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Nico: Do divã para o colchão e do colchão para os colchoneros

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JUANJO MARTIN/ EPA

O Benfica ganhou ao Atlético em Madrid (2-1) e chegou à liderança do Grupo C, com 6 pontos. Gaitán entrou a dormir mas acordou a tempo de deixar os espanhóis com sonhos maus. O Benfica não ganhava em Espanha há 33 anos e o Atlético não sofria golos em casa para a Champions desde março de 2014

A história que os treinadores nos vendem é esta: só nos interessa aquilo que nos diz respeito, não estamos preocupados com a outra equipa, se formos iguais a nós próprios vamos lá - e por aí fora. Já estão a perceber onde quero chegar.

Ora, isto é bonito de se dizer e seria ainda mais bonito de ouvir se caíssemos todos na moral do conto, como se o futebol fosse um desporto individual, um jogo de dois resultados apenas, em que ganhas ou que perdes. Mas numa competição a pontos, como um campeonato nacional ou esta Champions League, joga-se pelo pontinho e pelo empate e o que um faz diz respeito a toda a gente, toda a gente se preocupa com toda a gente e nem sempre vamos ao sítio se não mudarmos um bocadinho do que somos. Quem não se adapta, morre.

Foi o que o Benfica fez: manteve os quatro médios e os dois avançados mas deixou-se da posse de bola (teve-a pouco), porque o meio-campo do Atlético era a três e o do Benfica a dois, e entregou-se à sorte (teve-a, alguma), ao contra-ataque (fê-lo bem) e à defesa (fê-la mal, mas chegou). E, claro está, a Gaitán, que fez um golo e assistiu para o segundo, de Guedes.

JUANJO MARTIN/ EPA

Do Cazaquistão, com amor

O Benfica apareceu descansado e relaxado (de mais, no caso de Eliseu, no 1-0 de Correa), como se o resultado contasse menos do que se esperava - e contava menos, porque horas antes tinha chegado uma bênção do Cazaquistão.

A equipa de Rui Vitória tinha a melhor das notícias na cabeça: o Astana empatara com o Galatasary (duas horas de diferença no Cazaquistão), num jogo com três autogolos (2-2) na segunda-parte. Ou seja, um empate em Espanha daria o primeiro lugar aos encarnados e uma derrota não os punha em palpos de aranha.

Uma pequena almofadinha de segurança para jogar no colchão dos colchoneros, em que Gaitán esteve a dormir nos primeiros minutos: deixou Eliseu sozinho e dessa solidão do açoriano que precisa de quem o acuda nasceu aquele golo de Correa. Juanfran, que é defesa, cruzou, Jardel falhou e, pronto, remate de Correa, 1-0. Nesta fase, Samaris discutia com a defesa e fazia ele mesmo disparates, Eliseu atirava-se para o chão, Luisão arriscava o fora-de-jogo e o Benfica estava desorientado, à espera que o seu xamã argentino aparecesse no Vicente Calderón. O trabalho de Jonas, que descia para ajudar quem lá estava a trás, e tentava subir para se juntar a Jimenez, não chegava.

Às tantas, quando ninguém esperava, Semedo arrancou um cruzamento que Godín despachou mesmo, mesmo para o pé esquerdo de Gaitán: 1-1. De repente, o pequenino acordou e com ele acordaram as esperanças dos adeptos encarnados e o jogo equilibrou-se um pouco quando antes estava num plano muito inclinado. Mas faltava ainda a segunda-parte e a reação do Atlético que é rijo e não tem medo, como o treinador que o conduz.

JUAN MEDINA/ EPA

Às vezes, o melhor ataque é mesmo o ataque

Depois do descanso, a coisa começou tu cá, tu lá, mas não houve tempo para grandes conversas, pois Gaitán cruzou fez um passe de pé direito que o miúdo Guedes aproveitou para fazer o 2-1. E o Benfica estabilizou um pouco, fechado lá atrás, enquanto o Atlético tentou logo a reabrir portas que Júlio César fechou em duas penadas, uma delas a Jackson, outra a Correa. E Jackson voltaria a chutar e Luisão a cortar, e Correa a tentar o que Júlio César continuou a negar. Dali até ao fim, entrariam ainda Mitroglou, Fejsa e Pizzi para controlar um resultado que entrará para a história. E porquê? Porque o Benfica não ganhava em Espanha há 33 anos (Sevilha, em 1982). E porque o Atlético não sofria golos em casa para a Champions desde março de 2014.

Para isto contribuiu o-mesmo-de-sempre que está-sempre-num-sai-não-sai. Nico Gaitán começou o ano no divã, entrou em Madrid a dormir, e de lá saiu com o colchonero na mão.