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“Há pilotos que, coitados, não batem bem da cabeça”

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Jose Carlos Carvalho

Entrevista a Miguel Oliveira, piloto do Mundial de Motociclismo

Pedro Candeias

Pedro Candeias

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Coordenador

José Carlos Carvalho

José Carlos Carvalho

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Fotojornalista

Miguel Oliveira é português, corre na categoria Moto3, ganhou três provas e está no terceiro lugar do Mundial. Quer duas coisas: fazer boa figura na Moto2 para o ano e chegar à MotoGP um dia. Com calma, que a pressa fica na pista...

Como é que vieste para aqui?
De carro.

De carro?
Sim, de moto é muito diferente. O piso, a estrada, a condução dos outros, os carros, sei lá, são coisas que eu não controlo. Moto é na pista, no circuito. Dou umas voltinhas, em Almada, onde moro, mas Lisboa, para mim, não dá.

Conduzes bem?
Não ponho ninguém em perigo, embora ande um bocadinho depressa por vezes. Sou um condutor exemplar.

Quando recebeste a primeira moto?
Tinha 2 anos, foi num Natal. Não me lembro se fiquei feliz ou não [risos], mas recordo-me de andar com ela, isso sim. O meu pai, na altura, competia, e eu aproveitava para imitá-lo. Nós vivíamos ao pé de uma praça, que tinha uma espécie de oval, e eu andava lá a tentar tocar com o joelho no chão — e tocava. Aparecia todo raspado em casa, cheio de sangue.

E quando é que pensaste que irias ser piloto de profissão?
Bem mais tarde, com 12, 13 anos. Apareceram os resultados e os patrocinadores, as coisas começaram a ficar mais sérias. Percebi que podia retirar algum partido disto, viver disto. Obviamente que contei com o apoio da minha família [o pai é empresário; a mãe, médica], de amigos, da federação, porque este é um desporto que sai caro no início.

Há muita competição?
Sim, é um desporto individual, e isso cria muita rivalidade. Partilhas a pista com 32 pilotos, é cada um por si. E eu senti-o desde o início, de miúdo. Sim, brincávamos antes da corrida, “vou passar-te, vê lá isso”, mas lá dentro era a sério e havia toques.

Nunca te aleijaste nessa altura?
Parti um polegar, nada de grave.

E agora?
Este ano fui operado à mão [mostra a cicatriz]. Já parti um braço, antes, mas, lá está, também me podia ter acontecido isso a jogar à bola, se caísse em cima de um ombro.

O que esperas fazer na Moto2?
Já experimentei a Moto2, treino numa moto com o mesmo motor. Mas é difícil prever o que vou fazer. Gostaria de terminar no top 5. Não me quero atirar para fora do pé.

Consegues chegar à MotoGP?
Claro que sim. E estou entregue a mim, aos meus resultados. É óbvio que, se tivesse outro tipo de patrocinador, podia gerar outro tipo de interesses. Mas terá mais valor conseguir entrar numa equipa de MotoGP por mérito próprio.

E como é viver fora de Portugal?
Eh, pá, faz-te ter muitas saudades de Portugal e do bitoque [risos].

Qual a melhor pista?
Olha, o Mundial leva-nos a muitos sítios, e já estive em lugares incríveis. O difícil é ter tempo para aproveitar, porque temos compromissos, conferências, treinos — e estamos a trabalhar, não andamos com cabeça para outras coisas. Mas recordo-me da primeira vez que estive no circuito de Phillip Island, na Austrália, e foi estilo “uaauu!”. Aquilo é numa ilha, ligada por uma ponte, e tens o mar por todo o lado — na reta da meta vi o mar e devo ter feito a minha pior volta de sempre, porque ia mesmo devagar. Mas nós, basicamente, não pensamos em nada. É tudo mecânico, como guiar um carro, em que tens de mexer no ar condicionado ou no rádio ou no telemóvel [sorriso], com a diferença de que é tudo muito mais rápido. E há a pressão. E o stresse.

Por seres português, foi-te difícil?
É indiferente, a sério que é, porque o Mundial é muito internacional. Tens várias nacionalidades, sobretudo espanhóis.

O que não é indiferente é que este é um país com menos recursos...
Pois, é mais difícil. Temos um mercado fraco em termos de motociclismo.

Já és pago?
Sim, o meu valor desportivo permitiu-me dar o salto [de piloto pagante para piloto pago] para este lado. E, mais do que isso, já me posso dar ao luxo de pedir, de negociar.

O que é que fizeste ao primeiro ordenado?
[silêncio] Sinceramente... Não me lembro, nunca me fizeram essa pergunta. Não comprei nada; aliás, pu-lo direitinho no banco e deixei-o lá. Sou muito poupado, não entro em maluquices, porque a carreira de piloto é curta. Olha, posso dizer-te que em junho abri uma clínica dentária, na Margem Sul.

