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Râguebi: vamos ter um governo do hemisfério Sul ou uma coligação do Norte?

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Este fim de semana reserve oito horas no sofá. Não se vai arrepender. Vai perceber como o futebol está atrasado e como um jogo que passa pela conquista de terreno, numa luta palmo a palmo, enche estádios onde as claques se misturam, bebem hectolitros de cerveja e aceitam todas as decisões dos árbitros. Assistem às repetições nos ecrãs gigantes, ouvem as decisões dos juízes e a festa continua

Ricardo Costa

Ricardo Costa

Diretor de Informação da SIC

Está cansado ou confuso com as negociações que se arrastam nos palcos políticos nacionais? Quer olhar a política com mas distância e, já agora, com mais sabedoria? Então tente ter um olho em Twickenham e outro em Cardiff este fim de semana. Onde? Isso mesmo, nas duas catedrais britânicas do râguebi, onde este sábado e domingo se jogam os quartos de final do campeonato do mundo, a terceira prova desportiva mundial com mais espectadores nos estádios e maior número de transmissões televisiva, depois dos Jogos Olímpicos e do Campeonato do Mundo de Futebol.

São jogos de primeira água, onde as oito melhores equipas do mundo (Inglaterra ficou pelo caminho, depois de ser surpreendida em casa por um épico País de Gales) se vão bater pela passagem à próxima ronda, em lições ao vivo de tática militar e política. Alguns leitores devem pensar que estou a delirar ou a forçar analogias. É verdade que quase todos os desportos coletivos podem ser lidos com algumas analogias políticas ou militares, mas nenhum como o râguebi, um desporto onde as individualidades não têm qualquer hipótese de existência fora do coletivo e onde o grande objetivo, quando se joga a este nível, é conquistar terreno de forma sólida, num jogo físico e tático que não admite uma falha, empurrando o adversário para linhas defensivas onde este pode claudicar ou cometer erros fatais.

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Passos Coelho, Paulo Portas, António Costa, Catarina Martins e Jerónimo Sousa deveriam olhar este sábado, às 16h, para o África do Sul - País de Gales (e à hora do jantar para o Nova Zelândia –França). Os do hemisfério Sul são vencedores à partida, sobretudo os temidos neozelandeses. Mas a capacidade de surpresa num jogo onde a resistência física e mental, bem como a surpresa, são fundamentais é o melhor exemplo de quem conta com facilidades à partida, ou acha que está tudo garantido, pode ter grandes surpresas.

Neste domingo, o hemisfério sul coloca a Austrália a enfrentar a Escócia (16h, em Twickenham) e a Argentina a defrontar a poderosa Irlanda (13h em Cardiff). Vamos ter um governo do hemisfério Sul ou uma coligação do Norte? Depois da incrível campanha galesa, que chegou a este mundial rotulada como underdog e muitas estrelas lesionadas, e da solidez crescente da Argentina, ninguém sabe bem o que vai acontecer dentro do campo. Mas sabemos que, fora dos relvados será a festa de sempre: estádios completamente lotados (o Argentina-Nova Zelândia em Wembley teve 89 mil espectadores), adeptos misturados, boa parte deles mascarados como se fosse carnaval, imensa cerveja bebida antes, durante e depois do jogo. E tudo num jogo que adotou uma série de regras a que o futebol chegará mais tarde ou mais cedo.

As mais evidentes são as tecnológicas, seja para quem assiste a um jogo deste nível na televisão ou num estádio. Na televisão impressiona poder-se ouvir as conversas dos árbitros com os jogadores (que naturalmente não protestam nem dizem um palavrão), a câmara que está colocada no peito do árbitro, as repetições exaustivas e as conversas entre toda a equipa de arbitragem. É uma transparência brutal, que reduz praticamente a zero as decisões polémicas e, sobretudo, as discussões em que se enredam os adeptos do futebol dias ou semanas a fio.

