um momento económico pouco favorável, redescobriram uma vocação formidável para o turismo. Vê-se cada vez mais turistas aqui, assim como escolas de surf. Os surfistas já não são recebeidos com uma prancha, roupa de borracha e acomodação modesta. Hoje em dia, há noruegueses e dinamarqueses a investir em Peniche e na Ericeira.

Vamos a resultados. Há algum surfista que gostasse de ver ganhar aqui?
Eu gostaria de ver o Adriano [Adriano de Souza] triunfando. Contra tudo e contra todos, gostaria de vê-lo surpreendendo uma vez mais, e estou torcendo para que ele ganhe o título este ano. Não sei se vai ser a última oportunidade, talvez seja, mas ia ser muito importante para ele. Ia ser um ciclo fechado.

Ciclo fechado porquê?
O Adriano tem vindo a chegar perto do título já há vários anos. De repente, aparece o Gabriel, que é um daqueles casos raríssimos de talento extraordinário, e muito mais novo do que ele, e pumba! Ganha o campeonato, e aparentemente, só aparentemente, sem tanto esforço e sofrimento. O Adriano conseguiu este ano encontrar um trilho e nunca esteve tão próximo do título mundial. Tem sido um-dois, um-dois, um-dois; ora ele é o primeiro, ora é o segundo.

Sente uma certa empatia pelos menos 'afortunados'?
As pessoas costumam identificar-se com aqueles que são mais parecidas consigo. Eu não tenho amizade pelo Adriano. Sempre fui um tipo de talento limitado e de muita vontade, mas nunca tive a vontade que o Adriano tem. Ele tem uma vontade gigantesca, quase absurda, assim como o Saca e assim como o Mick Fanning. O Fanning é um daqueles surfistas que foi talhado para ser campeão mundial muito cedo mas só ganhou o título com 27 anos. Nessa altura, escrevi um artigo para a Surf Portugal a dizer que ele ganhou o título com a mesma idade que o Mark Richards, quatro vezes campeão mundial, se aposentou. Entre os 19 e os 26 anos, Fanning percebeu que aquilo que fazia não era suficiente, que precisava de se sacrificar mais. Ele era um selvagem, bebia muito, estava sempre a divertir-se e achava que as coisas iam acontecer. Aí ele percebeu que não, que tinha de parar de ir a festas e beber do jeito que bebia, que tinha de levar o surf mais a sério. E em 2007, ele decidiu fazer isso, e quando conseguiu ser ser campeão mundial bebeu por todos os meses em que não tinha bebido e festejou como nunca tinha festejado antes.

E será mesmo a última oportunidade do Adriano?
Na carreira competitiva nunca se sabe o que vai acontecer no ano seguinte. Na primeira etapa nada pode dar muito certo, na segunda mais ou menos e na terceira o título já era. E ficar entre os primeiros três, quatro ou cinco lugares não é a mesma coisa que disputar o título. E é isso que ele está a fazer este ano, tal como o Gabriel fez no ano passado e como Fanning tem vindo a fazer continuamente.

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