Para a qual irás depois de completares o curso de Medicina Dentária?
[risos] Para já, vou empregar gente de confiança, certo?

E o que será mais difícil: pilotar ou desvitalizar um dente?
Não sei, ainda não fiz nenhuma desvitalização [risos]. Mas são duas coisas equiparáveis: ambas exigem destreza manual, precisão, concentração e uma adaptação constante — um doente não pode ficar sempre de boca aberta e cada pessoa tem o seu limite de abertura. É uma comparação rebuscada.

Já és reconhecido na rua?
Bastante, o que me deixa satisfeito. Lido bem com isso, é tranquilo.

E as fãs?
[silêncio] Recebo muitas mensagens, no Facebook, mas não consigo responder a tudo. Recebo algumas coisas, nada exótico, mas há fãs que mandam desenhos meus e fazem publicações um bocadinho mais... sensuais [risos]. Nada de especial.

E o fã que tatuou a tua assinatura no braço?
Olha, aconteceu num jantar de fãs que eu organizei. Ele pediu-me para lhe autografar o braço com a minha assinatura, porque a ia tatuar. E eu, pronto, OK, lá assinei. Mostrou-ma e acompanhou-me inclusivamente numa corrida. É feliz da vida com a minha assinatura, com a mulher e a família. Ele estava tramado se eu mudasse a minha assinatura...

E tu mudaste?
Não, sou o mesmo Miguel, aquele que chegou até aqui.

Abdicaste de muito no caminho?
Refugiei-me no treino... Às vezes, quando penso nisso, não me surge nenhum arrependimento, porque foi mesmo aquilo que eu escolhi. Se recuso uma saída, não lamento. É a vida que escolhi. Faltei a festas na escola, festas com amigos, baile de finalistas. Não tive isso, tive outras coisas. Passei ao lado de uma juventude... banal. A minha não é banal — ando desde os 16 anos pelo mundo fora. Acho que não me arrependo.

Bebes?
Bebo, bebo, pois. Mas sou muito moderado. Não gosto de perder o controlo. Fico alegre e tal, mas nada de exageros. Não planeio quando festejo ou não. Quando há que celebrar, eu sou da opinião que temos de fazê-lo à grande; quando as coisas correm mal, não é preciso pôr uma faca no peito.

E há loucuras no Mundial?
[silêncio] Há coisas que se passam que não se podem dizer [sorriso]. Não há muito, aliás, que se possa dizer. Já estive em ambientes desses, claro. Sabes como é: andamos todos juntos durante o ano, todos nos conhecemos...

E tornam-se amigos?
Há pilotos que eu considero como... não inimigos. Não são inimigos, mas também não são amigos. Por exemplo, dou-me bem com o Danny Kent, que é o líder do campeonato, mas não vou para a pista a pensar na conversa que tive com ele na noite anterior.

Que tipo de conversa?
Faz parte do jogo mandar uma boca ou outra para pô-los a pensar, deixá-los inseguros. Há pilotos que entram no jogo, outros não. Eu entro no jogo, é fixe deixá-los nervosos. Tenho de ser confiante. Num mundo como este, se nos rebaixamos, as pessoas acabam por te pisar. Nasci assim.

Há pilotos com apoio psicológico?
Uns, sim, coitados [risos], porque não batem bem da cabeça. Outros porque não sabem lidar com os maus resultados. Eu, felizmente, sempre me guiei bem mentalmente. Sou muito organizado, muito metódico, tenho os meus cadernos todos limpinhos, a minha agenda bem feita. Faço trabalho funcional três vezes por semana no Centro de Alto Rendimento do Jamor com o professor Bruno Jorge; nos outros três dias, corro ou faço treino aeróbico; ao domingo, descanso.

O que sentes depois da corrida?
Dói-me tudo: braços, pernas, costas, mãos... Na TV parece tudo muito linear, passamos muito devagarinho, não é? Mas não é nada assim. As pistas têm muitos desníveis, há toques entre pilotos. Mas não é um desporto perigoso. Tem riscos, mas cada vez mais há tecnologias envolvidas: capacetes, corretores, a tinta com que se pinta as linhas tem de ser específica para não deixar escorregar, há muitas escapatórias, equipas médicas no local, etc.

O teu ídolo é o Valentino Rossi?
Continua a ser o Rossi e pedi-lhe autógrafos várias vezes. Depois, quando entrei para o Mundial, deixei de pedir. Falo com ele de vez em quando e já fui à quinta que ele tem em Itália, com uma pista de terra. É espetacular!

E a casa?
Ele não mostra onde é a casa dele. Já viste o que era o Valentino dizer onde mora? Mas ele é excelente. Aquilo que transparece na televisão é aquilo que ele é: divertido e expansivo.

Ele também é dos que anda naqueles ambientes que não podes contar?
[silêncio]. Sim.