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Faz uma certa confusão para quem gosta destes dois desportos - é o meu caso - como é que duas modalidades que se jogam em partidas com tempos idênticos (90 no futebol, 80 no râguebi), divididos em duas partes, com equipas numerosas (11 e 15 respetivamente), em estádios de grande dimensão, com grandes transmissões televisivas, interesse global (o futebol é maior, neste caso), patrocinadores importantes e muito dinheiro e publicidade associada, possam estar tão distantes no fair-play, na evolução das regras do jogo e na tecnologia envolvida.

No estádio a diferença é ainda mais brutal. No primeiro fim de semana da prova fui a Cardiff assistir ao País de Gales - Uruguai no famoso Millennium Stadium. A primeira coisa que impressiona são as ruas, com milhares de pessoas de seleções diferentes misturadas, sem que quase se veja um polícia. A confraternização entre adeptos é estranha para quem está habituada ao futebol, mas faz parte do râguebi.

Dentro do estádio, há duas coisas que saltam imediatamente aos olhos: a) o recurso às repetições vídeo, que reduzem de um forma drástica os protestos nas bancadas, mesmo quando os adeptos acabaram de festejar um ensaio; b) o facto de se vender cerveja nos bares e de quase toda a gente se dirigir para os lugares munido de uma (ou mais) generosa cervejinha.

Se os adeptos do futebol ainda se questionam se as repetições vídeo fazem ou não sentido, então deviam fazer a mesma pergunta sobre a cerveja. É que as duas coisas estão ligadas. A mesma razão que não impede a venda de cerveja é a que levou naturalmente ao recurso à tecnologia em pleno jogo: o facto de o desporto ser seguido pelo que ele é, mesmo a este altíssimo nível, sem que seja uma selva de mau comportamento, dúvidas e suspeições, que no futebol começam no relvado e alastram à bancada e às ruas.

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Em muitos dos jogos que já ocorreram pudemos ver fabulosos ensaios a serem anulados por faltas quase impossíveis de vislumbrar, mas que a repetição vídeo acaba por desmontar. Torna o espetáculo menos bonito? Sim, é verdade, alguns daqueles ensaios foram obras de arte e o público tinha acabado de os festejar como tal. Mas a questão é outra: o que teria acontecido aos diversos adeptos se, quando chegassem a casa, pudessem verificar que o jogador tinha largado a bola no ar antes do ensaio ou que,a final, tinha pisado a linha? Exatamente o mesmo que acontece no futebol.

É costume dizer que o que faz os jogadores de râguebi de uma equipa baterem palmas à equipa adversária, por vezes em corredor, no final de um jogo é a tradição. Isso é apenas meia-verdade. É certo que desde pequenos que os jogadores são habituados a isso. Mas o que permite esta tradição perdurar é quase inexistência de polémica fútil ou desnecessária. Um mundial tem tanto para discutir - jogadores, táticas, jogadas, ações disciplinares, etc. - que não vale a pena perder tempo com inutilidades.

No jogo mais surpreendente do torneio - a incrível vitória do Japão sobre a África do Sul - o mais curioso não foi ver os jogadores derrotados a cumprimentarem os japoneses depois de uma derrota humilhante. Foi saber-se depois que vários adeptos da África do Sul tinham feito guarda de honra a adeptos do Japão à entrada dos transportes públicos, por terem apoiado a equipa vencedora.

Não são os adeptos do râguebi que são melhores do que o futebol, é o desporto em si que soube colocar-se muito à frente. Nada que o futebol não possa fazer, apenas não quer. A mesma FIFA que arrastou o futebol para escândalos sucessivos, acha que a introdução de repetições vídeos nos estádios de mundiais e de grandes torneios ou a audição em direto de qualquer diálogo com o árbitro ou da equipa de arbitragem prejudicam o espetáculo. Qualquer pessoas que este fim de semana guarde uma hora para ver algum destes jogos perceberá o ridículo desta posição. Aproveitem, que as meias finais são só no outro fim de semana.