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Futebol, território de depressão

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O debate em torno dos distúrbios depressivos no futebol intensificou-se após a morte por suicídio de Robert Enke, antigo jogador do Benfica, em 2009

OLIVER LANG / AFP / Getty Images

Estudo da FIFPro revela que os profissionais de futebol ficam mais deprimidos do que a população em geral e do que os atletas de elite de outras modalidades. Lesões graves são a principal causa de ansiedade

Isabel Paulo

Isabel Paulo

Jornalista

As conclusões de um inquérito realizado pelo sindicato internacional dos jogadores de futebol profissional conclui que o mediático mundo da bola não dá felicidade nem saúde a boa parte dos seus praticantes. O estudo dirigido por Vicent Gouttebarge, responsável médico da FIFPro e catedrático da Faculdade de Medicina de Amesterdão, indicia que os futebolistas tendem a ficar mais deprimidos do que o comum dos mortais e mesmo mais do que atletas de outras modalidades de alta competição.

Numa amostra de 826 jogadores, 38% dos futebolistas em atividade e 35% dos ex-jogadores inquiridos confessaram que em alguma fase da sua vida atravessaram um quadro depressivo mais ou menos severo. Os dados recolhidos junto de profissionais de 11 campeontaos, entre os quais Espanha, França, Suíça Bélgica, Perú e Japão, indiciam ainda que a probabilidade de desenvolverem distúrbios de ansiendade emocional e mental é duas a quatro vezes superior no caso de terem passado por lesões graves, “sobretudo quando determinam o fim de carreira”.

Jorge Silvério, especialista em psicologia desportiva, afirma não ter ficado surpreendido com as conclusões do inquérito da FIFPro, adiantando que investigações recentes apontam no mesmo sentido. Da sua experiência junto de profissionais de futebol, Silvério aponta as lesões e o receio de reincidência como uma das principais causas da ansiedade que conduz à doença, tida como o mal do século XXI pela Organização Mundial de Saúde.

Lesões graves na origem do mal

“Para uma recuperação ser eficaz, o acompanhamento psicológico é importantíssimo para que o jogador supere o medo de novas lesões e ganhe confiança para ter a mesma agressividade positiva em campo, ou seja, deixe de ter receio de meter o pé”, observa o psicólogo que já passou pelas equipas do Sporting de Braga e Paços de Ferreira.

“É preciso ver que quando um jogador tem uma lesão grave fica excluído do trabalho em equipa, o que o faz provar altos níveis de ansiedade, até porque nunca sabe se voltará a competir ao nível anterior à lesão e do que dele esperam treinadores, dirigentes e adeptos”.

A imaturidade emocional dos jogadores, “que chegam muito jovens e pouco preparados para lidar com a pressão do alto rendimento e profissionalismo”, é outras das razões apontadas por Jorge Sívério para a maior incidência da doença no futebol.

Pablo del Río, psicólogo do Conselho Superior dos Desportos espanhol, citado pelo “El País”, adianta que atualmente os escalões de formação têm acompanhamento psicólógico mas “a maioria das equipa profissionais deixa muito a desejar” numa questão quase tabu até há alguns anos.

No inquérito, 23% dos jogadores no ativo e 28% dos retirados adiantaram ter problemas em conciliar o sono, 15% e 18% acusaram sintomas de mal-estar, e 9% e 25% problemas relacionados com alcoolismo.

O debate em torno dos distúrbios depressivos na mais mediárica das modaliddes desportivas intensificou-se após a morte de Robert Enke, em 2009. O antigo guarda-redes do Barcelona e do Benfica saltou para uma linha férrea em Hannover, Alemanha, suicídio explicado com uma depressão profunda motivada pela morte da filha três anos antes.

A biografia póstuma de Enke, da autoria do jornalista alemão Ronald Reng indicia, contudo, que a batalha perdida contra a depressão terá sido ainda causada por revezes profissonais .Em 2013, o antigo internacional eslovaco, Marek Spilar, ex-jogador do Bruges, também se suicidou, em Prestov, na Eslováquia, após anos de luta contra uma depressão.